A miséria adora companhia

À frente do prédio onde moro há uma casa sobre a qual se tem notícias de que fora abandonada pelo possível proprietário. Um vizinho da quadra me informou que, na verdade, ela está sendo objeto de uma lide judicial que já dura alguns anos sem até agora ter-se encontrado uma solução que culmine em sua ocupação legalizada.

A casa está ilegalmente habitada por pessoas presumivelmente desprovidas de teto, de trabalho e de educação. Não sei como se dá o processo de invasão, nem como uma família expulsa a anterior tomando-lhe o lugar como se esse lhe pertencesse de pleno direito. Digo isso porque, antes dessa família, atual ocupante, outros eram os moradores. Esses também não tinham teto, nem trabalho, tampouco educação. Faço um adendo apenas para explicar-lhes que ao apontar o termo educação refiro-me a um mínimo de civilidade.

Pois bem, há exatos dois anos resido nesse lugar e pude observar como as relações entre essas pessoas ocorrem. Muitas vezes fico à janela a observar seus gestos, comportamentos e a escutar suas falas. Observo-os à distância necessária para tomar nota do que se passa, de modo a fazer as minhas considerações que, muito longe de julgamentos, prendem-se tão somente aos fatos verificados.

Para mencionar as pessoas que moraram e as que ainda moram na casa até o momento em que pude constatar, referirei-me a elas como primeira e segunda família, nessa ordem, ainda que mal saiba os laços que os unem, apesar de alguns serem bem visíveis e audíveis.

Uma das mulheres pertencente à primeira família era negra, baixa, cabelos crespos, os quais mantinha sempre em coque, olhar perdido e totalmente revoltada com a vida que levava. Em seus momentos de embriaguez, que aconteciam quase sempre no período noturno, acordávamos com os seus gritos e xingamentos dirigidos aos vizinhos, os quais ela acusava, sem distinção, de serem os responsáveis pela sua dor e miséria. Praguejava contra todos indiscriminadamente e desejava-nos os piores acontecimentos como punição para a nossa aparente culpa pela sua desastrosa vida.

Apesar de ser incomodada e acordada do meu profundo sono, eu procurava entender o desespero daquela senhora. Muitas vezes fui invadida por uma espécie de raiva por ela desferir seus golpes verbais a quem pudesse escutá-lo, sem, no entanto, dizer-nos diretamente o que queria de cada um de nós. Dinheiro, comida, atenção, afeto, olhar de compreensão e não de indiferença? Alguém pode explicar-me o que podemos oferecer a um desconhecido que brada em alto tom a sua miséria? Confesso que não sabia agir diante de seus gritos dolorosos e muitas vezes o que eu sentia era mesmo uma espécie de desprezo alternado de compaixão, esses sentimentos dúbios e contraditórios que habitam-nos e faz-nos incompreensíveis até para nós próprios.

Essa senhora era a única moradora que nos perturbava o sono, o sossego e a consciência. Os outros, apesar de também se entregarem ao álcool, não manifestavam suas revoltas, quer por resignação ou por preferirem guardá-las para si, tendo em vista que dizê-las não alteraria em nada a realidade na qual estavam mergulhados.

Algumas vezes suspeitei que a primeira família houvesse desocupado a casa e, ao perceber o lugar vazio, não nego que respirava um pouco aliviada. É muito fácil defender os pobres e oprimidos quando eles estão a léguas de nós, no entanto pude constatar que encará-los diariamente e tão perto é quase um atentado e uma acusação contra nossa paralisia social. Acordar e dar de cara com essa gente a cada manhã faz brotar de minhas entranhas uma certa repugnância, não por eles, mas pela vida abundante, confortável e de tantos supérfluos que muitos de nós levamos, como se não houvesse miseráveis logo adiante.

Durante o tempo em que escrevo escuto crianças gritando e chorando. São integrantes da segunda família ocupante da casa. Essa é bastante numerosa, barulhenta e caótica. As pessoas não falam entre si, elas gritam e gritam o tempo todo. Talvez outros vizinhos não se incomodem tanto, mas a mim eles perturbam profundamente a ponto de ter pensado, pela primeira vez, em trocar de moradia.

A mãe de três filhos é uma mulher que não só parece ter a minha idade como tem também o meu nome. Assim, vivo agora a pensar que estou sendo demandada, pois quanto a chamam aos gritos penso que é por mim que eles clamam, o que obriga-me a sair de dentro para escutar os outros.

E como me espanta o fato de essa mulher não ter qualquer compostura para lidar com seus filhos. Escuto os mais diversos palavrões com os quais ela se dirige às crias: caralho, filho da puta, filho de uma égua, satanás, vagabundo, rapariga e por aí vai. Ela fala aos berros, os meninos respondem e choram aos berros e eu fico a imaginar o que será dessas crianças quando crescerem.

Meu esposo rechaça meus comentários sobre a falta de educação das crianças dizendo se tratar de crianças-raiz. Ele é mais pacífico que eu, mais paciente, mais tolerante, e isso não hei de negar. Esses dias, pela janela, ao olhá-las brincando e gritando, comentei com ele sobre uma ideia que tive para tentar, a meu ver, ajudá-los. O que não deixa de ser uma ajuda também a mim mesma, pois se elas aprenderem um pouco sobre civilidade poderei ter momentos mais silenciosos para ler e escrever e ter paz.

Pensei que poderia conversar com a mãe delas para que as deixassem comigo pelo menos por uma hora durante o dia para que eu lhes ensine a ler, a escrever e, principalmente, impingir-lhes boas maneiras. Enfim, minha vontade é adestrá-las tal qual fui e continuo a ser adestrada para me comportar de modo que não perturbe os outros. Pensei também em pedir ao síndico do prédio para ceder o salão de festa por pelo menos uma hora durante três dias da semana para que os receba, pois não pretendo trazê-los para o apartamento enquanto não tiver a certeza de que estão prontos.

Acredito que as pessoas podem mudar atitudes e comportamentos por meio de uma educação que fomente o aprimoramento da consciência. Não vislumbro outra forma de ajudá-los, pois qualquer esmola que os der não os preparará para um futuro sem que eles propaguem a penúria herdada de seus pais.

A miséria é como uma epidemia. Se não for contida, ela se alastra por toda parte, cria raízes e se multiplica indefinidamente em muitos filhos igualmente miseráveis. E se digo que a miséria adora companhia é porque não basta a cada uma das pessoas enfrentarem a dura realidade de suas vidas, elas reproduzem em quantidade desproporcional às suas forças físicas, econômicas e emocionais. E como se não bastasse, decidem por criar cachorros, gatos, coelhos e papagaios como se as carências que enfrentam devessem ser compartilhadas não só com os de sua classe, mas também com os bichos, os quais gemem a noite toda, ora de fome, ora de sede.

Jamais conseguirei entender essas pessoas, pois esse exercício de se colocar no lugar do outro é um dos mais infundados, justamente pela impossibilidade de ser o outro com seu passado e suas dores. Se eu fosse essa mulher, cuidaria melhor dos filhos, não gritaria com eles, não teria parido três, não me relacionaria com homens embriagados que batem à porta tarde da noite desferindo-lhes xingamentos e desaforos.

Se eu fosse essa mulher talvez seja a pior frase que já inventei, porque só conseguimos estar dentro de nossa própria pele e toda essa falácia que gira em torno de se colocar no lugar do outro é, como eu disse, pura falácia.

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