Quem, em sã consciência, pode dizer não ao amor? Esse tão falado e cantado sentimento, em suas mais diversas formas, parece ser uma das coisas que mais buscamos em toda a nossa vida. Após o acalento e a proteção com que somos envolvidos pelos braços maternos tão logo chegamos ao mundo, passamos por toda a existência a desejar uma espécie de aceitação, acolhimento e cuidado semelhantes aqueles que nos foram devotados nos primeiros anos de vida.

Crianças, somos envoltos a muita atenção e zelo, até que a adolescência chega com a sua fremente necessidade de individualização e, não raro, nos distanciamos dos pais e demais adultos, numa tentativa de entendermos a nós mesmos e o mundo que nos cerca, criando nossas próprias amizades e entrando em contato com as pessoas que mais sentimos pensar e se comportar do modo mais parecido conosco. Nesse momento, há uma ruptura não só de ordem emocional em relação aos pais, mas também física. Muitas vezes, nem mesmo permitimos aqueles beijos e abraços que amávamos dar e receber ao tempo em que éramos infantes.

No entanto, se por um lado nos afastamos ou recusamos de nossos pais as atenções e os mimos de outrora, buscamos que outras pessoas nos ofereçam algo similar. E se não recebemos esses cuidados de nossos progenitores durante a infância, passamos a vida a procura de algo que preencha essa lacuna imposta. Tendo recebido ou não o amor durante os primeiros anos de vida, partimos à sua busca. E se não o encontramos, nos valemos de outras coisas com as quais tentamos persuadir o nosso desejo de sermos amados.

Em seu livro, O trauma do nascimento, Otto Rank afirma que todos os nossos esforços durante a vida se voltam para recriar a situação de proteção, segurança e amparo que experimentamos quando estamos no útero materno. O trauma do nascimento representa o desamparo em que nos vemos e que é materializado com a primeira das rupturas em relação às nossas mães. Após o corte do cordão umbilical, não somos mais uma só carne. Assim, o autor insinua que, ao nos relacionarmos com outras pessoas, estamos sempre em busca do paraíso do útero, o qual fomos expulsos sem escolha ou consentimento, e mais, sem termos cometido qualquer ato pecaminoso ou desobediente pelo qual poderíamos ser punidos.

Por vontade deliberada ou não, o fato incontestável é que nascemos, e a partir daí passamos a sentir todo o afeto que nos é direcionado. Há quem diga, inclusive, que o bebê consegue sentir as emoções maternas quando ele ainda está no ventre. Portanto, em sendo verdade, ele receberia os estímulos que já o fariam sentir-se amado ou rejeitado antes mesmo de nascer.

Se o amor é o que todos nós desesperadamente perseguimos ao longo da vida, cabe pois a pergunta que não quer calar: O que é esse tal de amor? Amor é mesmo esse fogo que arde sem se ver como poetizou Camões? Amor é chama que não dura por toda a vida conforme os dizeres de Vinícius de Moraes? É a possessão com que Bentinho foi capaz de acusar a amada? É o ciúme que levou Otelo a aniquilar sua esposa? É a prisão com que muitos cerceiam a liberdade do outro ser, sob a justificativa de amá-lo? É retaliação e desejo de transformar alguém na ideia que temos de como o outro deveria ser?

Afinal de contas, o que é o amor? É um sentimento que nutrimos? Ou é aquilo que fazemos em prol de alguém? Ou somos impulsionados a fazer em virtude do sentir? Sentimento e ação? Ou a ação seria tão somente a materialização do sentimento? Substantivo? Verbo? Não sei bem ao certo. A única coisa que realmente sei é que algumas das variadas formas como ele se apresenta ou é utilizado para justificar a atitude de uma pessoa com relação à outra, não me agrada nem um pouco.

Para mim, não é amor aquilo que cerceia, prende, impõe, ameaça. Não é amor o que agride, ofende, fere, machuca e destrói. Não é o que repreende, exige, censura e procura virar a pessoa pelo avesso a fim de transformá-la numa indefinição de si mesma. Amor não é algo que anula, antes realça. Não é algo que humilha, mas eleva. Não é intolerância e acusação, posto que se fundamenta melhor na compreensão. Não se esconde, mas revela. Ele não se baseia numa lógica matemática, nem em práticas de escambo. Esses tipos de amor, não só os recuso, como fujo deles – e reitero, antes peço desculpa pela expressão, fujo deles como o diabo foge da cruz.

Clarice Lispector disse: Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado – pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. Para a escritora, o amor é a soma das incompreensões e, por isso, amar é tão difícil.

Charles Baudelaire foi mais longe: todo amor é prostituição e exige adoração e sacrifício. Assim, ele também reconhece a dificuldade que é amar.

E amar torna-se mais árduo se levarmos em conta o que está escrito em Coríntios, cuja definição de amor faz dele um sentimento, a meu ver, mais autêntico e, por isso mesmo, menos concebível diante da nossa imperfectibilidade:

O amor é sofredor; é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

É tão difícil alcançar a concretude do significado da palavra amor que acabamos, muitas vezes, por conceituá-lo levando-se em conta tudo aquilo que ele não é. No entanto, é justamente essa abstração, marcada pela falta de contornos possíveis para defini-lo, que nos faz buscá-lo continuadamente, sem nunca sentirmos que, de fato, ele está preso em nossas mãos.

Daí ser o amor o nosso eterno anseio. E se é verdade que o buscamos desde o momento em que fomos expulsos do Jardim do Éden, ou melhor, do ventre materno, certo é que, apesar de todos os nossos esforços, não mais voltaremos a esse lugar.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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