A arte de escrever

Schopenhauer é um filósofo alemão do século XIX que dedicou toda a sua vida ao estudo e ao desenvolvimento de seu próprio pensamento. Seu pai o financiou numa viagem pela Europa para que ele adquirisse conhecimentos sobre comércio a fim de dar seguimento aos negócios da família, no entanto o que chamou a atenção do filho durante essas viagens nada tinha a ver com as práticas mercantilistas. Schopenhauer se interessou em observar as mais variadas formas como se apresentava a miséria humana.

Assim, com o apoio de seu pai, passou a mergulhar na Filosofia, buscando entender o mundo e o homem. Aproveitou-se da bondade dele, o qual ofereceu-lhe condição econômica confortável, e se permitiu viver o ócio criativo de que tanto falara, a fim de estudar e produzir importantes obras que legou à humanidade.

O conteúdo de A arte de escrever foi retirado de seu livro intitulado Parerga e Paraliponema, que quer dizer acessórios e remanescentes, e trata-se de uma crítica ao rebuscamento linguístico de que se valia para escrever os eruditos de seu tempo. Para o filósofo, a erudição nada mais é que uma forma de dirigir-se ao público por meio de uma escrita difícil, utilizada tão somente para disfarçar que são maus escritores. Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm nada.

Para Schopenhauer, esse requinte estilístico, cheio de falta de clareza, prolixidade, neologismo e  ininteligibilidade seriam indícios de uma tentativa de dar aparência erudita e profunda a textos sem conteúdo.

Lembro-me que quando estudava o ensino fundamental e também o ensino médio, existia no cronograma apenas uma aula de Filosofia por semana e o que todos nós alunos comentávamos é que não entendíamos nada do que era falado nessas aulas. Dizíamos que os filósofos “viajavam na maionese” e que o nosso professor de Filosofia viajava mais ainda. Odiávamos ter que ficar escutando aquelas coisas incompreensíveis e as achávamos totalmente inúteis, pois realmente não entendíamos nada. Graças a Deus, superei essa rejeição e atualmente compreendo de que trata a Filosofia e tenho elevada estima por esse campo do saber.

Schopenhauer defende uma forma simples e concisa de escrever: (…) deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela.

Ele sustenta que os escritores devem ter consideração para com o leitor e que o autor deve dialogar levando-se em conta o respeito às limitações e ao tempo de quem o lê. O escritor precisa recompensar o leitor que se dedica à sua obra e essa recompensa pode ser em forma de algo cuja leitura seja prazerosa e não complicada ou ininteligível. O leitor espera do escritor um mínimo de lealdade. O escritor precisa tratar os assuntos de modo claro e direto sem, entretanto, perder o seu estilo, a sua originalidade. Um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais difícil.

Schopenhauer critica a quantidade e a variedade de estabelecimentos de ensino e de aprendizado, bem como o grande número de professores e alunos. Para ele, isso poderia dar a falsa impressão de que a espécie humana dá importância à instrução e à verdade. Mas é tudo aparência, pois os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, enquanto os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para tagarelar e ganhar ares de importantes. Ele diz: A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado.

Esse pensamento cai como uma luva para pensarmos nessa Era da Informação, onde as pessoas leem muito pouco, debruçam-se superficialmente sobre tudo e nada sabem com profundidade. E, pior, não admitem a ignorância. Nunca leram sequer um livro e discordam prontamente de Shakespeare, de Schopenhauer, de Goethe e de muitos outros notáveis que passaram parte ou toda a vida debruçados na busca do saber.

Há muitos interessados em novas e breves informações que lhes dão raso entendimento. Hoje, todos emitem juízo sobre tudo sem estar devidamente instruído a respeito de nada e ignoram todo o conhecimento tradicional acumulado ao longo dos séculos. As frases da vez são “eu discordo”, “é tudo convenção social”, “eu acho isso”, “minha opinião é essa”. Com base em que discordam não sei, nem eles sabem. Provavelmente, em suas vastas experiências acumuladas ao longo de alguns minutos de pesquisa. Calemos diante da burrice. Ela existe, mas evidenciá-la é um crime imperdoável.

Schopenhauer defende que alguém, o qual se entrega ao conhecimento, deve ter o saber como meta a fim de se manter a imparcialidade. Para ele, uma obra só alcança a excelência se produzida como um fim em si mesma. Um autor pode até ser premiado por uma obra, ganhar muito dinheiro e ser reconhecido em virtude dela, mas essas coisas são consequências e não devem ser os objetivos de quem resolve criá-la.

Há os que exercem uma ciência ou arte por amor, alegria ou mero deleite e há os que as exercem por dinheiro, como uma boa vaca que lhes fornece leite. Há os que vivem de arte e os que vivem para a arte e entre eles uma distância abismal se impõe. Entretanto, o público tende a dar credibilidade àqueles que “vivem de”, que nada mais são do que os que se garantem por meio da apresentação de diplomas e títulos, os quais nem sempre atesta a capacidade de quem os têm. Muito mais que demonstrar real conhecimento, é necessário provar que se é um especialista para ser condecorado, respeitado e aceito.

Se dissermos para alguém que passamos um período de vinte anos estudando a vida e a obra de Schopenhauer só vão nos eleger para falar a respeito dele se apresentarmos nossa tese de doutorado. Ter vivido para estudar vida e obra do filósofo apenas por amor a esse saber provavelmente não nos renderá muitos créditos, porque só um tolo se dedicaria tanto tempo a algo em troco de nada. Afinal, é mais importante parecer do que ser.


Todos estão pensando em si próprios, procurando reconhecimento e poder para si, sem nenhuma consideração pelo bem comum. Esse egoísmo nos arruina. Aquele que se destaca como pensante e capaz representa um perigo a todos. É assim nas artes, na política e nas empresas. Quem nunca presenciou a situação em que alguém percebe outro mais competente e inteligente e tem medo de perder o lugar que ocupa ao sentir-se ameaçado? Pois bem, a insegurança não torna uma pessoa mais inteligente ou capaz. O que importa é continuar auferindo os lucros por aquilo que não consegue realizar adequadamente, mas confere-lhe aparência de ser bom. Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.


Schopenhauer defende o desenvolvimento do pensamento próprio. Segundo ele, o homem deve pensar com sua própria cabeça, formular pensamentos, refletir sobre o que acontece e não apenas recriar o pensamento do outro por meio de palavras próprias que, muitas vezes, empobrece o texto original. Só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.

Critica os leitores vorazes, sob o argumento de que ler muitos livros faz com que pensemos com a cabeça dos outros. No entanto, não descarta a leitura de bons livros cujos autores realmente entendem do assunto e têm algo a dizer. Para ele, só devemos escrever se, de fato, tivermos algo para dizer, de preferência de modo simples, conciso, direto, distante de toda prolixidade e de exageros estilísticos. Se podemos utilizar palavras ao alcance de todos, por que complicar? Os verdadeiros escritores não estão preocupados em demonstrar conhecimentos excepcionais, apenas em deixar claro o pensamento que eles precisam expor. É na simplicidade que reside a verdade.

Entretanto, nada impede que quem desenvolva o seu pensamento próprio encontre em outros livros opiniões de autores que apenas confirmam e fortalecem seu pensamento. Quem nunca leu um livro e concluiu: “penso exatamente assim”? Nesse caso, os livros são de grande valia, mas não se deve perder de vista que pensar por si mesmo é simplesmente magnífico. Contudo, Schopenhauer faz a seguinte ressalva: (…) mesmo uma grande inteligência não é capaz de pensar por si mesmo a todo momento.

Quem deseja escrever deve fazer isso de modo simples, claro, conciso, sem embaraces, pois quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui valor a seus pensamentos.

Schopenhauer defere grande importância e respeito ao tempo do leitor e o aconselha a largar um livro assim que perceber o quanto ele é ruim ou de difícil entendimento, pois não se deve perder tempo com aquilo que não nos acrescenta coisa alguma. O escritor deve respeitar o leitor e procurar escrever com elegância e clareza. Um estilo descuidado, negligente e ruim demonstra um menosprezo pelo leitor.

O escritor que realmente tem algo a dizer procurará expressar suas ideias e pensamentos da forma mais evidente possível, evitando deixar o leitor no escuro. O filósofo, ainda, aconselha a leitura dos clássicos: Leiam com afinco os antigos , os verdadeiros e autênticos antigos:  o que os modernos dizem sobre eles não significam muito.

Concordo com ele e também vos aconselho a dar aos livros clássicos o valor que eles merecem (expliquei o que é um clássico no texto sobre Hamlet). Atualmente, surgem novidades a todo instante. As livrarias estão abarrotadas de livros, mas é necessário que sejamos seletivos ao escolhermos aqueles que levaremos para casa. Nem tudo o que é novo é bom. E nem tudo o que é antigo é ruim. Às vezes, o que precisamos saber já foi escrito há vários séculos por escritores que dedicaram toda a sua vida a um determinado estudo ou conhecimento. Discordo daqueles que nos aconselham a ler qualquer coisa que nos aparece. Precisamos ser exigentes e não devemos gastar nosso precioso tempo com quem não tem nada de proveitoso a nos dizer.

É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, que se espalham a cada ano em grande quantidade, como moscas. E isso apenas porque foram publicados hoje e sua tinta ainda está fresca. Na verdade, esses produtos deveriam ser abandonados e desprezados já no dia de seu nascimento, como serão após poucos anos, e então para sempre, reduzindo-se a um mero assunto para que se ria dos tempos passados e de suas balelas.

O que é ruim deve ser criticado e descartado. É uma pena que hoje não se possa criticar absolutamente nada e isso dificulta muito para aquele que escreve saber que aquilo que escreve é péssimo e deve ser reformulado ou refeito. A abolição da crítica pode ser negativa quando permite chegar até nós produções sem nenhum valor.

Sendo assim, leitores, tomem cuidado com as novidades e as modinhas que aparecem por aí. Sejam cautelosos e respeitem a si mesmos. Não se deixem enganar por aqueles que só escrevem porque precisam de dinheiro, de uma vaca que lhes produza leite. Escolham os melhores livros, aqueles que lhes ajudarão a enfrentar de forma menos danosa essa existência tantas vezes sofrida.

A companhia de um livro pode ser a coisa mais prazerosa, mas livros chatos são como pessoas chatas. Livrem-se deles!

Não há nenhum conforto maior para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: logo que uma pessoa tem em mãos qualquer um deles, mesmo que seja por meia hora, sente-se imediatamente renovado, aliviado, purificado, elevado e fortalecido; é como se tivesse bebido de uma fonte de água fresca em meio aos rochedos.

Assim também me sinto quando tenho a companhia de um bom livro. Os livros me fortalecem e me renovam. Esses são sentimentos que pouquíssimas pessoas me despertam. Digo que os melhores conselhos e ensinamentos foram aqueles que meus livros me passaram. Tenho amor, respeito e gratidão por eles.

A cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais nos homens.

Infelizmente, não vivemos num país de muitos leitores. A leitura não figura entre as atividades preferidas dos brasileiros. A maioria das pessoas estão interessadas em falar de si mesmas, ainda que sobre assuntos enfadonhos e desinteressantes, ou estão interessadas em falar dos outros, o que é pior ainda. Por isso, quase sempre prefiro me deslocar a lugares recônditos na companhia de um bom livro.

Perguntaram-me se isso não me torna uma pessoa intolerante. Eu repassei a pergunta: Você me acha intolerante? Graças a Deus, a pessoa teve grande misericórdia e disse que não. Sou mesmo intolerante? Sinto-me incapaz de responder, pois somos péssimos julgadores de nós mesmos. Na verdade, penso que não tenho externado muito minhas intolerâncias. Engulo-as a seco.

A maioria dos grandes escritores sofreram na miséria e na pobreza e pouquíssimos foram reconhecidos na época em que escreveram suas grandes obras. Geralmente, a fama, a honra e a riqueza são reservados aos indignos. Na música, isso também é evidente. Enquanto os bons cantores não conseguem espaço para se apresentarem, os desafinados invadiram todos os palcos e, pior, os nossos ouvidos. Também se avulta a existência dos péssimos atores. Os antigos estão sendo demitidos, porque só há espaço para o novo. Não há mais lugar para os antigos em canto nenhum. Os atores de quarenta anos ou mais que restaram interpretam personagens de vinte anos, como se fossem obrigados a serem eternamente jovens. Simplesmente, ridículo. O culto à juventude, às modinhas e à novidade só nos torna cada vez mais infantis e imbecilizados.

Precisamos retornar às tradições e aos clássicos e a dar valor ao que realmente é capaz de provocar algo de interessante e proveitoso em nós. Devemos recusar tudo aquilo que é de péssimo gosto e que nos empobrece como espíritos que somos. Do mesmo modo que o nosso corpo precisa de uma dieta restrita, com alimentos capazes de nutrir nossas células, nosso espírito necessita se esvaziar de todo excesso para se nutrir do que realmente é capaz de nos transformar no melhor que podemos ser.

Uma vez que nada mais há para tratar nesse momento, peço desculpas se, apesar do esforço, não tornei essa exposição tão clara, direta e concisa à semelhança do que Schopenhauer aconselha ou sugere.

2 comentários em “A arte de escrever

  1. Que texto lindo!
    Ultimamente tenho sentido falta de críticos, sei que há uma linha tênue entre o carrasco que estimula as crises existenciais com vistas para a destruição e o crítico que destrói com vistas para o verdadeiramente digno de atenção.
    A única coisa que divirjo do texto é a questão do brasileiro estar preocupado em falar de si ou do outro, acho que em nossa cultura temos uma valorização da oralidade muito forte, bons pensadores sabem conversar, claro que este é um lema pessoal, mas é o lema que me faz admirar o Pondé, o que quero dizer é que o povo brasileiro é um povo interessantíssimo. Acho que quando conseguimos entrar no fluxo das conversas cotidianas costumamos não parar para escutar as definições de mundo expostas em cada opinião. Tem um livro, difícil kkkk e talvez desprezível para alguns, do filósofo Oswaldo Porchat sobre o ceticismo e a tese dele é que um bom cético é aquele que se volta para o comum escutando o mundo explicado entre as pessoas comuns, aquele que sabe conversar e tirar proveito de cada conversa. Claro que isso não significa banalizar a interpretação ou perder tempo, mas acredito que tenha mais no Brasileiro do que o sobre si e sobre o outro.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Jonatas! Vou refletir sobre a sua discordância. Penso que a colocação é válida. Mas eu tenho a impressão que até mesmo a opinião sobre a visão de mundo de cada pessoa é bem centrada nas próprias experiências de vida. Poucas pessoas, a meu ver, abre-se para um diálogo com alguém que tenha ideias opostas. E esse meu pensamento talvez seja influenciado também pelo alcance restrito de minha própria visão.

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