Primeiro, o homem; depois, a Literatura

Ao ser questionada sobre se tivesse que escolher entre a Literatura e a maternidade, Clarice Lispector respondeu, quase sem pensar, que nascera para ser mãe. Sou muito maternal – disse ela.

Como não tenho a experiência de possuir filho, essa mesma pergunta não me poderia ser feita. Mas, quem sabe essa: Caso tivesse que escolher entre a Literatura e o homem que ama qual seria a sua opção?

Sem pensar, eu diria: O homem que amo.

Nem se espantem, queridos leitores, com a minha escolha, pois é mais que sincera. Nela, medito todos os dias. Primeiro, ele. Depois, ela. Aqui em casa, por minha própria deliberação, funciona desse jeito e tem dado muito certo.

Fome de ler e escrever, eu tenho. Mas, de amor, essa fome é ainda mais voraz. Os livros são muito importantes para o aprendizado e a compreensão da vida e das coisas, mas o amor acalenta, acolhe, perdoa e esquenta.

Nunca me esqueci de uma frase de Marilyn Monroe, símbolo sexual do séc. XX, que, a despeito de seu sucesso, nunca se sentiu bem amada e proferiu: O sucesso é bom, mas ele não te aquece numa noite fria.

E não aquece mesmo. Ainda que tenhamos milhões de dólares para comprar os cobertores mais quentes.

Há uma espécie de frio que sentimos e só um amor é capaz de eliminá-lo com o seu calor. É como esse frio que faz agora lá fora e eu sinto um vento gélido no corpo, toda tranquila, pois há um homem me olhando enquanto escrevo, a três passos de mim.

Sou capaz de parar o texto aqui mesmo a qualquer sinal de um chamado seu.

E enquanto ele não chama, escrevo.

Não sei se mais alguém precisa desse tipo de cobertor a que me refiro. Eu faço muita questão. E não nego, nem tenho qualquer pudor em admitir que esse homem ocupa, depois de Deus, o mais elevado patamar na minha pirâmide de prioridade e satisfação pessoal.

Ele, o homem. Esse que continua a me fitar com o mais primitivo dos olhares.

Então, ele diz: Estou com fome. Subitamente,  levanto-me, em total abandono ao que estou fazendo no momento, e vou preparar algo para alimentá-lo.

Estando ele satisfeito, volto a sentar no meu canto.

Passado algum tempo, esse mesmo homem sugere que um café cairia bem. Dirijo-me à cozinha e volto para ele sorridente com uma xícara nas mãos, contendo o café forte e quente, tal qual ele gosta.

Tomamos o café em meio a poucas trocas de palavras e nos dirigimos novamente aos nossos afazeres.

Quase sempre, estou imersa em alguma leitura, escrevendo algum texto, estudando, ouvindo música, assistindo palestras e entrevistas, rezando ou mesmo envolvida com pequenos trabalhos domésticos.

Ele, quieto em seus estudos ou assistindo algum programa de TV.

Assim, deixo-o descansar, sem quaisquer reclamações ou exigências.

Às vezes, transito pela casa e lanço um olhar furtivo sem que ele o perceba. Cá dentro, a alegria de pertencer-lhe e de saber que não há frio a enfrentar.

Suspendo qualquer leitura para atendê-lo. Por mais interessante que seja a história de um livro, nada é mais importante que o seu chamar.

Arrumo os objetos dele, dobro suas roupas, limpo os seus sapatos e organizo o seu cantinho de estar… Tudo isso me lembra que ele permanece ali numa presença silente e prazerosa feita à minha medida.

Você só quer saber dos livros – ele diz e sorri.

Só quero saber de você – respondo satisfeita e continuo a ler.

Depois de algum tempo, ele anuncia: Está na hora de dormir.

Sigo em direção ao quarto e me enfio debaixo das cobertas. Com uma mão, seguro um livro; com a outra, dirijo-lhe as mais suaves carícias até que ele pegue no sono.

Ao admirá-lo em seu sono profundo, não me restam dúvidas…

Dou-lhe um beijo e faço orações em sua intenção. Enquanto ele dorme, continuo a ler ou a escrever até que o sono me vença.

Um só é o meu pensamento enquanto durmo: Primeiro, o homem. Depois, a Literatura. E, ao acordar no outro dia, como que para confirmar meus sonhos, é ele o primeiro a surgir em minha frente.

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