Opinião formada sobre tudo.

Todo mundo tem opinião formada a respeito de tudo, no entanto digo-lhes que, por não ser todo mundo, nem sempre a tenho para dar. Dou tudo mais quanto quiser. Quanto a opinar e dizer só porque muitos dizem, recuso-me.

Aprendi desde cedo que não devo fazer algo só porque outros o fazem. Quando criança, ao me dirigir até minha mãe a fim de pedir autorização para realizar os passeios de colégio, fora do alcance da cidade, sob o argumento de que todos os demais colegas iriam, ela me dizia: você não é todo mundo. Assim, eu punha o rabo entre as pernas e saía de fininho depois de aprender a primeira lição sobre singularidade a qual jamais esqueci.

Há um tempo, a moda girava em torno de vestuários, calçados, peças e acessórios. Agora, ela perpassa todos os setores possíveis a ponto de atingir até a conversação. Hoje, por exemplo, a moda é falar sobre racismo, violência contra as mulheres, romantização da maternidade, feminismo e outros assuntos sobre os quais não sinto necessidade alguma de manifestar ao tempo em que todos se manifestam. Basta a mídia noticiar e dar ênfase incansavelmente a um acontecimento para que ele seja o assunto da vez.

É evidente que as mais variadas formas de preconceito e de violência me incomodam. Não recebo com alegria a informação de que uma mulher foi espancada ou morta pelo namorado, o qual, por não aceitar a separação, decidiu se vingar tirando-lhe o que de mais importante alguém pode ter que é a própria vida. É com repugnância que ouço notícias em que se revela que alguém foi torturado e morto por se relacionar intimamente com pessoas do mesmo sexo. É com horror e um certo desprezo pela ignorância alheia que leio os noticiários os quais nos informam que ainda hoje há aqueles que são cruelmente atacados por nascerem com a pele negra. Tudo isso faz parte de uma triste realidade que, a despeito de ser desprezível, nos dá prova da truculência humana.

O problema da mulher, da criança, do negro, do índio, dos idosos, dos jovens, dos pobres, dos ricos e dos homens também me dilacera, mas não quero me manifestar sobre eles no afã de um acontecimento que os destacam quando, na verdade, sabemos que todos vivem suas dificuldades diariamente e essas coisas devem ser combatidas sempre e independente de serem ou não noticiadas. Nesse exato momento, provavelmente várias crianças estão sendo vítimas de algum tipo de abuso e ninguém diz nada, pois não está na moda falar sobre isso. E quais são as causas do silêncio? Promover estardalhaço em torno de um fato para atender a modismos, sem, no entanto, debruçar sobre os reais motivos que o fazem acontecer e se repetir não vale nem resolve nada.

O racismo, por exemplo, parece estar enraizado em nossa lembrança e substância. Certa vez, numa cena que presenciei, uma criança manifestou-se contrariamente a brincar com outra. Ao ser questionada sobre o motivo, respondeu que não gostaria de brincar com o coleguinha por esse ser negro. Os pais, assustados, disseram-lhe que isso não fazia a menor diferença e, tendo em vista que o menino gostava de mim, disse-lhe: olha, ele é da cor da sua tia. Sabe o que o menino respondeu? A tia não é preta, a tia é marrom. Isso mesmo. Eu tenho quase certeza que os pais dessa criança nunca o incitaram ao racismo. Talvez ele, por perceber, nos ambientes em que frequenta, que a quantidade de pessoas negras é muito menor que a de pessoas brancas, diferenciava por si mesmo aqueles de quem gostaria ou não de se aproximar.

Num país em que a escravidão durou até pouco tempo, creio que o combate ao racismo deve ser promovido diariamente, por meio de campanhas, sensibilização, educação e, principalmente, ações. O canal midiático que faz sensacionalismo em torno de uma notícia em que se denuncia o racismo é o mesmo que em suas novelas contratam os negros para figurarem apenas como empregados. Eu costumo dizer que colocam um negro ou outro em posição de destaque somente para enganar e se fazerem passar por defensores das mais diversas raças.

O combate ao racismo deve estar presente nas propagandas, nos currículos escolares, nos discursos promovidos por autoridades e instituições sociais, governamentais e religiosas. No entanto, acredito que num país iletrado e periférico como é o nosso, enquanto não for promovida uma educação de qualidade, baseada não em um programa de matérias que não servem para nada, mas naquelas que visam promover o respeito ao outro e às diferenças, não conseguiremos avançar muito em termos de dignidade humana e civilidade.

Darcy Ribeiro sugeriu que a crise da educação em nosso país não é bem uma crise, mas um projeto. É cômodo para as classes dominantes que não haja o despertar da consciência daqueles que nele habitam, principalmente quando o objetivo não está centrado na promoção da melhoria de vida da coletividade. Um país onde há um bom projeto de educação possui cidadãos mais exigentes, eleitores com menores chances de se deixarem vender ou enganar. E por que não representantes mais aptos e com menor propensão a enganos, corrupções e fraudes?

As questões ligadas à violência contra a mulher tem raízes muito mais profundas do que podemos imaginar. Não é pelo fato de sua parceira ser mulher que um homem a agride. O problema não está no sexo da vítima, mas numa relação doentia que se estabelece ao longo do tempo, a qual muitas vezes a mulher se submete e é conivente por inúmeras razões que não se esgotam tão prontamente quanto muitos o queiram ao tentar enumerá-las. E antes de insinuarem que estou sugerindo ser a mulher culpada pela agressão, digo-lhes desde já que não se trata de afirmar que elas têm qualquer espécie de culpa, no entanto não posso deixar de registrar que muitas delas consentem. Há homens que dão mostras de agressividade logo no início do relacionamento, e não raras vezes esse abuso vem disfarçado sob a forma de ciúmes, os quais muitas mulheres se comprazem em anunciar como para mostrar que são amadas e desejadas. Se um homem lhe dá sucessivas provas de ciúmes não encare esse sentimento como evidência de amor, mas de futuros dissabores. Sei bem o que lhes digo.

Quanto a esse tipo de violência, educar não é o bastante, mas necessário. Há que se evitar, combater e criminalizar. Muitas vezes, está relacionado a questões psicológicas que, em não sendo resolvidas ao longo do tempo, acabam levando a novas agressões. No campo das paixões, as coisas não são sanadas automaticamente ao se criar mais um tipo penal, até porque, ainda que o agressor fique mais tempo preso, isso não trará de volta aquela que teve a sua vida ceifada. A mulher precisa adotar uma espécie de postura perante o parceiro que seja capaz de o inibir a praticar qualquer tipo de abuso e não se deixar levar por carências que as façam aceitar demonstrações doentias como se fossem as mais belas confissões de amor.

Outra coisa que também me incomoda profundamente é a discriminação que sofre os homossexuais. Apenas criminalizar as agressões também não se mostra eficaz. É preciso promover campanhas de sensibilização e educação, mas sobretudo fazer com que eles próprios não sejam os primeiros a se diferenciarem. Por que digo isso?

Em momento algum, presenciei uma pessoa heterossexual se apresentar e desejar se impor e se fazer respeitar pela sua sexualidade. No entanto, certa vez, conheci um rapaz em uma livraria e começamos a conversar sobre assuntos literários. Fiquei extremamente interessada nas coisas que ele tinha a me dizer. Eu estava diante de uma pessoa com a qual havia me identificado por possuirmos interesses comuns e eu seria capaz de passar uma tarde inteira conversando com ele sem querer saber nem mesmo o seu nome. Mas antes que pudéssemos passar mais tempo naquele papo, ele me anunciou que era homossexual. A minha reação súbita foi perguntar-lhe o porquê daquela informação uma vez que ela não acrescentaria nem mudaria em nada o rumo da nossa conversa. Eu disse: você é um ser que pensa e raciocina e isso é suficiente para mantermos esse contato.

Gosto muito da forma como Ney Matogrosso se manifesta sobre a homossexualidade. Primeiro, ele nunca se apresentou nos palcos ou em qualquer lugar buscando evidenciá-la. Também, recusa-se a levantar bandeiras nesse sentido, pois segundo declarações suas, ele é a própria bandeira, o próprio estandarte.

Segundo Ney, seria muito interessante para as autoridades do país, em especial as pertencentes ao regime ditatorial, vigente quando surgiu o grupo Secos e Molhados, que o rotulassem de gay, reduzindo-o à sua sexualidade. Ney afirma que defende a causa dos homossexuais com o seu próprio comportamento de homem transgressor, o qual não se submete a normas ou padrões. Nunca precisou gritar sobre sua sexualidade, mas sempre a viveu e a exercitou como bem quis. Continua escapando do rótulo de gay e afirma que seus interesses permeiam por outras esferas que envolvem o ser humano. Mantém-se distante de estigmas que possam reduzi-lo e assim segue participando de conversas em que discute e evidencia o que pensa a respeito dos mais variados assuntos. Ney me faz lembrar uma frase de Clarice Lispector que nem ao menos gostava de ser chamada de escritora. Ela disse – Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.

Eu poderia discorrer sobre muitas outras coisas que me desagradam, mas não teria uma solução imediata para todas elas. Não tenho opiniões a respeito de tudo e meu desejo seria que as pessoas pudessem conversar sobre todos os assuntos sem ataques, paixões ou resposta única possível como se a complexidade humana fosse resolvida com uma fórmula matemática.

É claro que não podemos nos calar e cruzar os braços diante do preconceito, da violência e da barbárie, mas não creio que poderemos avançar ao atacar e insultar quem pensa diferente de nós. Eu não sei como resolver o problema da violência contra as mulheres, os homossexuais e os negros, mas podemos conversar e tentar atacar as causas que são inúmeras, complexas e até irreveláveis. Ou atuamos sobre elas, ou quaisquer discursos e opiniões serão apenas palavras, palavras e palavras. Quem garante que respostas não nos venham por meio de menos opiniões, batuques, estardalhaços e um pouco mais de silêncio?

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