Diante da diversidade e da multiplicidade de tudo o que existe ao nosso redor, não restam dúvidas que é evidente conceber entre nós muito mais diferenças do que igualdades. A despeito de sermos seres humanos constituídos dos mesmos materiais e substâncias corpóreas, o que de certo modo nos iguala, cada pessoa possui inúmeras características que as diferenciam.

No entanto, apesar da flagrante verdade a qual consiste em saber que somos essencialmente distintos, ainda é difícil para muitos aceitar as diferenças sem atos que evidenciem um total desprezo e desrespeito pelo outro. Temos dificuldade quase doentia em aceitar aqueles que são, pensam e se comportam contrariamente ao que somos, pensamos e nos comportamos. Para tantos, é quase uma afronta que o outro não corresponda às suas pretensões egoísticas de identificação com o próprio eu. Disso resulta não apenas danos e prejuízos, mas consequências irreparáveis e inaceitáveis como violência e mortes. E nós não podemos ficar silentes na plateia ou a aplaudir atitudes bárbaras como se tivéssemos nos conformado com as mais variadas formas de crueldades. É preciso se indignar e, se necessário, bradar ao saber ou presenciar qualquer forma de opressão, tirania e desconsideração direcionados ao próximo.

O Brasil é um país que, embora marcado por diversidades de todas as ordens, a exemplo da geográfica, regional, racial e cultural, ainda conta com uma população carregada de preconceitos e avessa às diferenças. Isso se mostra em várias situações. Temos dificuldades em aceitar os demais quer pela cor, condição social, pensamento e até por questões puramente íntimas como a sexualidade. É lamentável constatar que alguém é vítima de ataques e afrontas apenas pelo fato de se relacionar intimamente com pessoas do mesmo sexo, no entanto isso se tornou tão comum que deveria nos causar não apenas vergonha, mas sobretudo revolta.

Hoje, a homofobia é tipificada penalmente, mas não se mostrou bastante para diminuir ou intimidar a prática do crime. Sou daquelas que, embora saiba a importância de se punir condutas inadequadas, prefere combater as suas causas, o que, por ser mais difícil e complexo, acaba não recebendo atenção nem das autoridades nem daqueles que pretendem resolver tudo e qualquer coisa na base da incriminação ou da letra morta de uma lei. O problema é que, ao criminalizar uma conduta, a punição age apenas sobre as suas consequências, e isso não impede que pessoas sofram violência e sejam assassinadas. No mais, não há que se falar em justiça post mortem, pois ela não é capaz de devolver uma vida que fora ceifada por motivo tão fútil e torpe. Na verdade, é inconcebível que a sexualidade seja um motivo para atentar contra alguém, quer física, quer verbalmente.

O preconceito contra homossexuais deve ser combatido com veemência, a começar dentro da própria família. Muitos pais são os primeiros a negarem os seus filhos e a rejeitá-los. Mesmo sabendo que a família é um lugar típico de muitos conflitos, não podemos negar que ela é a nossa sustentação e base. Quando somos por ela acolhidos e respeitados, nos sentimos mais fortes e prontos para enfrentar as contendas externas. No entanto, se não recebemos o seu apoio, um sentimento de rejeição e perdição nos fragiliza a ponto de realmente acharmos que há algo de errado conosco. Não há nada de errado em ser homossexual. Isso não nos torna menos humanos ou capazes, muito menos nos inferioriza.

Ao presenciar qualquer piadinha ou comentário depreciativo contra homossexuais, devemos nos prontificar a combater imediatamente, demonstrando ao que agiu de forma desrespeitosa toda a nossa reprovação e o nosso repúdio diante de sua atitude. Não nos convém fazer como muitos que caem em risadinhas sem graças. Não devemos aceitar esse tipo de comportamento, sob pena de conivência. Uma das maneiras de coibir a continuidade de condutas inconvenientes é demonstrar visivelmente ao ofensor a nossa reprovação ao seu comportamento mesquinho.

Quando presencio situações desrespeitosas, lanço tão logo um olhar de desdém e censura, de modo a inibir semelhantes ações posteriores. E se for preciso, reprimo verbalmente como já o fiz tantas vezes. Assim, a pessoa não mais se sente à vontade para exteriorizar seus tolos preconceitos. E também é um modo de fazê-lo rever a extensão de sua ignorância.

Viver num país politicamente democrático, onde a liberdade de expressão se configura dentre seus princípios, não nos dá o direito de usá-la sob pretexto para sermos ofensivos ou atentarmos contra a dignidade dos demais, sejam eles quem forem. O respeito é a base de qualquer relação e devemos prezar por ele. Não nos é dado o direito de ofender o outro. E ainda que nossas crenças religiosas não admitam certos comportamentos, quem as devem seguir são aqueles que por elas optaram, não os demais os quais são livres para escolherem suas próprias crenças e procedimentos.

Além da violência nas suas mais diversas formas e do homicídio, sabe-se que uma parcela de idosos homossexuais tem maior propensão a ficarem deprimidos e também ao suicídio. Além de muitos não terem filhos, há o agravante do desprezo por parte da família e de amigos. Assim, eles se veem obrigados a enfrentarem não só as limitações da idade como também a solidão imposta.

O escritor italiano Gianni Vattimo, em seu livro Não ser Deus, confessa que aos 70 anos resolveu falar sobre a sua homossexualidade e não foi perdoado nem pelos inimigos nem pelos amigos. Houve quem lhe questionasse porquê tal revelação tardia, a qual poderia ser mantida em segredo e levada ao túmulo.

É absurda a ideia de que alguém tenha que se esconder para satisfazer as expectativas ou anseios dos outros. Ser e se mostrar tal como se é refere-se a uma questão de dignidade. E impedir que alguém se manifeste a fim de não sermos ofendidos, sabe-se lá por qual motivo, mostra-nos muito mais a nossa própria fragilidade que, nesse caso, é digna de ser tratada. Há que se dar muita atenção àqueles que se sentem ultrajados diante da sexualidade alheia. É um caso que talvez Freud explique.

No mais, vamos aproveitar o que vos falo para refletir, combater e cortar pela raiz toda forma de preconceito. Junho foi o mês escolhido para simbolizar as cores do arco-íris, como forma de combater a aversão contra as mais diversas manifestações da sexualidade. Não podemos admitir a propagação da violência e da crueldade de maneira alguma. Somos todos responsáveis pelas coisas que fazemos e também por aquelas que deixamos de fazer. E não se enganem achando que devem ficar omissos diante da barbárie, pois as nossas omissões podem ter consequências tão mais desastrosas do que podemos supor ou imaginar.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

2 comentários sobre “Junho colorido (ou Combate à homofobia)

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