Tratado sobre elegância

Talvez muitos pensem apenas no quesito vestimenta quando se fala em elegância. Não raro, notamos o quanto uma pessoa é elegante pela roupa que veste somada à sua postura corporal. No entanto, ela vai muito além da roupa que usamos e da posição ereta e altiva que adotamos. Elegância abrange, sobretudo, o comportamento.

Ela parece estar estreitamente ligada a uma certa simplicidade, discrição e delicadeza na apresentação, nos gestos e nas ações. Estardalhaços, gritos, indiscrição, fofocas, agressividades e inconveniências são coisas que minam a elegância de qualquer pessoa, ainda que sua beleza seja estonteante.

Ao procurar o termo no dicionário encontramos várias significações que compreende desde questões relacionadas às vestes, ao porte, ao decoro, até aquelas que sugerem ser ela algo ligada à esbelteza ou à magreza. Ou seja, além de ser demonstrada por meio de comportamentos, ela também é denunciada pela forma com que o físico é apresentado.

Ainda que neguem, somos a união inseparável de corpo e espírito. E a despeito da denúncia referente à escravidão aos padrões de beleza, ninguém há de negar que nos sentimos melhores quando estamos mais magros. Persigo um corpo esbelto não porque há alguém com uma arma apontada para a minha cabeça obrigando-me a ser magra, mas porque me sinto mais bonita e confiante quando as partes do meu corpo se ajustam às minhas roupas sem quaisquer sobras. Nenhuma ditadura da beleza há de vencer os meus próprios mandos no sentido de impor-me a aparência que melhor me apraz. E por falar nesse assunto, gosto muito dos dizeres de Clarice Lispector: a boa aparência faz com que a pessoa se sinta mais feliz e com um sentimento de segurança que muito a ajudará na vida. A boa opinião que fazem de nós é na realidade muito mais importante do que admitimos a nós mesmos.

Quando nos vestimos temos a oportunidade de demonstrar a elegância que mora em nós. O ato de vestir é um momento em que podemos exteriorizar todo o requinte que nos habita. A roupa muito curta, decotada ou justa não fica bonita em todos os corpos e muito menos é aconselhável para todas as ocasiões. E embora queiramos derrubar muitas fronteiras que nos separam, convenhamos que esse tipo de modelito não combina para todas as idades.

Clarice diz ainda que elegante é aquela que escolhe a discrição e valoriza os detalhes. Para a escritora, a mulher elegante é discreta e usa também de discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz e até mesmo nas opiniões. Nada é tão deselegante quanto o comportamento de pessoas que buscam impor seus pensamentos como única verdade possível. Pessoas grosseiras, agressivas e intolerantes jamais serão vistas como símbolo de elegância.

Constanza Pascolato em seu livro A elegância do agora discorre sobre comportamentos que devem ser evitados, principalmente quando nos relacionamos com o outro. Não invadir o espaço alheio, não fazer perguntas íntimas ou indiscretas, cumprimentar as pessoas (não precisa abraçar e beijar, desde que você não as ignore ou finja que não as viu), evitar gestos demasiados e falar sem parar, bem como gritar, uma vez que as pessoas não são surdas.

Além disso, sugere que há hábitos a serem ensinados desde criança: não falar alto, não interromper quem fala, não se atrasar, não reclamar e não fazer perguntas indiscretas. É um dever dos pais ensinarem bons modos a seus filhos, mas para isso eles devem dar o exemplo.

O contrário de elegância é o exagero. Nós podemos demonstrá-la em todos os atos externos que executamos, na maneira como nos vestimos, como organizamos a nossa casa, como nos relacionamos com outras pessoas, como discutimos e discordamos.

Em uma de suas definições sobre vida elegante, Honoré de Balzac diz que é a arte de despender as suas rendas como homem de espírito. Isso demonstra que elegância é intrínseca, mas que se externa das mais diversas formas. Ainda afirma que não basta ter se tornado ou nascido rico para levar uma vida elegante: é preciso ter o sentimento disso.

Sólon escreveu: Não pose de príncipe se você não aprendeu a sê-lo.

A elegância se faz notar em atos externos, mas vem de dentro, e há quem diga que alguém pode até se tornar rico, mas que já se nasce ou não elegante.

Elegância diz respeito à harmonia com a qual dispomos de todo o conjunto que nos rodeia. Ser elegante é um diferencial numa época em que as pessoas não se escutam, não se olham, não se percebem e falam pelos cotovelos. Para ser elegante, precisamos antes de mais nada nos subtrairmos de nossos excessos.

Assim, uma vez que é elegante aquele que usa de poucas palavras, termino esse texto breve no qual me despojo de toda prolixidade.

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