Como fui parar num divã

Há algum tempo, talvez por considerar-me apta a lidar com os revezes da vida, recebi alta da psicóloga, com quem encontrava-me quinzenalmente. Entretanto, acertamos que, em caso de surgimento de quaisquer eventualidades nas quais eu enfrentasse dificuldades para resolver pelas minhas próprias vias, eu daria um grito pedindo socorro com a finalidade de voltarmos a nos ver.

Quando estava numa roda em que a discussão pairava sobre sessões de terapia, eu dizia com ar superior misturado com fingida despretensão: acredita que minha psicóloga me deu alta? Numa época em que os problemas psíquicos estão em alta, estar de alta é quase melhor que ganhar o Oscar. Então, eu exibia o meu prêmio de modo triunfal.

Acontece que, à semelhança do que dizem alguns, tudo o que é bom dura pouco e, passado um tempo desde a alta, senti necessidade de valer-me, novamente, da ajuda profissional. Assim, liguei para minha psicóloga e implorei por socorro: a coisa tá braba, a coisa tá feia, eu vou estourar. Help! Please!

Eu, que até hoje, só aprendi em inglês a conjugar o verbo to be, consegui balbuciar mais essas duas palavras em língua estrangeira de tão grande que era o meu desespero. Talvez um pedido de socorro em outro dialeto soasse mais dramático e eu seria rapidamente atendida.

Pois não é que deu certo?

Chegando à clínica de psicologia, fui encaminhada para a recepção da sala de emergência. Não poderia esperar nem um minuto sequer, pois era urgente. Urgentíssimo.

Passado algum tempo de espera, chegou a minha vez de ser atendida. A análise começou logo que entrei na sala, pois em vez de sentar na cadeira destinada ao paciente, fui logo em direção à poltrona da psicóloga, como se inconscientemente eu imaginasse que fosse ela a necessitada.

 Não Ana. Vá para o seu lugar.

Ah é verdade, disse-lhe eu com ar de desentendida. De imediato, acrescentei: Então, vou logo dizendo que tenho mania de, ao entrar num consultório médico, dirigir-me à cadeira do doutor. Como você explica isso?

Você e suas inversões de papéis – disse ela.

Entendi muito bem do que se tratava, afinal não era a primeira vez que eu me colocava numa posição onde não deveria estar. Também tinha outra explicação. É que acho os outros sempre mais necessitados que eu. Quem sabe os médicos não estavam bem de saúde? Quem sabe se a psicóloga não estava precisando desabafar? Quem sabe eu não poderia ajudá-los? Aquele velho complexo de herói que nós duas já havíamos identificado em outras sessões e que me persegue desde criança. Sempre quis salvar os outros antes de salvar a mim mesma. Ou seria complexo de Deus? Não duvido que seja. No entanto, quem estava precisando de ajuda era euzinha

Aceitei o lugar que me cabia e sentei na poltrona a mim destinada.

O que está acontecendo Ana?

Olha, eu vim aqui porque não estou sabendo lidar com fulana de tal… e contei toda a história…

Mas, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, continuei: Só que no caminho para cá, eu acho que descobri o porquê da minha falta de tato diante dessa situação. Acho que já tenho a resposta. Está relacionado ao meu complexo de herói. Eu achei que poderia salvar fulana, fiz o que pude, mas fulana não reage. Acontece que a não reação dela me veio como um fracasso. Algo que tentei e não consegui. Isso mexe com meu ego, porque ao tentar salvá-la e não conseguir, sinto-me impotente. Então, o problema não é ela. O problema sou eu.

A psicóloga concordou com minha autoanálise e completou: Ana, coloque na sua cabeça que você não vai salvar fulana nem ninguém. Nesse mundo, a gente precisa tentar salvar a si próprio e olhe lá se conseguiremos. Mãe não salva filho; filho não salva pai; mulher não salva marido; irmão não salva outro irmão, etc e tal. Você entendeu?

Sim. Eu havia entendido isso há muito tempo, afinal de contas, quando cheguei à sessão já fizera todo o estudo e análise do caso, a qual levou-me a concluir que não posso salvar quem quer que seja.

Quando uma pessoa está se afundando, o desespero dela e o instinto de sobrevivência são tão grandes, que se alguém estender as mãos para puxá-la é capaz de ir junto e se afundar também. Assim somos nós quando queremos resgatar quem já negou a si próprio a salvação.

Conversamos sobre mais algumas coisas, demos risadas e eu saí da clínica sem o peso da cruz dos outros nas costas, mais leve, menos encurvada. Cada um carrega a própria cruz. Por que insistimos em levar também a do outro? Ao carregar a minha, eu me mantenho ereta, firme e adiante, porque sei muito bem identificar e combater as causas dos meus desalentos. Sei também que há vazio e angústia em todos nós, provenientes da nossa condição humana de criaturas impotentes, diante dos infortúnios e da finitude da vida. Quanto a esse vazio, não há terapia, muito menos ter a pia cheia de prato sujo para lavar que dê jeito. Ele nos seguirá até o fim. Ou aceitamos e lidamos com isso, ou a dor poderá ser ainda maior.

Encerrada essa única sessão de terapia, o qual digo agora com humildade, pois nunca se sabe, continuo de alta. O trato com a psicóloga foi o mesmo. Se eu sentir necessidade, pedirei socorro de novo e de novo e de novo…Já lhe falei que acho um desaforo comigo mesma carecer de psicóloga durante muito tempo. Eu quero caminhar com as minhas próprias pernas e, só de vez em quando, pedir apoio. Não me dou ao luxo de sustentação emocional perpétua. Afora isso, o dinheiro não tem a característica de ser desdobrável e eu quero economizar para comer comida gostosa todo dia e pagar o meu café diário. Senão, não sobra. Tenho minhas prioridades. E também tenho um corpo que exige prazeres e outras especialidades médicas.

Mas agora, confessarei-lhes uma coisa. Eu tenho mesmo é vontade de ser amiga dessa minha psicóloga e poder convidá-la para vir tomar um vinho em minha casa, dar risadas e falar sobre coisas de mulheres e de homens. Porque eu, por mais que não seja muito dada a chamegos com mulher, até que gosto muito dela.

Pensando melhor, acho que isso não daria certo. Uma amizade entre nós nos aproximaria a ponto de eu não ter condições de saber quando ela estiver me analisando. Além do mais, o dia em que eu precisar de socorro terei que pagá-la na condição de psicóloga e eu não posso admitir que uma amiga cobre para me dar conselhos, muito menos receber conselhos de uma amiga psicóloga sem pagá-la, por pura questão de justiça.

Sendo assim, ou a psicóloga, ou a amiga. Nem sempre é possível ter tudo. Mas como sei dos altos e baixos da vida, opto pelo que já está garantido. Eu quero é ter acesso imediato à profissional que conhece um pouco de mim e das minhas queixas e está disposta a me receber de braços abertos mesmo quando quero sentar em sua poltrona e tomar o seu lugar.

E se ela não tiver condições de explicar-me, talvez Freud explica.

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