Clarice Lispector. Só em pronunciar o seu nome, a emoção invade e me faz emudecer. Sem saber ao certo por onde iniciar, paro e penso a fim de me recompor e ordenar os pensamentos e acontecimentos que a ela se relacionam. Apesar de tentar descrever os mais significativos e importantes, esbarro-me na impossibilidade de abordar todos eles, pois há tanto para dizer a seu respeito sem que jamais a conclua.

Diante de uma vida somada a tantas obras interessantes e inesquecíveis para quem permite envolver-se por elas, Clarice é a personificação de uma ser que se imortaliza no imaginário e na alma de quem com ela entra em contato.

Ao se deixar tocar pelas emoções e pelos sentimentos dessa autora, ao seguir os labirintos de seus pensamentos, algo de inesperado acontece: ela fatalmente nos invade as entranhas, atrai e nos conduz aos inusitados caminhos para onde levam os seus passos.

Em seu conto O crime do professor de matemática, a personagem principal, uma menina que se percebe apaixonada por seu professor, e que consegue, num jogo de sedução infantil, trazê-lo para o seu mundo íntimo, reconhece o próprio poder de atração, ao confessar: eu já sabia que eu era inevitável.

Essa frase parece descrever a própria autora que, secretamente, devia saber que ela mesma era tão fascinante a ponto de ser impossível evitá-la. Sedutora e irresistível, Clarice inibe a fuga de quem degustou de suas fontes. E mesmo que ela concedesse passagem, o seu leitor jamais a abandonaria, pois quem saboreia de suas águas prova de si próprio e apaixona por si mesmo sob o olhar fuzilante de Clarice.

A escritora, em passagens de sua obra, identifica-se como sendo o outro e, sendo o outro, ao comunicar-se com ele poderia tocar o mais secreto de si mesma. Ao descrever os labirintos do “eu” próprio e de seus personagens, conseguia tocar o “eu” de todo o mundo.

Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.

Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, numa aldeia ucraniana chamada Tchetchelnik. Seus pais, juntamente com suas duas irmãs, fugiam da Ucrânia em virtude dos ataques contra o povo judeu. Durante a fuga tiveram que parar no caminho para que a mãe desse à luz a menina que seria a futura escritora a iluminar tantas vidas. Clarice pertencia a uma família de origem judaica, que abandonou seu país e aportou no nordeste do Brasil, mais precisamente em Maceió, no estado de Alagoas.

Depois de um tempo, partiram para Recife, onde Clarice viveu sua infância, retratada lindamente em alguns de seus contos, apesar das dificuldades que enfrentavam em meio a doença que paralisara e matara a sua mãe.

Desde criança, ela inventava histórias e fabulava. Pelo que se sabe, costumava criar enredos cujo final surpreendia por revelar milagres de salvação. O que ela mais queria era curar a sua mãe da doença que a atingira. Sobre isso, escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei.

A doença da mãe é algo que marca bastante a vida e a literatura de Clarice, inclusive, ela evidencia tristemente esse fato no conto Restos de carnaval, onde narra um episódio em que a sua alegria carnavalesca é abruptamente interrompida devido ao agravamento do estado de saúde de sua mãe, obrigando-a a abandonar os festejos para comprar um remédio que pudesse aliviar as dores daquela que a gerou movida pela esperança de curar-se. Em seu relato, ela disse:

Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim.

Clarice perdeu a mãe quando criança e, um pouco mais tarde, já morando no Rio de Janeiro, teve que lidar também com a falta de seu pai, que falecera devido a complicações decorrentes de uma cirurgia de apendicite.

A perda de seus genitores ocupava-lhe os pensamentos, ainda que inconscientemente. Numa entrevista, ao ser indagada sobre se tinha paz, ela respondeu:

Nem pai nem mãe.

A entrevistadora retrucou: Eu disse “paz”.

E Clarice esclareceu magnífica: Que estranho, pensei que tivesse dito “pais”. Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?

Com a partida dos pais, restara-lhe apenas as duas irmãs, Elisa e Tânia, com quem Clarice manteve profunda ligação, e cuja relação fraternal ficou registrada nas cartas ternas e amorosas que ela enviava ao Brasil, para as irmãs, durante o período em que viveu no exterior, em virtude de acompanhar Maury Gurgel Valente, seu esposo, no ofício de servir em missões diplomáticas mundo afora.

Durante o tempo em que esteve distante da família, um pensamento lhe ocupava insistentemente – o dia do retorno definitivo ao Brasil. Muito mais importante que conhecer lugares, era estar perto das pessoas que amava, como ela mesma escreveu:

O mundo todo é ligeiramente chato, parece. O que importa na vida é estar junto de quem se gosta. Isso é a maior verdade do mundo. E se existe um lugar especialmente simpático é o Brasil.

Clarice se formou em Direito, movida por um ideal de reformar as penitenciárias do país. Mais tarde, comentou que jamais exerceria a função advocatícia por não se imaginar imersa na burocracia inerente a essa atividade. Foi na faculdade que conheceu o seu futuro esposo com quem conviveria por dezesseis anos e de quem teria dois filhos, Pedro e Paulo.

Antes de despedir-se do Brasil, trabalhou em alguns jornais, publicou contos, crônicas e o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, escrito aos vinte e dois anos de idade.

Clarice se descrevia como tímida e ousada ao mesmo tempo. Era com sua timidez de ousada que se dirigia aos jornais com seus textos em mãos a fim publicá-los. De quem é esse texto? Perguntavam-lhe. Ela respondia: É meu mesmo. Assim, com acanhamento e despudor, conseguia que os divulgassem.

O seu primeiro romance chamou bastante a atenção dos críticos. Não existia nada na literatura brasileira que chegasse próximo ao estilo de Clarice. Para quem estava acostumado com histórias diretas e contínuas, Perto do Coração Selvagem não se prendia à linearidade, muito menos se parecia com os romances publicados à época, que costumavam tratar de questões regionais e sociais.

Nesse livro, ela narra a história de uma menina, Joana, órfã de pai e mãe, que acaba sendo criada por uma tia. No entanto, Joana é mandada para um orfanato, pois seus modos e o seu jeito de ser amedrontam e desconcertam essa tia. Joana confessava coisas que deixava a irmã de seu pai perplexa, como o roubo de um livro. Ela não via nenhum mal nisso, não se arrependia e parecia estar acima de qualquer moralidade culposa. A existência da menina na casa da parente parecia uma ofensa ou acusação, e olhar de Joana, uma ininterrupta vigilância que precisava ser afastada.

Mais tarde, Joana se casa com um homem apático, morno. Otávio mantém uma amante e Joana finge desconhecer, pois não depende sentimentalmente dele, e até prefere que outra lhe dê um descendente, pois entende que após dar um filho a um homem não há mais nada que ele possa pedir à mulher.

Joana abandona Otávio, pois não suporta aquela vida de águas rasas. Seja quente ou seja frio. Não seja morno, senão te vomito. Essa passagem do Apocalipse talvez revele um dos motivos porque Joana não suportava mais ficar ao lado do esposo. Que ele terminasse os seus dias com Lídia e fossem felizes com o encontro de suas tibiezas.

No auge de seu reconhecimento literário ocasionado pela publicação desse livro, Clarice muda-se para o exterior com Maury. Durante os dezesseis anos em que permanece casada, mora seis meses em Belém (Brasil) e o restante dos anos em Berna (Suíça), Nápoles (Roma), Torquay (Inglaterra), por último, em Washington (Estados Unidos).

De todos esses lugares, Clarice declarou que viver em Berna lhe parecia a prova mais difícil. A escritora, que em outra oportunidade dissera detestar o domingo por ser oco, afirmou que em Berna era sempre domingo, tamanho vazio e solidão enfrentava nessa cidade. Berna é de um silêncio terrível, as pessoas também são silenciosas e riem pouco – disse ela.

Somando-se ao fato de estar fora do Brasil, distante das irmãs e de amigos, ela também sofria por não se adaptar aos ambientes formais do mundo diplomático, que era obrigada a frequentar em virtude da profissão de seu esposo. Nesses lugares, não podia conversar a respeito de seus interesses artísticos, literários e culturais. Era um universo por demais superficial para suportar assuntos relacionados à arte, que exigem reflexão e profundidade.

Clarice era uma mulher linda e encantadora, no entanto inalcançável. Colegas de jornais, conhecidos e escritores chegaram a declarar a respeito do deslumbramento que ela despertava nos homens. Ferreira Gullar contou que, ao conhecê-la, ficou espantado com essa mulher que mais parecia uma loba. O presidente do Brasil, Jânio Quadros, tentou agarrá-la à força, outro ameaçou se matar caso ela não o correspondesse e Maury só desistiu de reatar o casamento depois de tentar convencê-la por sete anos. Ela era consciente do fascínio que exercia sobre os homens, pois disse: Há homens que nem em dez anos me esqueceram.

Durante os anos no exterior, Clarice não parou de escrever seus livros. No entanto, esbarrava em dificuldades para encontrar quem os publicassem e, algumas vezes, foi auxiliada por amigos, mas nem sempre eles conseguiam um editor no Brasil.

Na Suíça, ficou grávida do seu primeiro filho, mais tarde, diagnosticado com esquizofrenia, algo que rendeu a Clarice muita tristeza e sofrimento, pois não tinha muito tato para lidar com a doença dele. Foi a então esposa do seu ex-marido quem melhor exerceu a tarefa de cuidar de um menino acometido por constantes perturbações mentais. O segundo filho, Paulo, nasceu quando ela morava em Washington.

Clarice quis ser mãe. Seus filhos foram desejados e ela se definia como uma pessoa muito maternal. Além da maternidade, a escrita era uma das coisas mais importantes em sua vida. Ela declarou:

Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

Ao desejar ser mãe, ela não ignorava as agruras porque tinha que passar. Sabia que o tamanho do amor de uma mãe é proporcional à dor, e tanto sabia que disse: Filhos dão muita alegria. Mas também tenho dores de parto todos os dias. Perceber o filho Pedro mergulhado em alucinações causava-lhe dores tão intensas que ela mal suportava vê-lo tão perto. Afinal de contas, já lhe pesava muito os próprios dissabores que ela obrigava-se a carregar até a última gota.

O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto o que as outras pessoas são e sentem? Eu vivo na delas mas não tenho mais força.

Ela precisava seguir, nem que para isso seu amado filho tivesse que ficar sob os cuidados de outra pessoa. Clarice precisava suportar a vida por mais penosa que fosse. Quando a comparavam com Virgínia Woolf, ela se esquivava, porque Virgínia desistiu antes do fim.

Sobre ser mãe também escreveu:

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Ela tinha consciência de que todos carregamos as nossas dores, nos decepcionamos, somos julgados, traídos e crucificados, à semelhança de Cristo. E o próprio filho representava a prova dura de que ela não estava enganada.

No que diz respeito a sua literatura, Clarice foi e ainda é considerada uma escritora hermética, enigmática, caótica, cujos livros são enquadrados como de difícil compreensão. Há aqueles que a acusam de bruxaria e ocultismo. No entanto, numa entrevista dada à TV Cultura, a própria escritora disse não entender porque alguns doutos não a compreendiam, enquanto jovens de dezesseis anos tinha sua obra como livro de cabeceira. Desse modo, afirmou que entendê-la não era uma questão de inteligência, mas de senti-la, de entrar em contato, ou seja, ou toca, ou não toca.

O que Clarice escreveu não entra em nós pela cabeça. Entra pela pele, pelo coração, pelas entranhas, às vezes, pelo estômago. Não é preciso ser um grande estudioso para compreender suas entrelinhas e nuances, nem é necessário ser intelectual, mas tão somente uma pessoa de sensibilidade inteligente. Para ler e entender Clarice é preciso ser Clarice. Ela instiga o leitor a penetrar no mistério de sua escrita ao dizer o leitor é o escritor. Nada pode ser tão aliciador quanto o convite para mergulhar em si mesmo, por meio de um outro que se desnuda.

Ela escreveu muito e sua escrita transitou por vários gêneros literários: contos, crônicas, correspondências, romances, livros infantis, artigos para jornais, fragmentos de textos e outros escritos.

Um de seus romances, A paixão segundo G.H. é um de seus livros que mais me impactou, e trata-se de uma mergulho no íntimo da protagonista, enquanto ela permanece algumas horas no quarto da empregada que acabara de deixar o apartamento. O clímax da narrativa se dá quando G.H. põe na boca uma barata esmagada, ato simbólico que representa o encontro do humano com o divino. Quando essa mulher entra em contato com a coisa nua e crua, sem asco, ojeriza ou nojo, sem os preconceitos humanos, sem a pata humana, é que ela consegue encontrar-se com Deus. A personagem compreende que é justamente aquilo que entendemos como sendo humano o responsável por nos impedir alcançar a divinização. Clarice buscou em sua obra a neutralidade divinizadora que nos conduziria ao âmago das coisas.

Antes de narrar a história desse livro, Clarice emite uma nota onde pede que A paixão segundo G.H. seja lido apenas por pessoas de alma já formada. Clarice é para poucos, afinal de contas, a formação de uma alma se dá gota a gota e continuamente. Sabe-se lá até que ponto alguém está preparado para desconstruir uma persona sobre a qual se sustenta por tanto tempo.

Em Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres, Clarice narra o encontro amoroso entre Lóri e Ulisses. Lóri o quer, Ulisses só pretende tocá-la após a moça entender que não se resume apenas num corpo. Diferente do que estamos acostumados a ver, ou seja, um homem que deseja somente a mulher com o seu sexo, Ulisses a deseja desde que ela seja corpo e alma; é Lóri quem quer se entregar tão logo a esse homem, mas isso só acontece quando ela entende e passa a sentir que é um ser inteiro e não apenas um invólucro.

E o que dizer de A hora da estrela? Último livro escrito por Clarice, cuja personagem principal, Macabéa, é uma nordestina – orfã – que vai morar no Rio de Janeiro, na casa de uma tia que a explora e humilha. A escritora denuncia a miséria, a marginalização social, a coisificação das pessoas, a exploração, a prostituição e, também, o machismo, pois cria um narrador homem para dar seriedade à narrativa, uma vez que escritora mulher pode lacrimejar piegas. Macabéa vive totalmente alheia e à margem em relação ao mundo que a cerca, e morre sonhando com as promessas de felicidade anunciadas por uma cartomante, que tem como um de seus meios de vida injetar esperança naqueles que não veem saída .

Clarice é inesgotável e inescrutável. Cada leitura e releitura de seus textos nos traz surpresas jamais imaginadas. Uma velhinha que continua com o desejo latente de sentir prazer sexual aos oitenta anos, uma mulher que repensa toda a sua vida ao se deparar com um cego mastigando chiclete, um despertar após uma folha cair suavemente num cílio, a decepção de uma mãe ao perceber a crueldade da própria filha, uma velhinha que se indigna raivosamente ao tomar consciência de que tivera filhos medíocres, os banhos de mar em Olinda, o roubo de rosas, o abandono de um cão, a transformação forçada com que o dono de um quati impõe-lhe uma coleira para lhe dar ares de cão, e tantas outras histórias instigantes e inesquecíveis que ao mesmo tempo revelam e aprofundam o mistério clariceano.

Sua literatura é vasta e aborda inúmeros temas e assuntos. Quem entra em contato com Clarice, quem a sente e se identifica com ela jamais deixará de procurá-la. Clarice é simplesmente apaixonante e hipnotizante. Que o diga o cantor e compositor Cazuza que leu Água Viva cento e onze vezes, segundo informações de Benjamim Moser, um dos biógrafos da escritora.

Após o término de seu casamento, ela retornou ao Brasil e estabeleceu moradia no Rio de Janeiro, onde morreu um dia antes de completar 57 anos, em 09 de dezembro de 1977, acometida por um câncer no ovário.

Em 2020, comemora-se o centenário de seu nascimento e, em homenagem a essa data, a Editora Rocco reeditou os seus livros, cujas capas são compostas por imagens dos quadros esboçados por Clarice, que, inclusive, ousou aventurar-se pelo mundo da pintura. A vida e a obra de Clarice Lispector também serão temas do enredo da escola de samba Tradição. Vamos brindar o público com seu amor intenso, seu lado visceral, atormentado, enfim… suas mil faces – declarou o carnavalesco Vicente.

Movem-me o prazer, o encanto e a alegria de esboçar essas linhas sobre a instigante escritora Clarice, com a finalidade de apresentá-la a quem queira conhecê-la mais profundamente.

Há quem diga ser sua escrita toda autobiográfica, e nada melhor que a leitura de sua obra para penetrar em seus mistérios e ser inteiramente enfeitiçado por ela. Os leitores de Clarice parecem membros de uma sociedade secreta que tem por fim desvendar os seus segredos e mistérios. Sobre eles, Affonso Romano de Sant’Anna escreveu:

Otto Lara tinha razão. Com Clarice ocorre o fenômeno de possessão. Quem se aproxima de sua obra é devorado por ela. Quando dirigi a Biblioteca Nacional e minha ex-aluna Ester Schwarz pediu para reunir lá a Sociedade das Amigas de Clarice, concordei. Ali, umas 30 clariceanas. Quando minha chefe de gabinete passou por elas, sentiu que havia em suspensão algo estranho. Veio à minha mesa, e disse: “O que é aquilo? O clube do lexotan?”
Ela tinha captado o clima. Leitores de Clarice vivem em outra dimensão. E sou capaz de reconhecer uma leitora de Clarice a cinquenta metros de distância, porque, como Clarice, ela não anda, vive em denso estado de levitação.

Foi Otto Lara Resende quem disse para ter cuidado com Clarice, pois não se trata de literatura, mas de bruxaria. E ela própria alertou: Se alguém me ler será por conta própria e alto-risco.

Sim, ler sua obra é estar disposto a correr um alto risco, não nego. Ninguém sai incólume de seus labirintos e é possível que se perca neles. No entanto, ela escreveu que perder-se também é caminho. E eu afirmo que esse caminho é tão maravilhoso e instigante, tão envolvente e apaixonante, que talvez nunca mais se queira abandonar as pegadas que Clarice pisou com o seu espantoso amadorismo de escritora nascida.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

4 comentários sobre “Convido-vos a claricear.

  1. Oi, primeira vez por aqui! Adorei seu texto sobre Clarisse. “Ninguém sai incólume de seus labirintos e é possível que se perca neles.No entanto, ela escreveu perder-se também é caminho.” Realmente. Ainda estou explorando os textos dela, na verdade. Me recuperando de Virginia Woolf. =)

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