Convido-vos a claricear.

Clarice Lispector. Só em pronunciar o seu nome, a emoção invade e me faz emudecer. Sem saber por onde iniciar, paro e penso um pouco a fim de me recompor, pois há tanto para dizer sobre ela sem que jamais a conclua. Eis que decido começar pelo dia de sua existência.

Clarice nasceu em 10 de dezembro de 1920, numa aldeia ucraniana chamada Tchetchelnik, num momento em que seus pais juntamente com suas duas irmãs fugiam da Ucrânia, em virtude da ocorrência de ataques contra o povo judeu. Clarice pertencia à uma família de origem judaica, a qual abandonou seu país e aportou no nordeste do Brasil, mais precisamente em Maceió, no estado de Alagoas.

Depois de um tempo, partiram para Recife, onde Clarice viveu sua infância, a qual foi retratada lindamente em alguns de seus contos, apesar das dificuldades que enfrentavam em meio a doença que paralisara e matara a sua mãe.

Desde criança, ela inventava histórias e fabulava. Pelo que se sabe, costumava criar enredos nos quais, ao final, aconteciam milagres de salvação. O que ela mais queria era curar a sua mãe da doença que a atingira. Sobre isso, escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei.

Esse acontecimento é algo que marca bastante a literatura de Clarice e, inclusive, está bem evidenciado no conto Restos de carnaval, no qual ela narra um episódio em que a sua alegria carnavalesca é abruptamente interrompida devido ao agravamento do estado de saúde de sua mãe, obrigando-a a abandonar os festejos para comprar um remédio que pudesse aplacar as dores daquela que a gerou movida pela esperança de recuperar-se.

Clarice perdeu a mãe quando criança e, um pouco mais tarde, já morando no Rio de Janeiro, teve que lidar também com a falta de seu pai, o qual falecera devido a complicações decorrentes de uma cirurgia de apendicite.

Assim, restara-lhe apenas as duas irmãs, Elisa e Tânia, com as quais Clarice manteve profunda ligação e cuja relação fraternal está registrada em cartas ternas e amorosas lhes enviadas no tempo em que ela morou no exterior, em virtude de acompanhar Maury Gurgel Valente, seu esposo, no exercício de servir a missões diplomáticas.

Clarice cursou Direito movida por um ideal de reformar as penitenciárias do país. Mais tarde, comentou que jamais exerceria a função advocatícia por não se imaginar imersa na burocracia inerente a essa atividade. Foi na faculdade que conheceu o seu futuro esposo com o qual conviveu por dezesseis anos e de quem teve dois filhos, Pedro e Paulo.

Antes de se mudar do Brasil, trabalhou em alguns jornais, publicou alguns contos, crônicas e o seu primeiro romance intitulado Perto do Coração Selvagem, escrito aos vinte e dois anos.

Clarice se descrevia como tímida e ousada ao mesmo tempo. Era com sua timidez de ousada que se dirigia aos jornais com seus textos em mãos a fim de tentar publicá-los. De quem é esse texto? Perguntavam-lhe. Ela respondia: É meu mesmo. Assim, conseguia que os divulgassem.

O seu primeiro romance chamou bastante a atenção dos críticos. Não existia nada na literatura brasileira que chegasse próximo ao estilo de Clarice. Para quem estava acostumado com histórias sequenciais, Perto do Coração Selvagem não se prendia à linearidade, muito menos se parecia com os romances publicados à época, os quais costumavam tratar de questões regionais e sociais.

No auge de seu reconhecimento literário trazido-lhe pela publicação desse livro, Clarice mudou-se para o exterior com Maury. Durante os dezesseis anos em que permaneceu casada, morou seis meses em Belém (Brasil) e o restante dos anos em Berna (Suíça), Nápoles (Roma), Torquay (Inglaterra), por último, em Washington (Estados Unidos).

De todos esses lugares, Clarice declarou que viver em Berna lhe parecia a prova mais difícil. A escritora, que em outra oportunidade dissera detestar o domingo por ser oco, afirmou que em Berna era sempre domingo, tamanho vazio e solidão enfrentava nessa cidade. Somando-se ao fato de estar fora do Brasil, distante das irmãs e de amigos, ela também sofria por não se adaptar aos ambientes formais do mundo diplomático, os quais era obrigada a frequentar em virtude do ofício de seu esposo. Nesses lugares, não podia conversar a respeito de seus interesses literários e culturais. Era um universo por demais superficial para suportar assuntos relacionados à arte.

Clarice era uma mulher linda e encantadora, no entanto inalcançável. Colegas de jornais, conhecidos e escritores chegaram a declarar a respeito do deslumbramento que ela despertava nos homens. Ferreira Gullar contou que ao conhecê-la ficou espantado com essa mulher que mais parecia uma loba. O presidente do Brasil, Jânio Quadros, tentou agarrá-la à força, outro ameaçou se matar caso ela não o correspondesse e Maury só desistiu de reatar o casamento depois de tentar convencê-la por sete anos. Ela era consciente do fascínio que exercia sobre os homens, pois disse: Há homens que nem em dez anos me esqueceram.

Durante os anos no exterior, Clarice não parou de escrever seus livros. No entanto, tinha dificuldades para encontrar quem os publicassem e, algumas vezes, foi auxiliada por amigos, mas nem sempre eles conseguiam um editor no Brasil.

Na Suíça ficou grávida do seu primeiro filho, o qual, mais tarde, foi diagnosticado com esquizofrenia, algo que rendeu a Clarice muita tristeza e desespero, pois não tinha tato para lidar com a doença dele. Foi a então esposa do seu ex-marido quem melhor exerceu a tarefa de cuidar de Pedro. O segundo filho, Paulo, nasceu quando ela morava em Washington.

Clarice quis ser mãe. Seus filhos foram desejados e ela se definia como uma pessoa muito maternal. Além da maternidade, a escrita era uma das coisas mais importantes em sua vida. Ela declarou:

Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

Ao desejar ser mãe, ela não ignorava as agruras porque tinha que passar. Sabia que o tamanho do amor de uma mãe é proporcional à sua dor, e tanto sabia que disse: Filhos dão muita alegria. Mas também tenho dores de parto todos os dias.

Sobre ser mãe também escreveu:

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Ela tinha consciência de que todos nós carregamos as nossas dores, nos decepcionamos, somos julgados, traídos. E uma mãe, assim como Maria, suporta tudo isso junto ao filho aos pés da cruz.

No que diz respeito a sua literatura, Clarice foi e ainda é considerada uma escritora hermética, enigmática e caótica, cujos livros podem ser enquadrados como de difícil compreensão. Há aqueles que a acusam de bruxaria e ocultismo. No entanto, numa entrevista dada à TV Cultura, a própria escritora disse não entender porque alguns doutos não a compreendiam, enquanto jovens de dezesseis anos tinha sua obra como livro de cabeceira. Então, ela afirmou que entendê-la não era um questão de inteligência, mas de senti-la, de entrar em contato, ou seja, ou toca, ou não toca.

O que Clarice escreveu não entra em nós pela cabeça. Entra pela pele, pelo coração, pelas entranhas, às vezes, pelo estômago. Não é preciso ser um grande estudioso para compreender suas entrelinhas e nuances. Nem ao menos é necessário ser um intelectual, mas uma pessoa de sensibilidade inteligente. Para ler e entender Clarice é preciso ser Clarice. Talvez por isso ela tenha instigado o leitor a penetrar no mistério de sua escrita ao dizer o leitor é o escritor.

Ela escreveu muito e sua escrita transitou por vários gêneros literários: contos, crônicas, correspondências, romances, livros infantis, artigos para jornais, fragmentos de textos e outros escritos. Um de seus romances, A paixão segundo G.H. é um dos livros que mais me impactaram e se trata de uma mergulho no interior da protagonista enquanto ela passa algumas horas dentro do quarto da empregada que acabara de deixar o apartamento. O clímax da narrativa se dá quando G.H. põe na boca uma barata que fora esmagada, o qual simboliza o encontro com o divino. Quando essa mulher entra em contato com a coisa nua e crua, sem asco, ojeriza ou nojo, sem os preconceitos humanos, sem a pata humana, é que ela consegue encontrar-se com Deus. O que entendemos por humano impede a divinização.

Antes de iniciar essa história, Clarice emite uma nota na qual pede que A paixão segundo G.H. seja lido apenas por pessoas de alma já formada. Clarice é para poucos.

Em Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres, ela narra o encontro amoroso entre Lóri e Ulisses. Lóri o quer, Ulisses só pretende aceitá-la após ela entender que não se resume apenas num corpo. Diferente do que estamos acostumados a ver, ou seja, um homem que deseja somente a mulher com o seu sexo, Ulisses a deseja desde que ela seja corpo e alma; é Lóri quem quer se entregar tão logo a ele, mas isso só acontece quando ela entende e passa a sentir que é um ser e não apenas um invólucro.

E o que dizer de A hora da estrela? Último livro escrito por Clarice, cuja personagem principal, Macabéa, é uma nordestina orfã que vai morar no Rio de Janeiro e vive alheia ao mundo. A escritora denuncia a miséria, a marginalização social, a coisificação das pessoas, a exploração, a prostituição. E também o machismo, pois cria um narrador homem para dar seriedade à narrativa, uma vez que escritora mulher pode lacrimejar piegas.

Perto do Coração Selvagem, seu romance de estréia, conta a história de Joana, uma jovem que se casa com um homem apático, nem frio nem quente, mas morno. Otávio mantém uma amante e Joana finge não saber, pois não depende sentimentalmente desse homem e até prefere que a outra lhe dê um filho, pois depois que uma mulher dá um filho a um homem não há mais nada que ele possa lhe pedir.

Clarice é inesgotável e inescrutável. Cada leitura e releitura de seus textos nos traz surpresas jamais imaginadas. Uma velhinha que quer sentir prazer sexual aos oitenta anos, uma mulher que repensa toda a sua vida ao ver um cego mastigando chiclete, um despertar depois que uma folha cai suavemente num cílio, uma decepção de uma personagem quando percebe a crueldade de sua filha, uma senhora indignada ao tomar consciência de que tivera filhos medíocres, os banhos de mar em Olinda, o roubo de rosas, o abandono de um cão, a transformação forçada com que o dono de um quati impõe-lhe uma coleira para lhe dar ares de cachorro e tantas outras histórias instigantes e inesquecíveis que ao mesmo tempo revela e aprofunda o mistério clariceano.

Sua literatura é muito vasta e aborda vários temas e assuntos. Quem entra em contato com Clarice, quem a sente e se identifica com ela jamais deixará de procurá-la. Segundo Benjamim Moser, um dos biógrafos da escritora, o cantor e compositor Cazuza leu o livro Água Viva cento e onze vezes. Clarice é simplesmente apaixonante e hipnotizante.

Após o término de seu casamento, ela retornou ao Brasil e estabeleceu moradia no Rio de Janeiro, onde morreu um dia antes de completar 57 anos, em 09 de dezembro de 1977, acometida por um câncer no ovário.

Nesse ano de 2020 comemora-se o centenário de seu nascimento e em homenagem a essa data, a Editora Rocco está reeditando os seus livros, cujas capas retratam imagens dos quadros feitos por Clarice, que também se aventurou pelo mundo da pintura. A escola de samba Tradição anunciou que no ano 2021 o tema do samba-enredo será a vida de Clarice Lispector.

É com imenso prazer que esboço essas linhas sobre essa instigante escritora, com a finalidade de apresentá-la a quem queira conhecê-la, mesmo que de forma bastante simplista. Há quem diga ser a escrita de Clarice toda autobiográfica, isso significa que nada melhor que a leitura de sua obra para penetrar em seus mistérios e ser inteiramente enfeitiçado por ela.

Otto Lara Resende disse para ter cuidado com Clarice, pois não se trata de literatura, mas de bruxaria. E ela própria enunciou: Se alguém me ler será por conta própria e alto-risco.

Ao ler Clarice, o risco é alto, não nego. Ninguém sai incólume de seus labirintos e é possível que se perca neles. No entanto, ela escreveu perder-se também é caminho. E eu afirmo que esse pode ser um caminho do qual nunca mais se queira desviar ou abandonar.

4 comentários em “Convido-vos a claricear.

  1. Oi, primeira vez por aqui! Adorei seu texto sobre Clarisse. “Ninguém sai incólume de seus labirintos e é possível que se perca neles.No entanto, ela escreveu perder-se também é caminho.” Realmente. Ainda estou explorando os textos dela, na verdade. Me recuperando de Virginia Woolf. =)

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