Ela não passava de uma criança cujo nascimento dos seios desabrochava como botões de rosa. Sabia que algo lhe acontecia, porque havia dor ao mínimo toque. A dor que acompanha o nascer da vida estava presente a cada novo despertar do seu corpo. Mal sabia que outras dores lhe atingiriam para além da matéria que lhe constituía.

Enquanto as demais colegas fugiam das apresentações da escola, movidas pela vergonha de exibir-se aos outros, ela enfrentava seus pudores oferecendo-se com embaraço e atrevimento a representar todos os papéis que os eventos festivos e a vida convocavam-na a interpretar.

Ansiava pela chegada das festas juninas, porque participar das quadrilhas era-lhe uma fonte de alegria frustrada e, se lhe ofereciam o lugar da noiva, recusava-se de pronto a esse destino que sequer habitava seus pensamentos mesmo que fosse para figurar numa peça de teatro.

Tentava por si mesma escolher o seu par sem, no entanto, dar mostras de quem realmente queria e, se esse impasse tivesse que ser resolvido por meio de sorteio, usava de subterfúgios para que um certo menino fosse o escolhido. Porém, nunca teve a sorte de dançar com aquele que já lhe despertava, menina, os sentimentos de uma mulher feita. Só gozava o prazer de usufruir a companhia desejada tão somente nos momentos em que ocorria a troca de pares.

Quando davam-se as mãos, olhava-o no fundo dos olhos com o desdém que lhe era típico. Ele a despertava, mas jamais saberia de seus sentimentos para que nunca ousasse feri-los. Precisava de um sinal que lhe comprovasse que era correspondida antes de declarar-se a ele, e se não houvessem provas também não haveria revelações, pois o orgulho sempre lhe impediu de admitir uma paixão que não restasse recíproca. Essa confirmação aconteceria bem mais tarde quando os dois já eram adolescentes e se despediam pela última vez e para sempre.

Quando se viu tendo que participar de um evento em que precisava usar uma fantasia, com a qual ficaria mais nua e exposta, pensou em abandonar o ímpeto que a levara até então a nada hesitar. Vestida de havaiana, seu corpo estaria quase todo à mostra, seus seios seriam cobertos tão somente por dois adesivos vermelhos em formato de flor e uma saia branca e rodada deixaria de fora suas pernas curtas que ela mal sabia futuramente dar passos largos que a deixariam muito mais em evidência .

Salvou-lhe o fato de que havia um adorno para finalizar o que seria seu visual completo. Em sua cabeça foi colocada uma coroa de flores e, retirados os espinhos que serviram de tormenta para a cabeça de cristo, ela sentiu que não mais deveria temer mostrar-se meio nua e com o seu corpo às vésperas do derramamento de sangue. Carregaria a sua cruz que era a coisa na qual estava prestes a se transformar – um corpo de mulher.

O próximo desfile ocorreria em sete de setembro, mas lhe exigiria tão somente a voz. Misturada ao som das outras vozes de um coral, era com a mão no peito e o olhar fixo que cantava alto os hinos enaltecedores do Brasil, o qual seria sempre o mesmo.

Com o passar dos anos deixou de cantar o país do futuro e a calar a voz que entoava a composição nacionalista e apaixonada de Olavo Bilac em troca de declamar seus poemas a Eros. Não é que as dores a tenham deixado muda. É que ela quer falar, cantar e pintar apenas as coisas que verdadeiramente acredita. E por incrível que pareça, ainda acredita no amor, o qual nunca foi capaz de lhe doer menos, quer mulher, quer menina.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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