Eu sou Aninha

Antes de ser a tão conhecida Cora Coralina, ela era apenas aquela menina feia da ponte da Lapa. Ela era mais uma Aninha dentre tantas que existiam na Cidade de Goiás. A criança, cujo pai, de tão velho e doente, morreu logo após o nascimento da filha. Aninha, a menininha de pernas moles que vivia a cair pelos cantos sem ninguém que a colocasse novamente em pé. Aquela que se sentia pouco querida e a menos amada dentre as quatro filhas de sua mãe.

Seu nome de registro era Anna Lins dos Guimarães Peixoto, pois na Cidade de Goiás se mostrava bastante comum dar o nome Anna para muitas meninas que nasciam, em homenagem à padroeira da cidade, Santa Ana. No entanto, invadida pela vaidade que costuma habitar os escritores, a velha musa goiana decidiu por adotar o pseudônimo Cora Coralina, não só pelo desejo de diferenciar-se por seus pensamentos e sua poesia, mas também por apresentar-se com um nome que mais ninguém possuía. Eram muitas as Anas, de modo que podiam atribuir seus versos a uma que fosse mais bonita que ela. Assim, decidiu-se por Cora Coralina, que não possuía xarás. Bons ou ruins, seus versos não poderiam ser concedidos a outra que não ela própria.

Nascida na Casa Velha da Ponte, Cora passou a infância cercada por muitas mulheres da família, as quais queria, cada uma, exercer autoridade sobre ela. Via as ruas da cidade pela janela, quando deixavam, e o quintal com bichos e plantas acabou sendo o único lugar onde exercia o seu ludismo. Impossibilitada de estar na companhia de outras crianças e, também, das irmãs, que escapavam de Cora às escondidas, ela passava horas e horas a brincar nos fundos da casa. Talvez, essa tenha sido a causa principal de seu interesse pela Natureza, que perpassou toda a sua vida, somada ao fato de ter morado por um tempo no sítio dos avós, no momento em que as economias da família tornaram tão escassas que necessitaram alugar a Casa da Ponte, e Jacinta, sua mãe, precisou pedir auxílio e moradia junto aos seus pais, avós de Cora.

Em decorrência dessa migração para o campo, Cora só estudou algumas séries do primário. Ela confessou que tinha muita dificuldade de aprender e só conseguiu vencê-la pela bondade e paciência de uma professora, para a qual, mais tarde, ofereceu um de seus livros. Só foi apresentada às regras do Português muito tempo depois pelos seus próprios filhos, e ao narrar esse episódio, não se envergonha de dizer que, se dependesse de gramática, jamais escreveria. Sua escrita fazia-se de forma intuitiva, em obediência apenas às suas observações, aos seus pensamentos e sentimentos.

No sítio dos avós, Cora tinha muito o que observar e havia tempo para se dedicar aos seus versos, os quais começaram a ser escritos quando tinha catorze anos de idade. Apesar da espontânea criatividade literária, seus parentes duvidavam de sua capacidade e chegaram a cogitar que aqueles escritos não eram de sua autoria, mas de um primo o qual consideravam mais inteligente. Cora não era incentivada pelos familiares, muito menos recebia o apoio de algum deles para continuar a escrever. Se alguém acreditava em sua produção, esse alguém era ela mesma. Sentia uma força interna brotar de dentro de si. Sentia um impulso vindo de seu interior e, por mais que não recebesse o reconhecimento dos seus, ela não tinha dúvidas de que um fogo artístico incendiava as suas veias.

Quando a família voltou para a Cidade de Goiás, Cora teve a oportunidade de participar de eventos literários promovidos na cidade. Além da escrita, a leitura era uma de suas ocupações favoritas. Ela lia muito. Ler era uma atividade para a qual sua mãe também se entregava bastante. Talvez Jacintha, em virtude das frustrações de ter perdido dois maridos e das dificuldades que precisou enfrentar para criar as filhas, fora impossibilitada de se dedicar à produção literária. No entanto, legou à Cora esse desejo, que a despeito de também ser cercadas por inúmeros obstáculos, venceu todos eles, recolhendo cada pedra que aparecia em seu caminho e utilizando-se delas para construir a escada na qual subiria por toda a vida.

Foi num desses encontros literários que Cora conheceu Cantídio Brêtas e viu no casamento uma oportunidade não só de ser mais livre, por se desprender das celas familiares, como também a chance de abandonar a solteirice, visto que um de seus confessados medos era o de não arrumar um marido.

No entanto, Cantídio era divorciado. Casar-se com ele seria um escândalo sem precedentes numa cidade marcada pelo conservadorismo e pelos antigos costumes. Mas deixar passar essa ocasião, poderia representar um risco de permanecer para sempre presa às imposições e aos desmandos das outras mulheres da família, cheias de antigas crenças e de limitações que tentavam repassar aos mais moços por acreditarem que estavam fazendo a coisa certa.

Movida por um intenso desejo de se desprender das garras autoritárias em que vivia, Cora encheu-se de coragem e, num determinado dia, antes do sol nascer, sobre o lombo de um cavalo, deixou a Cidade de Goiás, acompanhada de Cantídio, e partiu rumo ao estado de São Paulo, estabelecendo moradia na cidade de Penápolis, lugar em que moraram por muito tempo e onde Cora criou os seus filhos.

Se sua família a limitava, Cantídio também não lhe afrouxou as rédeas. Em entrevista, Cora declarou que saiu das garras dos parentes para as do cônjuge, o qual sentia ciúme doentio. Cora continuou a escrever, mas seus textos não podiam ser publicados por expressa imposição do marido. Para ela, escrever era uma forma de comunicar-se com os outros. Soltar os seus pensamentos para o mundo a motivava e, já que estava proibida de publicá-los, faria menos versos e passaria a plantar e vender flores.

Cora empenhou-se na arborização da cidade de Penápolis. Preocupava-se muito com questões ecológicas e ambientais. A natureza devia ser preservada. O seu olhar atento e perscrutador jamais deixaria escapar o entendimento de que todos os seres estão interligados e que é preciso não só cuidar uns dos outros, mas também preservar e zelar por todas as coisas que existem.

Católica, passou a fazer parte da ordem franciscana, onde assumiu o compromisso com os pobres e os desvalidos. Sempre disposta a ajudar os menos favorecidos, grande parte de sua poesia foi dirigida às pessoas que a sociedade costuma não enxergar ou desprezar. Prostitutas, agricultores, presidiários, idosos, menores abandonados constituíam-se matéria para os seus textos e pessoas para as quais direcionava ações benevolentes. Inclusive, Cora ajudou na construção de um asilo para idosos em Penápolis.

Também fixou moradia em São Paulo capital, com o intuito de acompanhar os filhos que precisavam estudar em escolas melhores. Apenas após a morte de Cantídio e o crescimento de suas crias, Cora se viu livre para realizar alguns desejos que precisaram ficar adormecidos enquanto esteve casada e se ocupava da criação e da educação das crianças.

Ser mãe foi uma de suas grandes realizações. Cora valorizava a função materna e escreveu um poema onde aconselhou às mães cuidarem de seus filhos em vez de mandá-los para uma creche, lugar que considerava frio e impessoal. Ela criou cinco filhos e conseguiu oferecer a eles bons caminhos, como fruto da dedicação e do esforço a eles direcionados.

O espírito bandeirante de Cora Coralina novamente infundiu-lhe ânimo para se mudar mais uma vez de cidade. O destino foi Andradina, também no estado de São Paulo. Mudou-se para lá quando o lugar estava em plena construção. Para se sustentar, abriu um comércio de tecidos e se empenhou em mover os demais colegas do ramo, todos homens, no sentido de fundarem uma associação dos comerciantes.

Cora fez muitas amizades em Andradina, mandava os seus textos para os jornais, no entanto ainda não havia publicado nenhum livro. Comunicava-se com parentes da Cidade de Goiás, por meio de cartas. Quando retornou à terra natal, primeiramente para tratar de questões de herança, após a morte de sua mãe, e depois, para morar na cidade de forma definitiva, quase não conhecia mais ninguém e ninguém a conhecia.

Após quarenta e cinco anos distante da Cidade de Goiás, Cora voltou sozinha vestida de cabelos brancos, em busca de suas raízes. Recomeçaria uma nova vida na Casa Velha da Ponte. Para isso, precisava desenvolver alguma atividade que lhe desse sustento, pois ainda que escrever animasse o seu espírito, disso não resultava nenhuma renda que lhe pudesse fazer descansar sem maiores preocupações. Além do mais, desejava adquirir para si a casa onde nascera e, para isso, precisava se empenhar e juntar o dinheiro para comprar os quinhões pertencentes aos demais herdeiros.

Assim, entregou-se com muito entusiasmo à feitura de seus doces cristalizados, que ficaram conhecidos muito além dos contornos de Goiás, chegando até mesmo à apreciação do Papa, no Vaticano. Entre doces e poemas, Cora levava uma vida simples, mas digna.

Em seus versos, ela deixou registrado a concretude de sua vida cotidiana, que se fez por meio da remoção de pedras e da plantação de flores. Espalhou suas sementes nos lugares em que passou, empenhou-se na realização de boas obras. Fez poemas, doces e amizades.

Desejosa de publicar um livro, dirigiu-se a São Paulo e, pessoalmente, bateu em portas de muitas editoras, as quais agiam com descaso ou negava-lhe suas investidas, tempos depois de deixá-la à espera. Apenas aos setenta e seis anos de idade, conseguiu publicar o seu primeiro livro Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais.

Cora se aproveitava das ocasiões em que os clientes iam à Casa Velha da Ponte comprar doces e oferecia-lhes também os seus livros. Em vida, publicou apenas três. No entanto, quase nenhum reconhecimento foi dado a suas obras. Na Cidade de Goiás, a atenção que recebia provinha dos mais jovens. Por ter sido uma mulher com pensamentos à frente do seu tempo e ter tido a coragem de expor os problemas da cidade, foi incompreendida pelos mais velhos. Ela também não fingia gostar deles, e falava em alto tom que acreditava mesmo era na juventude que a abraçou tão carinhosamente.

Ela, no entanto, não era dada a reclamações ou queixas de qualquer ordem. Seguia sua vida em meio às dificuldades, aproveitando cada uma delas como uma oportunidade de aprendizado. O otimismo e a esperança eram as suas armas. Acreditava que o melhor estava por vir.

Cora não se considerava velha, não queixava dores nem amarguras. Sua boca se abria apenas para dar bons conselhos e pronunciar palavras de alegria, fé e entusiasmo. Diante dos percalços que lhe surgiam, lutava e vencia-os com a sua grande força que mal cabia em sua aparente fragilidade. Seu tom de voz era alto e firme como quem sabe que tem o poder de alcançar lonjuras.

O reconhecimento de Cora Coralina somente ocorreu depois que Carlos Drummond de Andrade, ao tomar conhecimento dos poemas da musa goiana, mandou-lhe uma carta e publicou um texto onde demonstrou o seu apreço pela produção da escritora. Carlos ficou tão encantado com a força dos versos da menina feia da ponte da Lapa, que chegou a afirmar ser Cora Coralina a pessoa mais importante de Goiás, coração do Brasil.

A partir daí, Cora passou a ser condecorada em vários cantos do país. Recebeu prêmios, convites, visitas de famosos e aclamações oriundas de toda parte. Próximo ao fim de sua vida, ocupou-se de muitos eventos literários, os quais comparecia a todos utilizando-se do respaldo de uma muleta, objeto sobre o qual também dedicou um poema.

Cora escreveu que o importante na vida não é o ponto de chegada, mas a caminhada. Que devemos remover as pedras do caminho, plantar flores e espalhar boas sementes por onde quer que passamos. Cora também afirmou que é preciso recomeçar, lutar e jamais desistir. Renunciar os pensamentos negativos, ser otimista, tocar o coração das pessoas, aprender a viver.

Seu triunfo, embora tardio, não foi menos sentido e aproveitado. Cora viveu noventa e cinco anos de forma muito intensa e dedicava-se com amor e disposição a tudo aquilo que se propunha fazer. Para ela, o trabalho era uma das coisas mais importantes da vida, porque dá dignidade às pessoas. Trabalhou duro, criou seus filhos, escreveu seus versos e deixou grandes lições decorrentes de sua vida e obra.

Perguntada se valera a pena viver muito, respondeu que sim. Se não tivesse percorrido todos esses anos, não teria visto concretizar a certeza que tinha dentro de si de que era uma escritora singular, única, inimitável, inconfundível e que tinha muito a dizer e se fazer ouvir.

Cora não era uma Ana como as muitas outras da Cidade de Goiás. Ela era a Aninha, que a despeito da cara empapuçada, das pernas moles, de ser chamada de inzoneira e tantos outros pejorativos, não se esquivou de assumir a grandeza de ser Cora Coralina, a grande mulher, escritora, doceira e poeta.

Cora proferiu, em vida, o desejo de ser única. E mesmo após a sua morte, conseguiu manter a sua personalidade preservada. Se indagarem por aí sobre a existência de alguma Ana, provavelmente não haverá individualização possível. Mas se perguntarem por Cora Coralina, ninguém há de duvidar que se trata de uma das poetas de maior renome, pertencente à literatura goiana e brasileira.

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