Tem certeza que ter um filho te torna melhor para o mundo?

Creio que há diversas formas pelas quais podemos nos aperfeiçoar enquanto pessoas e, por consequência, tornar melhor e mais suportável esse mundo em que habitamos. E, creio também, que esse empenho não precisa estar vinculado necessariamente à concepção de um filho sobre o qual muitos justificam que sua existência os tenha tornado melhores. Quando ouço alguém afirmar tal coisa, pergunto-me: melhores para quem? E, não raro, a resposta aparece sem que, para isso, eu tenha que muito pensar: melhores para si mesmos ou para as próprias crias. Para mais ninguém.

Você não está sendo muito impiedosa ao afirmar-se nesses termos? – pergunta-me uma voz. Porém, ao observar os quatro cantos, tudo me leva a crer que não. Cabe, pois, a mim, explicar.

Dos homens, não costumo escutar declarações no sentido de que, ao terem um filho, eles se tornaram pessoas dotadas de características que não as de outrora. Eles não se autodeclaram mais bonzinhos do que antes. O mesmo não se pode observar com relação às colocações femininas, quando as mulheres se põem a listar todas as transformações porque passaram ao se tornarem, voluntária ou involuntariamente, mães. Elas, creio que de maneira totalmente inconsciente, não percebem que suas declarações são carregadas de egoísmo que, embora marcado por muito afeto, o qual costumam intitular de amor, é voltado apenas e tão somente para duas pessoas: diretamente, para seus filhos. Indiretamente, para elas mesmas.

Deixo-lhes claro que não me restam dúvidas sobre a intensidade do amor materno. Creio ser o maior dos sentimentos que podemos passivamente experimentar na qualidade de filhos, salvo em casos excepcionais de mães que não os amam ou não manifestam seu amor por motivos que, muitas vezes, escapam ao nosso conhecimento.

Volto a dizer-lhes: meu questionamento nunca se ateve à força com que uma mulher ama a sua cria, mas quanto à abrangência desse amor, o qual não ultrapassa os limites do ser que ela própria gerou. O amor de mãe é o mais restritivo de todos, porque a obriga a limitar o seu campo de cuidado, proteção e dedicação. Ela realmente se coloca em segundo lugar para dar atenção ao ser que acaba de nascer e que precisa dela mais do que de qualquer outra pessoa. Ela é capaz de loucuras, de se doar, de cometer crimes, de enfrentar muitos obstáculos e dificuldades, mas tudo em nome de outra vida que é meramente uma extensão de sua própria vida. Essa afirmação pode ser confirmada por um trecho de Montaigne: Nunca vi um pai, por corcunda ou tinhoso que fosse o filho, deixá-lo por seu. Não, entretanto, por estar cego pela afeição e não se aperceber do defeito, mas tão somente porque é seu.” Amamos, pois, o filho, tão somente e obviamente por ser nosso.

A mim, parece um tanto quanto óbvio quando escuto uma mãe dizer que é capaz de tudo por seu filho. Eu penso: mas é algo bem evidente. Causaria espanto ou admiração caso ela dissesse que seria capaz de tudo por alguém que não se alimentou de sua própria placenta. Quando diz isso, ela apenas confirma que está inteiramente voltada para o seu próprio centro, por intermédio de um outro ser. Que seja!

Ouço mulheres dizerem que, após serem mães, deixaram de julgar outras mulheres, pois, ao exercerem a tarefa de educar uma criança, perceberam o quão difícil é estabelecer limites ou fazer com que ela obedeça. Somente a partir daí, elas balbuciam aquela tão famosa frase: Filho não vem com manual de instrução. Isso serve para se justificarem, pois as normas de educação que elas tinham nas cabeças, com as quais ensinavam as outras mães, não serviram nem mesmo para criarem os próprios filhos.

Disso resulta a pergunta: precisa ter filho para saber que cada pessoa é diferente e exige tratamento e abordagens diversas que orientem e moldem o seu comportamento? Não basta o mandamento “não julgueis”, que, entre outras coisas, quer nos mostrar a necessidade de não apontarmos o dedo para o outro, tendo em vista que a nossa natureza humana similar pode nos fazer cair na mesma armadilha em que o nosso semelhante foi capturado? Não basta a observação de nós mesmos para verificarmos que cometemos muitos atos, os quais censuramos quando executados por outrem? Repito: não é preciso conceber um filho para pensarmos no quanto somos malignos quando usamos nossa liberdade para acusar. Mas a impressão que tenho é que as mães só param de julgar outras por saberem que elas correm um sério risco de agir do mesmo modo que recriminam. Sendo assim, é melhor fechar a boca mesmo.

Há ainda as mães que ousam ir mais longe ao afirmarem que, quando tiveram filhos, passaram a não dar importância a coisas pequenas, sem nunca explicarem ao certo o real significado dessa expressão ou o que ela comporta. No meu entendimento, as tais coisas pequenas são todas aquelas que não estão de algum modo relacionadas a seus filhos. Tudo o mais se torna ínfimo em volta dessa mulher que se encontra estonteante e presa a seu menino na manjedoura, mas jamais tendo a intenção de entregá-lo a quem quer que seja por amor à humanidade. Cada um que pague pelos seus pecados.

Muitas mulheres continuam a afirmar que se tornaram melhores e mais empáticas com o advento da maternidade, e se isso realmente acontecesse, eu seria a primeira, no auge de minha fertilidade, a me oferecer para cumprir esse papel capaz de fazer de alguém um ser por demais imaculado. Mas não é o que observo. Sou rodeada de pessoas o suficiente para perceber que os afetos são um tanto complexos e mexem com as emoções de modo que não nos tornamos tão bonzinhos quando somos tocados por esse tal de amor. Se por um lado queremos proteger um ser sobre o qual nossos sentimentos se destinam, por outro, atacamos e agredimos qualquer pessoa que o ameace ou o ofenda.

A mulher com o seu bebê no colo, não sai da maternidade disposta a perdoar os seus inimigos, a amar aqueles que mais a irritam, a ser mais condescendente com as fraquezas alheias, a sorrir para os que lhe desagradam. Ela não pensa em doar-se aos pobres, alimentar os famintos, abrigar os desvalidos, visitar as demais crianças no orfanato, cuidar dos velhinhos e mover moinhos e redemoinhos para fazer desse mundo um mundo mais justo e mais igual.

Algumas mulheres que resolveram ter uma participação mais ativa na sociedade, inclusive, abriram mão de ser mães, pois sabiam quão restritivas e indisponíveis se tornariam para doar tempo e vida a causas e pessoas, tendo que cuidar dos próprios filhos. Eles precisam de suas mães e elas querem se dar a eles tanto quanto podem e, mesmo quando doam mais que podem, ainda sentem-se culpadas por todas as coisas que os afligem. A mãe carrega por toda a vida sentimentos de culpa que dão a ela aquele ar preocupado, o qual me faz tão logo perceber se tratar de uma mãe.

Lucinha Araújo conta que só fundou a Sociedade Viva Cazuza, destinada a cuidar de crianças com AIDS, após perder o seu único filho. Mesmo que essa instituição se justificasse apenas pelo fato de o ter perdido em virtude dessa doença, ela poderia, estando ele vivo, ter se voltado para outras caridades. No entanto, estava tão mergulhada no amor, na proteção e no cuidado direcionados a ele que jamais teria pensado em se doar com tanto afinco a outras pessoas. Enquanto Cazuza existia, era só quem ela conseguia avistar. Quando ele morreu, essa mãe estendeu o alcance de sua visão, ainda que em prol de eternizar a lembrança do filho cantor.

Nada tenho contra o livre direito de uma mulher gerar tantos filhos quantos queira, mas a altivez com que muitas insinuam que se tornaram melhores pelos motivos que expus nunca me convenceram, pois não condiz com a realidade. E como eu gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo, como bem diz Fernando Pessoa, não poderia deixar de realizar essas considerações que creio importante anotar.

E se um dia eu me tornar uma mãe tão cheia de presunção e incapaz de julgar-me com os mesmos parâmetros com os quais julgo outras, que eu me lembre de escrever um texto confessional, onde eu tenha a humildade e a coragem de me retratar.

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