Apresento-lhes uma grande mulher

Se apresento-lhes alguém sobre quem digo se tratar de uma grande mulher, preciso antes de mais nada esclarecer o que para mim significa ser grande. Ao ler a biografia de Simone de Beauvoir e pesquisar mais informações a respeito de sua vida e de sua obra, saltou-me aos olhos algumas percepções que me fez admirá-la como mulher e filósofa, a despeito de outras coisas, as quais provam que, por maior que seja uma pessoa, ela está sujeita a enganos, erros e equívocos, como todos nós. No entanto, nada disso diminui a sua importância, principalmente por reconhecê-la como alguém que teve a audácia e a coragem de tocar em assuntos delicados, sobre os quais muitos homens e mulheres se calavam.

Simone se interessou pelos livros desde a infância e, tanto ela como a irmã Hélène, receberam o incentivo de seus pais para estudarem. No entanto, tempos depois, eles se manifestaram contrariamente quando Simone revelou o seu desejo de estudar Filosofia. Com relação a isso, ela simplesmente os ignorou. Não tocou mais no assunto com eles, mas estudou, prestou o exame de Filosofia, conseguiu a aprovação dentre os primeiros colocados e se dedicou ao estudo daquilo que quis.

Ainda menina, ela já se interessava por questões filosóficas e chegou até mesmo a confrontar o seu pai numa discussão a respeito do que se entendia por amor. Para ela, não interessava o amor tal qual as pessoas o pintavam ou como afirmavam vivê-lo. O amor parecia muito mais uma prisão, na qual as pessoas se submetiam a obrigações e deixavam de lado os seus interesses, desejos e a própria vida.

Ela teve a oportunidade de perceber isso bem de perto, ao observar a relação de seus pais, e compreendeu nesse momento, ainda que de forma embrionária, que o casamento se mostrava mais danoso e prejudicial às mulheres que aos homens. Durante toda a sua vida, ela não quis se casar nem ter filhos. Dedicou-se inteiramente à filosofia, ao amor na sua forma livre e a causas que tinham por objetivo libertar as mulheres de prisões familiares, sociais e econômicas. Um de seus questionamentos era: até que ponto posso me dar ao outro sem provocar danos e anular partes de mim mesma?

Quando escreveu Uma morte muito suave, obra em que narra a morte de sua mãe, Simone revela que um dos arrependimentos de Françoise ao fim de sua vida foi ter se dedicado muito aos outros em detrimento de suas próprias vontades e anseios. Diferente da mãe, a filha viveu comprometida consigo e se manteve fiel aquilo em que acreditava, apesar de ter que confrontar não só os familiares, mas também a sociedade hipócrita e conservadora da época.

Aos vinte e um anos de idade, Simone conheceu aquele com quem manteria um relacionamento incomum para o resto de sua vida. Trata-se de Jean-Paul Sartre, à época, igualmente estudante de Filosofia. A ligação entre os dois revela uma história de amor, em moldes não tradicionais, cumplicidade e, sobretudo, lealdade. Apesar de terem se relacionado intimamente por um período, o sexo não era de fato o que os unia. Simone chegou a revelar que Sartre era animado e empolgado em muitos momentos e situações, menos na cama.

Na verdade, eles parecem ter sido muito mais companheiros e amigos intelectuais do que qualquer outra coisa. Tanto Simone quanto Sartre eram livres para se dedicarem a outras pessoas, que poderiam ser homens ou mulheres. Ela manteve relações com algumas de suas alunas, o que lhe rendeu acusações por parte dos pais das estudantes e de representantes das escolas. Numa dessas instituições, Simone foi demitida. As mulheres com as quais ela se relacionava eram apresentadas a Sartre, que também mantinha com elas uma espécie de intimidade. Uma delas acusou Simone de prepará-las para entregá-las nas mãos dele como alguém que amacia uma carne para ficar mais fácil na hora em que o outro for degustar.

Sartre propôs a Simone um pacto de relacionamento aberto: entre os dois haveria um amor permanente essencial, onde eles seriam fiéis entre si, no entanto poderiam ter outros casos. No final, eles sempre se reencontravam. Num desses relacionamentos contingentes, Simone percebeu que estavam causando danos a outras pessoas e isso começou a agitá-la. O seu pacto com Sartre sempre se preservara. E quanto aos outros? Esse pensamento a inquietou por um tempo, a ponto de fazê-la pensar sobre a influência que exercemos na vida das pessoas com as quais nos relacionamos. Até que ponto nossa liberdade atinge e reflete na liberdade alheia. Daí a sua famosa frase: Querer-se livre é também querer livre os outros.

Simone se engajou na luta para que as mulheres pudessem ser mais livres. Não é que acreditava numa única maneira de viver e se oferecia como modelo para as demais. Enfim, não desejava que vivessem como ela mesma decidiu viver e se comportar, no entanto sabia que muitas delas encontravam-se subjugadas numa sociedade cujo sistema, em todos os setores, relegava à mulher um papel secundário. Dessa percepção surgiu o seu mais conhecido e polêmico livro intitulado O segundo sexo.

Ela afirmou que desconhecia os maiores problemas que afetavam as mulheres, uma vez que os ambientes por onde andava não lhe davam mostras do que ocorria nos porões das demais casas. Mas quando publicou O segundo sexo, no qual apontava o papel inferior exercido pela mulher na sociedade, passou a receber cartas onde mulheres relatavam as situações que enfrentavam por estarem inseridas em lugares e relações que as hostilizavam e as submetiam.

Sua mais célebre frase retirada dessa obra é: Não se nasce mulher, torna-se mulher. Isso em nada significa que Simone não reconhecia a diferença biológica entre os sexos ou a importância que a mulher tem para a continuação da espécie, na qualidade de mãe. O que ela afirmava é que muitos dos comportamentos e funções atribuídas às mulheres ou delas exigidas, principalmente no ambiente doméstico e com relação a questões de feminilidade, não passavam de algo que fora imposto para afastá-las da participação mais ativa no mundo em que viviam. Longe de dizer que as atividades domésticas não são importantes, mas elas raramente são valorizadas e não geram valor econômico que poderiam dar às mulheres algum tipo de independência financeira.

Se uma mulher deixa de trabalhar para cuidar da casa e dos filhos, em caso de os seus maridos as abandonarem, elas não teriam uma renda que pudesse sustentá-las e se veriam desamparadas. Ou, caso elas não quisessem mais viver com esses homens – por motivos que não nos interessam nem cabe a nós opinar, não poderiam exercer livremente sua escolha por estarem economicamente presas a eles. Assim, cabe a pergunta: qual a diferença entre uma mulher que disponibiliza o seu corpo como meio de obter dinheiro e aquela que continua com um homem tão somente porque dele depende financeiramente para viver?

Além de defender a participação das mulheres na atividade produtiva, como forma de facilitar o exercício da independência para realizar as suas escolhas, Simone também se manifestava no sentido de conceder a elas a possibilidade de serem sexualmente livres. A mulher não deveria ser vista apenas como um objeto de satisfação e prazer masculinos, mas a ela deveria ser permitido comunicar ao parceiro seus desejos e vontades sem que houvesse nisso qualquer tipo de julgamento ou pudor. A relação entre homem e mulher deveria ser de reciprocidade e não de submissão ou autoridade, uma vez que ambos são sujeitos e não meros objetos a serem moldados à custa de tirania e opressão.

Em suas palestras, Simone falava também sobre o uso de contraceptivos e o aborto. Na concepção dela, os anticoncepcionais deveriam ser permitidos e comercializados a todas as mulheres, independente de serem ou não casadas, e o aborto deveria ser legalizado como forma de impedir que tivessem filhos indesejados ou tentassem abortá-los em condições precárias e desprovidas de segurança. Defendia a ideia de um planejamento familiar, pois imaginava que seria muito difícil para uma mulher engravidar por acaso, uma vez que isso a afastaria de suas possibilidades fora do circuito da casa ou lar.

As ideias de Simone foram incompreendidas não só pelos homens. Algumas mulheres se identificavam com os apelos e as propostas de mudanças que ela sugeria, no entanto, outras a acusavam e faziam questão de dizerem que estavam muito bem no papel de esposas, donas de casa e mães. Frustrada, histérica, insatisfeita, egoísta e vadia foram algumas das adjetivações que ela recebeu por expressar as suas convicções numa sociedade que, embora padeça de um mal, prefere fingir que ele não existe ou não tem interesse em modificá-lo.

Simone não se dirigia às mulheres que estavam satisfeitas e contentes em suas posições, muito menos se colocava contra o homem, o casamento e a maternidade. Mas ela tinha acompanhado de perto, por meio da história de sua mãe, a dura experiência de alguém que não vive a própria vida por tê-la entregue totalmente aos outros.

Quando seus pais se viram economicamente arruinados, ela percebeu o quanto a crise financeira abalou o sentimento que talvez um dia existiu entre eles, o quanto o seu pai passou a trair e submeter Françoise devido ao enfraquecimento da relação e ao fato de que para ela não existia saída. Talvez Sartre, com a sua exagerada crença na liberdade individual, dissesse que a mãe de Simone era livre para permanecer ou não naquela situação. Ao que Simone responderia como de outras vezes: que tipo de liberdade pode exercer uma mulher trancada num harém?

Ela teve a oportunidade de acompanhar o sofrimento da mãe que, por depender de um homem, e por ter que cuidar das filhas, anulou-se por completo, arrependeu-se e confidenciou isso apenas no seu leito de morte. Quando o pai de Simone faleceu, Françoise nem mesmo quis permanecer na casa onde moraram para não ter que lidar com as más lembranças do período em que, mal-humorado, ele contaminava todo o ambiente. Só após a morte desse homem, ela conseguiu se dedicar por um tempo ao estudo de coisas que gostava, mas já não tinha o mesmo vigor de outrora.

Apesar de muitas vezes ser criticada por usar a própria vida e experiência para falar de um modo geral, Simone não se rendeu nem se deteve frente aos comentários maldosos e, de certa forma, ela conseguiu fazer com que sua voz e seu inconformismo encontrasse eco naquelas pessoas que poderiam pensar, ver e sentir semelhante a ela, mas que não se manifestavam por falta de condições, medo ou resignação. Nem todas as ideias de Simone se aplicam à atualidade, tendo em vista que a situação das mulheres se modificou bastante nos últimos tempos, mas não há dúvidas de que ela foi uma das pessoas que mais contribuiu para que isso acontecesse.

Muitas obras que abordam os problemas enfrentados pelas mulheres surgiram a partir de O segundo sexo. O livro serviu de base e modelo para que outras pessoas se manifestassem e vários movimentos feministas usavam as ideias de Simone para reforçar suas lutas, queixas e pedidos.

Ela escapou de viver à maneira de sua mãe e de muitas outras mulheres, mas não foi sem custo ou sofrimento. Nenhum caminho nos isenta de dores, mas é melhor sofrê-las cientes de que estamos atravessando o percurso que nós mesmos escolhemos do que sofrermos por ter que atravessar os desertos que nos são impostos.

Não era somente a subjugação das mulheres que a incomodava. A segunda guerra a inquietou. Como os franceses podiam presenciar a crueldade e a matança sem nada fazer para impedi-las? Como poderiam continuar sujeitando e destruindo os argelinos por meio de uma inescrupulosa política de dominação colonizadora? Como um país conhecido pela sua cultura e pelos seus pensadores admitia tamanha destruição humana? Simone sentiu vergonha de ser francesa.

Pode-se dizer que essa mulher de vida amorosa, filosófica e literária intensas, viveu por si mesma, mas nunca deixou de lado a sua preocupação com os demais. Amou e foi amada, desprezou e foi desprezada, viveu alegrias, dores e paixões intensas e cometeu equívocos simplesmente porque ousava viver. Mas ao final, deixou um legado que beneficiou gerações futuras e que jamais será esquecido.

Simone sofreu na pele os efeitos do papel secundário das mulheres que ela mesma denunciou durante sua vida. Seu nome sempre esteve atrelado ao de Sartre. Acusaram-na de se utilizar das ideias dele para compor suas obras. Julgavam que ela não era original, que sua produção não tinha densidade e substância e que ela se mantinha apenas por ser um apêndice do grande filósofo. Ela não negava que, de fato, Sartre é que era o filósofo. Terá sido a própria Simone quem se colocou em segundo lugar em virtude do amor e da admiração que sentia por ele? Ou ela realmente não tinha consciência de sua dimensão como pensadora? As duas hipóteses são possíveis, pois quem ama nem sempre está preocupado com o primeiro lugar no pódio e, quem é grande, nem sempre sabe de sua grandeza e, quando sabe, é acometido por momentos de dúvida e insegurança.

A morte de Sartre a dilacerou. A notícia de que ela poderia ficar perto do seu corpo por algumas horas a desconcertou. Como aquele homem que fora tanto para ela agora era somente um corpo? Simone adormeceu por algumas horas junto à frieza material de Sartre, que outrora fora incendiado por tantas coisas que o animava. A exemplo do momento em que perdera a mãe, ela se pôs a escrever sobre o fim desse homem num livro que intitulou A cerimônia do Adeus.

Escrever era a maneira que Simone possuía de expressar e amenizar a sua dor. Enquanto outros rezavam e pediam força a um ser superior nos momentos áridos e difíceis, ela apenas escrevia. Que mulher insensível! – diziam alguns. Que mulher egoísta! – pensavam outros. Enquanto isso, Simone não largava a pena, pois ela precisava se curar para continuar a viver sem o seu amigo, companheiro intelectual e amor “essencial”.

Simone e Sartre fizeram um pacto, no qual se comprometeram a nunca se abandonarem, mas a morte não se importa com os nossos planos, contratos e promessas. Ela vem e desfaz todas as coisas e ilusões.

Seis anos após a morte dele, Simone partiu para o seu encontro ou para o nada. Também com relação ao último ato, restou a ela o segundo lugar. E nesse momento, ela não contava com o seu amigo intelectual para adormecer por algumas horas junto ao seu corpo frio. Nesse dia, não havia ninguém que pudesse fazer para ela uma emocionante e dilacerante cerimônia do adeus.

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