Lá na praia… e  outros casos foi escrito pelo pai de um colega de trabalho que, embora eu não tenha convívio diário, sempre me chamou atenção pela educação, discrição e reserva com que se apresenta. Luís, mesmo nome do pai, aparenta possuir essas adjetivações que me faz admirar alguém, ainda que de longe. Quando nos encontramos nos corredores da empresa, trocamos algumas palavras por cordialidade e coleguismo, sem adentrarmos em questões pessoais que dê alcance do que se passa na vida de um ou do outro.

Entretanto, por meio das  mídias sociais, acabamos sendo conhecendo alguns eventos vivenciados pelos nossos “amigos das redes”. Assim aconteceu. Esse colega postou fotos do lançamento do livro do seu pai no instagram e eu fiquei extremamente empolgada com a ideia de ler um livro de alguém próximo (e olha que nem é tão próximo assim). Mas tudo bem. Não conheço o autor, mas conheço o filho do autor e isso é suficiente para aguçar esse encontro com o livro. E nem me pergunte por que. Há coisas que não sei explicar. Só sinto. Então, finalmente aconteceu o meu encontro com a obra.

O escritor diz que o livro nasceu da necessidade que ele tinha de completar o adágio popular que diz: uma pessoa realizada é a que teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro. Como já havia plantado árvore e contava com três filhos, faltava apenas o livro.

No entanto, tive a impressão de que mesmo se ele não conseguisse essas três graças não seria um irrealizado, tendo em vista a forte presença de Deus em sua vida, que ele não cansa de mencionar. Fiquei desolada ao pensar que, quanto a mim, falta-me tudo. Pelo ditado, sou uma total irrealizada, sem árvore, sem filhos, sem livros. Valha-me Deus!

Quanto a ele, já não lhe falta mais nada.

O livro é esse a respeito do qual falo. E que livro! Cheio de sentimentos, sutilezas e simplicidade. Emociona, toca e desperta para a família, as coisas simples da vida, a generosidade, a espiritualidade, a compreensão, o altruísmo, a conquista, a gratidão, o aprendizado. É muito rico e belo. 

A primeira parte é composta daquilo que o escritor chama de casos e ele a inicia narrando uma viagem de férias que fez ao Rio de Janeiro em companhia dos netos.

Dentro desse homem, habitam  o pai e o avô. O pai crítico é aquele que cria seus três filhos, com colocações incisivas e com a rigidez e a autoridade necessárias aos genitores para transferirem valores e educação aos filhos. Por outro lado, o avô é aquele que guarda uma criança interior, muitas vezes sufocada pelos deveres do mundo adulto, mas que, na presença dos netos, não se contém, deixando-se vencer pela alegria, disposição e brincadeiras deles.

Nesse passeio, esse avô deixa-se contagiar pela animação e pelo entusiasmo dos netos e, apesar das dificuldades físicas advindas do tempo, como uma dor aqui, outra ali, consegue acompanhá-los, ultrapassa seus limites e vai ao encontro desse imenso amor.

As crianças têm muito a ensinar a esse avô e ele sabe disso. Elas são simples em seus gostos, criativas, inocentes, verdadeiras e contribuem para a compreensão da vida e do mundo. Com os netos, a imaginação desse avô rola solta.

Num dia de praia em companhia dos pequenos, o avô fita o mar e reflete: é forte, porém flexível; é humilde e perseverante. Eu penso que é assim que devemos ser. Esse avô que observa a natureza e enriquece com os processos que dela capta, é o mesmo que olha os netos com satisfação e alegria e diz: até coisas bem simples deixam de ser o que são para serem coisas da imaginação e criatividade das crianças. Por isso, elas não precisam de carros caros e grandes brinquedos. Sim, vô. Também nós adultos não precisamos de brinquedos grandes e caros. Precisamos desse seu olhar de criança para ver o mundo simples, belo, rico e disponível que está diante de nós.

Num dia de buscar um dos netos no colégio, quantas lembranças passam na cabeça desse avô. Seus tempos de menino, suas fantasias de criança, suas dificuldades para chegar à escola, onde era necessário caminhar oito quilômetros todos os dias. O imaginado fantasma da estrada, o carro de boi que encontrava no trajeto, pesado, lento e choroso, tal qual as pessoas pesadas e chorosas. Tudo era devagar, mas intensamente vivido. Após as lembranças, o avô pensa na correria desenfreada dos tempos modernos: Correm tanto que o corpo vai com a carga e a alma fica para trás.

Sim, vô. Precisamos resgatar nossas almas que já vagam como penadas.

O ninho vazio e Passarinho tem sentimento? são casos em que o escritor descreve as suas observações da vivência animalesca dos passarinhos que é tão próxima da vida humana. Um passarinho que aproveita o fato de um ninho estar vazio e come ou choca os ovos do outro. Um passarinho que fica ao lado de outro no leito de sua morte, triste, como que velando o corpo. E assim, o autor nos mostra como a natureza guarda mistérios que encantam. E nós não a observamos devido a nossa correria desenfreada ou falta de interesse. Preferimos voltar nossas atenções às construções humanas, alheios à verdade de que a natureza está acessível para todos nós. E como ela ensina! Gratuitamente, ela ensina.

Também há pessoas que nos dão algumas lições. Aquela mulher sem braços que o escritor encontra na igreja e desvia toda a sua atenção da missa para observá-la. Sem braços sim, mas com vontade de viver. Ela transcende suas dificuldades com a ajuda do marido e do filho que a acompanha. Ali existe cuidado, zelo e amor. O que não faz com as mãos, por não tê-las, faz com os pés. Até a aliança está no dedo esquerdo do pé. E como essa família lhe aparenta alegre mesmo com suas limitações. Limitações que não os impedem do amor. Há outro filho em sua barriga. Não há braços, mas há coração, vontade de viver. Há Deus. E os que ali estão assistem a missa na certeza de que o ser humano com Deus pode superar todas as dificuldades da vida. Amém!

No decurso da leitura, comento com um conhecido: olha que legal esse livro do pai de um colega de trabalho. Ele disse que escreveu esse livro para completar o ditado que diz que alguém só é realizado depois de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

Esse conhecido responde: “acho que está faltando algo aí. Resgatar vidas. Imagine conseguir salvar alguém. Acho que ele não é tão realizado assim.” Em seguida, contou-me sobre um filme que assistiu em que o protagonista da trama impede alguém de pular de uma ponte, na tentativa de suicídio.

Respondi: Ah, mas existem outros meios de salvar vidas, como por exemplo, tratar bem o outro, consolá-lo, falar palavras de entusiasmo e tantas outros…

Ele estava irredutível: “Mas o bom mesmo é livrar alguém da beira da morte.”

Nem quis vencer a discussão. Voltei para o livro.

Coincidências ou não, eis que começo a ler o caso O que você faria? e o autor conta que, na noite do réveillon de 2016, ao voltar para casa depois de sair da residência da filha, avistou um homem de cócoras numa mureta preparando-se para pular. Apesar de ser tarde da noite e dos riscos que corria naquele lugar ermo, resolveu parar e tentar salvar aquele homem que estava à beira da morte, dizendo-lhe: Acalme-se e desça pra gente conversar um pouco. Posso ajudar você. Assim, ele conseguira evitar o pior.

Ele salvara a vida de alguém. Rapidamente, senti necessidade de noticiar o que havia lido àquele conhecido que não considerou o autor realizado no momento em que lhe falei a respeito do livro. Eu disse: “olha fulano, por incrível que pareça, o escritor salvou alguém da morte tal qual a cena do filme que você me contou”. Para provar-lhe que não estava inventando mostrei a ele o trecho do livro. Depois disso, admitiu: É. Ele realmente é um homem realizado.

Quanto a mim, cheguei à seguinte conclusão: ainda não salvei nem a mim mesma. Sem árvores, sem filhos, sem livros e sem salvação. Ai de mim! Só a misericórdia de Deus!

Luís Antônio Violin também narra sua vinda para Brasília. Morava em Brodowski – SP e veio à Capital com um amigo prestar concurso para professor de português. Relembra as dificuldades que enfrentou ao percorrer esse trajeto que pareceu muito mais longo pelas más condições da viagem. Veio de carona e com a cara e a coragem, guiado pela esperança de uma vida melhor. Passou em primeiro lugar no processo seletivo e aqui fincou morada, conheceu seu amor, mãe de seus filhos, avó de seus netos.

Casou-se com Maria Helena, com quem viveu por 35 anos e é por ele descrita como uma mulher de luz, de fé e de alma, de palavras suaves e de pensamentos claros e luminosos. Enfrentaram juntos as dificuldades inciais de uma vida a dois, com amor, alegria e leveza. Ele diz: A vida nos foi dada para ser vivida com leveza, e um não pode ser um peso para o outro.

Os dois separaram-se fisicamente porque, segundo ele, Deus a levou ao seu encontro. Entretanto, faz uma linda homenagem à amada dizendo-lhe que ela está sempre presente e que ele é grato pela oportunidade de ter convivido ao seu lado. A sua morte não matou o amor, o qual será guardado eternamente em seu coração.

Gostei muito do que o escritor fala sobre Brasília, por isso quero reproduzir, fielmente, fazendo de suas palavras as minhas e de seus sentimentos os meus:

Brasília. Atualmente a vejo mais madura, com belas curvas sensuais de uma das mais bonitas e modernas obras de arquitetura e urbanismo do mundo. A mim sempre se descortinam lindas vistas, iluminadas por um Sol e uma Lua inigualáveis, que aprendi a apreciar. Aqui, você tem muitas e boas opções de vida social e espiritual, que podem ser vividas intensamente. Basta se dispor. Fazem bem ao corpo e à alma. E o meu “horizonte de vida”, que um dia se estendeu até a minha cidade natal, atualmente está perfeitamente conformado ao horizonte desta terra, que, muito além, une o Planalto Central ao lindo céu de Brasília. Foi assim que, nesta terra, criei raízes e posso dizer que a experiência de vir a Brasília se transformou em vir para Brasília. Vim para ficar. Amo esta cidade, que adotei para viver e morrer feliz.

Assim também me sinto em relação a Brasília. Sou muito grata a tudo que aprendi nessa cidade, ao que me transformei e me transformo todos os dias. Aqui aprendi o real significado da vida; consegui o trabalho que me sustenta e me dá condições de ajudar outros. Renasci e renasço todos os dias. Vivo um dia de cada vez, curtindo as belezas que ela me oferece, aproveitando cada cantinho lindo que me faz pensar e repousar. Eu vivo tão imersa nesse lugar que não gosto de sair daqui nem a passeio. Brasília sou eu. Eu sou Brasília. Solitárias, porém unidas. Amo essa cidade. Eu a escolhi. Eu quis viver aqui. E aqui quero morrer.

A segunda parte do livro é composta de três homenagens que o escritor faz ao pai, à mãe e à esposa Leninha.

Penso que os poemas ou trechos colocados antes do início de cada texto para representar o que ele sente por cada uma dessas pessoas diz tudo.

Ao pai:

O meu pai é o melhor do mundo
porque ele fez o mundo
Não este mundo
Mas o meu mundo

À mãe:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa sem
deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo-
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará para sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

                                             Carlos Drummond de Andrade

À Leninha

Eu nasci pra você.
Você nasceu pra mim.
Eu entrei na sua vida.
Você entrou na minha.
Eu não quis sair da sua vida.
Você também não.
Mas sem querer você saiu.
E eu fiquei pra trás.
Que coisa mais insensata!

Só tenho a agradecer ao Luís Pai e ao Luís Filho por esse livro ter chegado em minhas mãos, reavivando tantos sentimentos guardados. Considero-o como um convite para me abrir às coisas mais simples da vida, à natureza, a Deus e ao outro.

Lendo-o, pensava: agora está explicado porque o meu colega de trabalho é tão educado, discreto e reservado. Como dizia minha avó paterna: ele não roubou, herdou.

Luís Pai conseguiu contar a sua história com requinte, elegância e beleza, qualidades possuídas por pessoas que Clarice Lispector descreve como pessoas de alma já formada.

Bem, minha alma ainda é prematura, recém-nascida, pelejando para chegar lá e receber o diploma de formação, porém com a certeza de que subiu alguns degraus depois dessa prazerosa leitura.

O que resta dizer?

Apenas obrigada!

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

Um comentário sobre ldquo;Lá na praia…e outros casos, de Luís Antônio Violin

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