Depois que se é feliz o que acontece?

Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? Essa é uma indagação feita pela escritora Clarice Lispector que gira em torno daquilo que a maioria das pessoas diz perseguir durante a vida – a tal felicidade. Essa ideia de perseguição da felicidade, inclusive, pode nos remeter a algo que parece inalcançável. Se pensarmos bem, nós a buscamos todos os dias de nossas vidas como se ela jamais se mostrasse rendida.

Por mais que falemos sobre esse assunto, ele não se esgota por vários motivos. E um deles diz respeito à avaliação subjetiva feita por cada pessoa quanto às formas e os meios de alcançá-la. Também, o que faz a felicidade de alguém não necessariamente é capaz de fazer o outro feliz.

Tenho minhas desconfianças com relação a esse termo e lembro-me que, desde muito cedo, percebi que ele, visto como algo infindo, não caberia nessa vida finita, mista de alegrias e desgostos, paz e tribulações, altos e baixos, surpresas e decepções.

Durante a vida usufruímos de momentos intensos, quer jubilosos, quer dolorosos, e muitos deles parecem carregar em si mesmos a eternidade. Acredito muito mais na possibilidade de gozarmos com todo fervor de instantes alegres que se nos apresentam, os quais considero agradáveis e prazerosos justamente pelo fato de serem passageiros, do que ficar a desejar que eles não acabem, apegados à ilusão que faz crer ser possível a permanência de qualquer estado.

Se o que realmente buscamos durante as nossas vidas é a tal felicidade, cabe a pergunta inicial: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? Se alcançamos o que desejamos, o que mais desejar? Há quem diga que a interrupção da vida se dá com a morte dos desejos. Isso na cultura ocidental, pois o Oriente prega justamente o contrário, ou seja, é o desejo que nos escraviza e, portanto, acarreta a nossa morte. Seria então esse desejo incessante por felicidade o motivo da nossa falta de paz ou de um certo tipo de morte?

Muitos acreditam que a felicidade virá quando se conseguir coisas, um determinado emprego ou quando se realizar uma certa viagem. Outros acreditam que ela chegará com o namoro, o casamento, o nascimento dos filhos, a compra do carro ou da casa desejada. E por que não com o aumento do saldo da conta bancária?

No entanto, basta olhar ao redor para perceber que muitas pessoas, as quais possuem suas aspirações materiais satisfeitas, permanecem buscando por completude e felicidade, o que leva-me a crer que ela é quase impossível de ser conquistada tanto quanto às belas damas que, por terem sido inalcançáveis, eram tão mais cobiçadas.

Caso alguém me pergunte se sou feliz, digo-lhe que a minha resposta não conseguiria alcançar a imensidão significativa que essa palavra evoca. Prefiro dizer que estou quase sempre alegre. Tenho inata disposição para a alegria e o riso. E quando um desconforto anuncia certa tristeza, muitas vezes origina-se do próprio ato de existir, mas logo no instante seguinte um ardor toma conta e incendeia meu peito. Também noto que uma certa melancolia ronda-me algumas vezes devido à influências hormonais inerentes à natureza da mulher que, tal qual uma lua, é obrigada a lidar mensalmente com suas diversas fases e com os incômodos daí decorrentes.

Ser e estar. Ser feliz. Estar feliz. Tenho a impressão que a felicidade talvez seria mais fácil de ser entendida e experimentada caso pertencesse ao campo do estar e não do ser. Assim, ela não se enquadraria como um atributo da essência, mas tão somente um estado, o qual por si mesmo sugere algo mutável. Talvez, a pergunta não deveria ser – você é feliz? Mas, você está feliz? Desse modo, eu sempre teria uma resposta convincente tanto para mim quanto para os outros.

Uma permanente felicidade, que me leva a pensar em saciedade e satisfação, não me seduz. Eu ficaria suspensa no ar como à espera. De que? À espera. E agora? Tenho a ligeira impressão de que a felicidade contínua e duradoura me paralisaria de um tanto que eu não saberia o que fazer. Creio que ficaria meio abobalhada. Inclusive, já experimentei essa sensação.

Certa vez, recebi a visita do meu irmão mais novo e durante os dias em que esteve comigo fiquei tão absurdamente feliz que nem mesmo consegui escrever. Mas, um dia antes de seu retorno, já movida pela certeza e tristeza do distanciamento, escrevi um texto, o qual ele leu e fez questão de dizer que achou dos melhores. Foi aquela dorzinha que me conduziu a criar. Eu vos afianço: não desejo dores neutralizantes, mas aceito sem reclamar aquelas que me empurram um bocadinho e insistem que eu aja imediatamente, movida pela afã de amenizar os meus enfados. Desse modo, entendo a afirmação de Pondé quando diz que uma cultura de felicidade pode apenas gerar pessoas banais e medíocres.

Isso me lembra também uma frase utilizada por Rubem Alves para intitular um de seus livros: Ostra feliz não faz pérolas. Ele inicia a obra contando uma história de certas ostras que eram notoriamente felizes, porque de dentro delas saía uma delicada melodia. Essas ostras felizes zombavam de uma ostra solitária, aparentemente depressiva. Todas essas ostras foram capturadas por um pescador que serviu-se delas para preparar uma sopa. Quando ele e sua mulher estavam saboreando a prato, o pescador sentiu um objeto duro bater em seus dentes e percebeu que dentro de uma ostra havia uma pérola. A jóia fora produzida pelo molusco sofredor. Então, Rubem Alves diz: Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola, uma linda pérola. Isso é verdade para as ostras e para as pessoas.

A ostra transformara o seu sofrimento em beleza. Assim, o autor conclui: A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Para alguns, a felicidade nada tem a ver com a satisfação material. O filósofo Arthur Schopenhauer diz que ela depende muito mais do que temos em nossas cabeças do que em nossos bolsos. Já Érico Veríssimo nos induz a pensar que a felicidade é a certeza de que nossa vida não está passando inutilmente.

Mário Quintana poetisa: Quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz – em vão, por toda a parte, os óculos procura tendo-os na ponta do nariz. O poeta instiga que a felicidade está diante de nós e onde menos se espera.

O pensamento de Nietzsche enuncia que a felicidade é frágil e volátil, pois só é possível senti-la em certos momentos. Na verdade, se pudéssemos vivenciá-la de forma ininterrupta, ela perderia o valor, uma vez que só percebemos que somos felizes por comparação.

Clarice Lispector escreveu um livro chamado Felicidade Clandestina, título que sugere ser a felicidade não apenas dotada de certa fragilidade e volatilidade, citadas por Nietzsche, mas também algo que, por parecer imoral ou ilegal, só pode realizar-se de forma oculta ou às escondidas. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Eu já pressentia – disse ela.

Talvez a ideia de felicidade exista como algo contínuo e permanente apenas para não perdermos a esperança e o gosto pela vida. No final das contas, todos a querem e a perseguem como se fosse algo concreto e materialmente atingível. A busca pela felicidade nos move em todos os sentidos e, mesmo que jamais a toquemos com as nossas mãos, a mera promessa de que um dia a alcançaremos basta-nos para que acreditemos que ela está logo ali à nossa espera.

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