Quando ouço alguém dizer que não gosta de uma determinada pessoa, a primeira coisa que procuro saber junto a esse alguém é o motivo que o faz não gostar dessa pessoa, pois, a meu ver, é óbvio que há de existir uma razão justa, grave e convincente que justifique o desagrado. Então, pergunto-lhe: o que fulano fez de mal para você? Geralmente, a resposta é vaga e imprecisa. E, quando muito, acompanhada de algo do tipo: Ah! Não vou com a cara.

Causa-me espanto e perplexidade a descoberta de que possa haver entre os humanos antipatias gratuitas, desprovidas de um acontecimento sério, capaz de macular e prejudicar o caráter das relações. Além do mais, ao sondar-me interiormente em busca de um nome que figure na minha lista dos não gostáveis, encontro-a vazia, sem um registro sequer que aponte pelo menos um João ou uma Maria dos inúmeros e popularmente conhecidos que existem por aí.

Isso significa que gosto de todas as pessoas que me são apresentadas? Pois bem, isso tão somente quer dizer que tenho apreço por aquelas com as quais mantenho algum tipo de relação ou amizade, por outro lado, nada tenho a externar contra as pessoas que não possuo afinidade ou contato. Quanto a manifestar desapreço por alguém que jamais tenha me causado algum mal, a mim parece que agir de tal forma em nada condiz com aquilo no qual acredito.

Conceber a existência de um ser responsável por criar todas as coisas que há no mundo, um ser supremo cuja onipotência incide sobre tudo e cuja onipresença perpassa a infinidade das coisas que está dentro e fora de nós, leva-nos a concluir que, se nos autointitulamos pertencentes a essa divindade, sobre a qual nos referimos muitas vezes como sendo os seus filhos, isso implica reconhecer que ela também está presente em tudo o mais, inclusive naquele contra o qual desferimos ódio ou desprezo.

Ao realizarmos uma avaliação de nós mesmos é comum nos concedermos uma nota muito além do que outros nos atribuiriam. Somos míopes para enxergar os nossos próprios defeitos, mas usamos uma lupa de última geração quando se trata de medir os demais. Dessa forma, costumamos explicar nosso menosprezo por alguém utilizando-nos de justificativas que, embora rasas, apontam que o motivo pelo qual não gostamos de uma pessoa provém de algo que emana dela própria, de modo que a impede de ser aceita ou amada. Jamais diríamos, nem sob tortura, que, se desprezamos alguém que nada de mal nos fez, isso se deve à dificuldade que temos de aceitar tudo aquilo que não representa para nós um espelho.

No entanto, ao olharmos em volta, é mais fácil nos depararmos com diferenças do que com igualdades. Se é verdade que somos constituídos fisicamente da mesma matéria frágil e decadente, e que um só espírito perpassa todos nós, tanto essa matéria quanto esse espírito se manifesta diferente em cada pessoa, de maneira que, se não aceitarmos a realidade a qual consiste em admitir que ninguém é igual a ninguém, passaremos nossas vidas a ignorar todos aqueles que parecem atentar contra nós pelo simples fato de respirar e existir de modo diverso do nosso.

É inconcebível afirmarmos que amamos um Deus, que a tudo criou, ao mesmo tempo em que nos voltamos contra um ser objeto de sua criação. Experimente dizer a um pai ou a uma mãe que não gosta de um de seus filhos. Valho-me desse exemplo para tentar ilustrar a forma como imagino que Deus recebe a notícia de nossos desafetos, quanto mais os infundados.

Nesse momento, imagino ser impensável vislumbrar um mundo onde todos se abracem e se amem sem impor condições. A própria natureza humana, inclinada para os conflitos, ainda não se mostra apta para dar um passo tão grande e, apesar de soprar constantemente a chama da esperança para que ela nunca morra, não consigo vislumbrar o dia em que alcançaremos patamar tão elevado. No entanto, nada impede que nos entreguemos a uma constante reflexão sobre a máxima suportai-vos uns aos outros, pois se, por um lado, a nós parece existir pessoas insuportáveis, é verdade que nós também podemos parecer insuportáveis aos outros.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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