Atenção! Atenção! Pouso forçado em pleno deserto do Saara. Um aviador é obrigado a parar uma dessas viagens que os homens do planeta Terra fazem procurando não sei o quê e indo para não sei onde. É preciso consertar o seu avião e seguir caminho. O tempo é curto. Em oito dias, a reserva de água chegará ao fim e o aviador tem pressa, pois corre o risco de morrer de sede.

Imerso em sua importante atividade mecânica, eis que surge uma voz a lhe dizer: Desenhe um carneiro para mim. Ao virar-se, percebe-se frente a um menino de cabelos dourados. O aviador lhe responde que não sabe desenhar. Bem que, quando criança, até sonhara em ser pintor, no entanto os adultos o desencorajaram a esse ofício artístico. Disseram-lhe para fazer outras coisas. Estudar matemática, geografia ou inúmeras outras ciências, pois não era bom em desenhos. Ah, os adultos!

Mas o menino insistia. Ele nunca desistia de algo que quisesse. O aviador, como para se livrar do pequeno, uma vez que precisava urgentemente consertar o seu avião, desenhou o carneiro e, também, a pedido do menino, uma caixa para colocar o animalzinho dentro. Eram desenhos muito pequenos, porque o garoto já alertara que, no seu planeta, pouco maior que uma casa, as coisas eram bastante pequeninas.

Foram nessas circunstâncias que o aviador conheceu o Pequeno Príncipe e revelou, seis anos depois, as maravilhas desse grande encontro.

O pequeno príncipe resolveu lançar-se a outros mundos em busca de trabalho e para aprender coisas novas. No seu planeta, ele tinha por atividade limpar três vulcões e impedir que os baobás crescessem demasiadamente a ponto de invadir todo o seu pequeno espaço, um dos motivos porque queria um carneiro que comesse os baobás. Também tinha uma rosa que ele amava, porém a achava muito vaidosa e orgulhosa. Nada do que possuía foi capaz de impedi-lo seguir rumo a outros asteróides. Nem mesmo o fato de poder contemplar várias vezes o pôr-do-sol, de que ele tanto gostava, foi motivo suficiente para fazê-lo mudar de ideia. Assim, partiu e disse adeus à sua rosa que ficou sozinha e muito triste.

Antes de chegar à Terra e conhecer o aviador, o Pequeno Príncipe passou por alguns outros planetas e conheceu algumas figuras inusitadas e um tanto quanto estranhas.

O primeiro deles era habitado por um rei. Ao avistar o menino, a majestade animou-se com a ideia de ter um súdito aos seus pés, tão orgulhoso que era. O rei fez questão de afirmar ao pequeno todo o seu poder, uma vez que reinava sobre todas as coisas. Como a coisa de que mais gostava era ver o pôr-do-sol, o pequeno pediu ao todo poderoso rei que usasse de sua onipotência para ordenar ao sol que se pusesse várias vezes num só dia. Infelizmente, o rei não pôde atendê-lo. Sem querer admitir que seu poder não era tão grande assim, informou ao menino que precisava esperar por condições mais favoráveis para atender à sua solicitação.

Para despistá-lo, o soberano ofereceu outras regalias ao pequeno. Poderia torná-lo Ministro da Justiça, embaixador ou qualquer outra autoridade. Mas o pequeno só queria mesmo era ver o sol se pôr várias vezes num só dia. Esse era o seu único desejo.

Ser Ministro da Justiça não lhe interessava. Ser juiz, muito menos. Julgar a quem? Não havia ninguém para julgar. Além do mais, ele não gostava de condenar ninguém à morte. Só queria ir embora daquele lugar. O Rei tentou convencê-lo: Você pode julgar a si mesmo. A resposta do pequeno foi categórica: Posso julgar a mim mesmo em qualquer outro lugar. E foi-se embora sem olhar para trás.

O segundo planeta era habitado por um vaidoso. Se alguém ainda não sabe, quero explicar. Vaidoso é aquele que tem vaidade. E vaidade provém do latim vanitas e quer dizer vazio. Somos vaidosos, porque somos vazios. Dentro de nós, sabemos o tamanho de nossa insignificância e, por isso, queremos provar o tempo todo que somos importantes. Eclesiastes, um dos livros bíblicos que mais gosto e que deu-me certo entendimento quanto à existência, nos chama a atenção para a nossa desimportância diante da magnitude de Deus: É para o benefício das pessoas que Deus as põe à prova, para que vejam que elas, em si mesmas, são como animais, pois a sorte do ser humano e dos animais é a mesma; tanto morre um como o outro; todos têm o mesmo sopro. O ser humano não leva vantagem nenhuma sobre os animais, porque tudo é ilusão. Todos vão para o mesmo lugar: Todos vêm do pó, e ao pó todos voltam. Portanto, tudo é ilusão e vaidade.

Dito isso, saltemos para o encontro do pequeno príncipe com o vaidoso, o qual gostava de muitos aplausos e elogios. Os vaidosos só escutam os elogios. O vaidoso gostava de ser admirado, portanto implorou ao pequeno que o admirasse. Mas o que é admirar, quis saber o menino? Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, o mais bem-vestido, o mais rico e o mais inteligente do planeta – disse-lhe.
O Pequeno Príncipe achou tudo muito estranho e fez uma observação: Eu até posso admirá-lo. Mas o que você ganhará com isso? E foi-se embora do segundo planeta.

O aplauso, o elogio, o reconhecimento e o julgamento do outro não muda nem altera o que somos, no entanto fazemos de tudo em busca de aceitação, movidos, talvez, pela ilusão e pelo vazio que nos habitam. Muitas vezes, nos sentimos mais do que realmente somos e não pensamos que basta uma ventania, uma doença ou uma rejeição para nos balançar diante de nossas prévias certezas. Grande é Deus. Ele e só Ele.

O livro da Sabedoria, Eclesiástico, nos chama a combater nosso complexo de Deus: De que, porém, se orgulhará quem é terra e cinza, quem, ainda em vida, expele os intestinos: Uma doença prolongada zomba do médico; quem hoje é rei amanhã estará morto. Pois na morte são os répteis, as feras e os vermes que têm como herança o ser humano.

Perdoem-me, leitores, por ser tão impiedosa e dura ao revelar verdades que preferimos fingir não conhecer. A obra O Pequeno Príncipe é tão amada e admirada por tantos e eu me ponho descaradamente a falar sobre ela com pinceladas de assuntos indelicados e indesejáveis como a morte. Não me levem a mal, pois ao ressaltar a finitude quero esfregar-lhes a vida. Para vivermos melhor, direcionando atenção ao que realmente importa, precisamos estar conscientes de nossa mortalidade.

O exercício que faço contra a minha própria vaidade é diário e constante. E, ainda assim, muitas vezes suponho-me grande. Dirijo-me a Deus com um verso ousado de um poema de Adélia Prado: me cura de ser grande, ó meu Deus, meu pai, meu pai. E eu mesma pergunto: onde está a minha grandeza Senhor? Encho-me de mim, vou crescendo, crescendo e fico tão imensa que levo às mãos à Bíblia, leio Eclesiastes, Eclesiástico e, de novo, torno ao pó.

A existência do principezinho era simples, melancólica e desprovida de vaidade, por saber-se pequeno. Também tenho momentos de pura melancolia, de consciência bruta do vazio em mim habitável, mas a pequenez sabida, porém não admitida e não aceita coloca-me novamente em pé no paraíso sem maçãs ou serpentes. E se escondo a melancolia não é puramente por orgulho e vaidade. É tão somente porque lhes quero alegres e a sorrir. Não quero contaminar-lhes com o meu pecado, muito menos lançar o veneno da lucidez contra quem nada fez em desfavor de mim.

O terceiro planeta visitado pelo Pequeno Príncipe era habitado por um bêbado. Um bêbado que bebia para esquecer que bebia, pois sentia vergonha de beber. Quantas coisas continuamos a fazer mesmo quando elas nos causam vergonha?

O quarto planeta tinha por morador um empresário, o qual não percebeu a chegada do pequeno, uma vez que estava muito ocupado a fazer contas. Por ser um homem preciso e sério, não tinha tempo para lidar com bobagens. Tão imerso estava em seus negócios que até desenvolveu uma crise de reumatismo já que não lhe sobrava tempo para praticar atividade física. Só os números lhe interessava. Afinal, os adultos adoram números.

Quando vocês falarem de um novo amigo, os adultos nunca vão perguntar sobre as coisas essenciais. Nunca irão perguntar, por exemplo: Qual é o som da voz do seu amigo? Quais as brincadeiras que ele gosta mais? Ele coleciona borboletas? Os adultos irão perguntar: Qual a idade dele? Quantos irmãos ele tem? Quanto ele pesa? Quanto o pai dele ganha? Só assim acreditam que podem conhecer uma pessoa. Se vocês disserem aos adultos: Vi uma linda casa de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombos no telhado…, eles não conseguirão visualizar essa casa. Será preciso dizer: Vi uma casa que custa dois milhões de reais. Aí, sim, eles vão exclamar: Essa casa deve ser linda!

Portanto, não permitam que suas ocupações diárias, a necessidade de acumular e a ganância façam com que percam a sensibilidade para o essencial. Esqueçam os números nas ocasiões em que eles forem totalmente dispensáveis.

Ao perceber a forma estranha com que o empresário conduzia sua vida, o Pequeno Príncipe resolveu ir embora daquele lugar.

O quinto planeta, de tão pequeno que era, só cabia um lampião e um acendedor de lampião. O homem acendia e apagava o lampião minuto a minuto. Esse ofício automático e corriqueiro chamou tanto a atenção do menino que ele logo quis saber o porquê de acender e apagar o objeto em períodos tão curtos de tempo. O acendedor de lampiões respondeu que era o que mandava o regulamento. Entretanto, o planeta começou a girar mais rápido e o regulamento não foi atualizado. Ainda assim, aquele homem era fiel ao que proclamava a regra.

O Pequeno Príncipe imaginou que o habitante do quinto planeta talvez fosse desprezado pelo rei, pelo vaidoso, pelo bêbado e pelo empresário, contudo reconheceu: ele é o único adulto que não me parece ridículo, talvez porque se dedica a fazer uma coisa sem se preocupar apenas com os seus próprios interesses. Este é o único adulto que poderia ser meu amigo.”

O sexto planeta era habitado por um geógrafo que se autointitulava muito importante (ele era muito vaidoso). O geógrafo ficava em seu planeta esperando que os exploradores chegassem com as informações sobre as cidades, os mares, as montanhas, os rios, os desertos e os oceanos para que enfim ele registrasse as suas anotações.
O Pequeno Príncipe se pôs a falar sobre o que existia em seu próprio planeta, como por exemplo uma flor. No entanto, o geógrafo não achou nada interessante essa informação para os livros de geografia. As flores são efêmeras, disse ao pequeno que até então não sabia que efêmera significava uma coisa ameaçada de desaparecer em breve.

Ao lembrar-se da flor que havia deixado e da efemeridade dela, o Pequeno Príncipe teve a sua primeira reação de arrependimento. Descobriu que ela era mortal. Talvez não houvesse mais tempo de recuperar a linda rosa que abandonara. Talvez, quando voltasse para o seu pequeno planeta, a flor tivesse desaparecido, pensou ele. Isso o entristeceu e ele foi embora do sexto planeta pensando na amada.

De novo, o tema da finitude nos lembra que, assim como as flores são mortais, também são mortais todos aqueles que amamos. O Pequeno Príncipe amava a rosa, mas a achava extremamente vaidosa e orgulhosa, características que o incomodavam bastante. Por outro lado, ela era bela, envolvente e perfumada. Tinha defeitos e qualidades como qualquer ser e, se possuía espinhos, usava-os apenas para se defender, ingênua que era em não perceber que eles não eram suficientes para repelir todos os males que podiam atingi-la.

Apesar de orgulhosa, antes do pequeno partir, a flor declarou a ele o seu amor e admitiu o quanto fora vaidosamente tola. Ao lembrar-se dela, pensou: Fui incapaz de entendê-la! Eu não deveria ter julgado a flor por suas palavras, mas por suas ações. Ela me oferecia seu perfume e me enchia de alegria. Eu jamais deveria tê-la abandonado! O certo mesmo era eu ter percebido sua ternura por trás daqueles truques bobos. As flores são tão contraditórias. Mas eu era jovem demais para saber amá-la.

Precisamos entender e, sobretudo, aceitar que aqueles que amamos, assim como nós próprios, têm virtudes e defeitos. Essa é uma verdade incontestável, ainda que não saibamos lidar com ela. Somos imperfeitos, mas podemos nos tornar melhores a cada dia sem que para isso precisemos abandonar os que amamos. Não deixemos o arrependimento vir tarde como veio para o Pequeno Príncipe, o qual, ao lembrar-se da possibilidade de ter perdido a sua flor, experimentou uma profunda tristeza. Que tenhamos a capacidade de aprender com a sua dor antes que tenhamos as nossas próprias dores por não observarmos os infinitos exemplos que se apresentam diante de nós.

O sétimo lugar visitado pelo Pequeno Príncipe foi a Terra. A Terra não é um planeta como outro qualquer. Existem nele cento e onze reis (não se devendo esquecer, é óbvio, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil empresários, sete milhões e meio de bêbados, trezentos e onze milhões de vaidosos, ou seja, um total de mais ou menos dois bilhões de adultos.

Ao chegar nesse intrigante planeta, o Pequeno Príncipe deparou-se com um jardim cheio de rosas. Eram rosas muito parecidas com aquela que havia deixado. O menino ficou profundamente triste, porque ela havia lhe falado que era a única de sua espécie em todo o Universo. E agora estavam na sua frente cinco mil flores muito parecidas com ela, num único jardim!

Mais tarde, ao se deparar com uma raposa, as coisas começaram a ficar mais claras para o pequeno, pois a raposa, muito astuta, explicou-lhe: Você, para mim, ainda não passa de um menino semelhante a milhares de outros meninos. Eu não tenho necessidade de você. E você também não tem necessidade de mim. Eu, para você, ainda não passo de uma raposa semelhante a milhares de outras raposas. Mas se você me cativar, nós teremos necessidade um do outro. Você será o único menino do mundo para mim. E eu serei a única raposa do mundo… Assim, o pequeno príncipe entendeu que a sua flor não era como as outras. Ela o havia cativado. É o tempo que doamos ou perdemos com algo ou alguém que torna esse algo ou alguém importante para nós. Portanto, somos sempre responsáveis por aquilo que cativamos. Somos responsáveis pelos laços que criamos.

O pequeno príncipe também achou o sétimo planeta muito estranho e fez algumas observações acerca dos habitantes da Terra:
Os seres humanos não têm imaginação. Só repetem o que os outros dizem…
Ninguém está contente no lugar onde está.
Só as crianças sabem o que procuram.
Os seres humanos embarcam num trem expresso, mas depois já não sabem o que estão procurando. E por isso começam a se agitar e dão mil voltas sem saber para onde ir…

O Pequeno Príncipe é um livro para ser lido e relido inúmeras vezes, em diversos momentos de nossa vida. Eu mesma já o li repetidamente e a cada encontro aprendo algo novo. Não é à toa que a obra tornou-se um grande clássico da literatura. O seu autor, Antoine de Saint-Exupéry, era mesmo um aviador que teve o seu avião abatido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao saber quem era o piloto da máquina abatida, o soldado que alvejou o avião onde estava o escritor, declarou: Eu só soube depois que era Saint-Exupéry. Eu queria que não tivesse sido ele, porque todos os jovens da minha geração leram seus livros. Nós adorávamos ele.”

Talvez o Pequeno Príncipe tenha retornado ao seu planeta e encontrado a sua flor. Não saberemos se a serpente que disse levá-lo de volta cumpriu a promessa ou se usou de artimanhas para enganá-lo e destruí-lo. Prefiro acreditar que ele teve tempo de voltar para a sua rosa e pôde aprender que de nada adianta andar por todos os lugares se não temos ao nosso lado os que cativamos e amamos. O essencial não é ver paisagens, não é transitar por todos os lados, não é conhecer pessoas, as quais supomos “importantes”, mas que no final das contas não nos ensinam nada de interessante. O essencial não é dar voltas e voltas pelo mundo, pois só se ver bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. O que realmente importa não é o que vemos, mas o que sentimos.

Como nos ensina a Bíblia, em Mateus: Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Portanto, deixo a vocês, leitores, que descubram onde estão os seus tesouros e não percam tempo de suas vidas dando voltas e mais voltas para, no final, não chegarem a lugar algum ou não terem mais tempo para retornar.

E se me permitem uma sugestão, leiam e releiam O pequeno príncipe. Retirem dele os ensinamentos que precisam para viver melhor, pois um livro é capaz de transformar a nossa vida se estivermos abertos e atentos ao que ele tem a nos dizer.

Que esse livro seja capaz de tocar o coração de cada um de vocês fazendo-lhes despertar para o que há de mais essencial. Isso é o que verdadeiramente lhes desejo.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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