Sem pai e sem paz

Acordei num sobressalto. Estava a sonhar com o meu pai que daqui a dois dias faria sessenta e um anos, caso estivesse vivo. Quando falecera, eu contava quinze anos de idade e era uma adolescente cheia de sonhos, os quais, adulta, ainda conservo.

Crescer sem a presença constante da figura paterna sobre a qual uma menina costuma descansar por sentir-se protegida nunca me impediu de amar aquele que eu sabia ser meu pai. É engraçado como nunca o acusei pela distância, pela falta de carinhos, que dirá pela falta de amor. Como o compreendi desde a mais tenra idade. Como entendi os seus motivos, sem nunca termos conversado a respeito de nada.

Todas as vezes em que nos aproximamos, curtíssimos eram esses encontros e tão pouca coisa havia por falar. Eu deixava que ele reclamasse de minha mãe, pois parecia não aceitar que ela já tivesse se arranjado com outro. Quereria ele que ela o esperasse por toda a eternidade? Nem a minha mãe nem eu nascemos para viver longas esperas, famintas que somos por alegria, confessas devoradoras do viver.

Ele também já havia se ajeitado com outra mulher, a qual tivera filhos que nunca senti como irmãos pela falta de contato e nenhuma convivência.

Não sei o motivo que fez meu pai imaginar minha mãe o esperando sempre de portas abertas, no entanto sei de sua frustração diante da realidade a qual lhe certificou que ela se cansara de seu modo boêmio com que passava pela vida.

O pandeiro era o instrumento de que ele se utilizava para espantar a tristeza, o samba sua diversão, a bebida seu refúgio e os corpos das muitas mulheres eram a sua morada. Gostava de viver solto no mundo com apenas uma mochila nas costas, na qual carregava seus poucos pertences cheirando a álcool, a cigarro e aos mais diversos odores, prova de suas libertinagens.

Tudo isso o distanciava de mulher e filhos. As obrigações de uma vida segura não o interessavam e, se amou alguém, esse amor não foi suficiente para privá-lo de seus prazeres.

Viveu como um errante, sem saber de suas origens paternas, algo que sempre lhe causou muita perturbação. Indagava à minha avó sobre quem era o seu pai. Ela desconversava e eu, na qualidade de sua neta, não sei apontar quais motivos tinha para ocultar-lhe essas informações. No entanto, ele nunca aceitou essa orfandade paterna imposta por circunstâncias alheias à sua vontade e, talvez por isso, tenha deixado seus filhos igualmente órfãos, mesmo quando ainda era vivo. Estava mais preocupado em saber quem era o seu próprio pai do que em ser pai.

Seus problemas e suas carências sempre me pareceram elementos suficientes para eu nunca atribuir-lhe culpas, ao passo que minha mãe, por muito menos, era alvo de infundadas acusações as quais só lhe dei absolvição mais tarde.

Sempre achei que meu pai merecia complacência, que eu deveria compreendê-lo e, acima de tudo, honrá-lo. Eu nem mesmo precisei perdoá-lo de suas omissões, pois, no meu íntimo, encontrei justificativas para todas elas. Nem mágoa, nem raiva, nem indiferenças para com ele. Sinto que jamais teria forças para delatá-lo, condená-lo e julgá-lo. Muito pelo contrário, caso estivesse vivo tentaria protegê-lo e faria todo o possível para apaziguá-lo e ajudá-lo em seus instantes vazios.

Não é por machismo que eu seja uma protetora dos homens, é por achá-los mais vulneráveis. É porque eles, diferentes de nós mulheres, são mais propícios ao vício, à fraqueza, à violência e à perdição. Vejam só minha mãe: casou aos dezesseis anos, teve filhos, separou, casou de novo, teve mais um filho e está aí linda, forte e feliz da vida. Agora, onde está o meu pai? Sucumbiu, não teve forças para continuar, afundou-se na incompreensão de si, dos outros e do mundo. Não teve ninguém que lhe dissesse que a vida é difícil para todos e que cabe a cada um de nós decidir o que faremos com essa verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.

Eu poderia tê-lo dito, mas à época, que sabia sobre a vida? Muito pouco para ajudar um homem sem paz e sem pai.

Lembro-me que as referências a respeito de meu pai eram as melhores possíveis. Diziam se tratar de um homem de coração bom e puro cujas ações só prejudicavam a ele mesmo. Um homem alegre que gostava de se divertir e cantar, que sabia falar e se comunicar bem com os outros e conquistava todos com seu jeito descontraído. Minha avó materna o adorava e ficou muito mais desolada com a separação que minha mãe. Era tão apaixonada pelo meu pai que custou-lhe permitir outro em seu lugar. Morreu sem aceitar substituto que lhe correspondesse.

Ah como muitas vezes me perdi a olhar um homem carregando uma filha nos braços enquanto ficava a pensar: não me lembro de viver momentos desses com o meu pai. Não tenho lembranças de receber dele abraços, beijos ou afagos. É minha mãe quem narra um episódio no qual, desde muito cedo, demonstra que fui eu quem sempre quis protegê-lo e cuidá-lo. Conta ela que certa vez meu pai estava no alto de um poste e eu, muito pequenina, disse-lhe alto: cuidado papai!

Parece-me que desde bebê dispensei as proteções por me sentir forte e invencível. Era como se, ao saber disso, eu tivesse que devotar proteção aos outros por percebê-los mais necessitados. E se tenho tanta força assim como não reconhecer que devo isso também a ele cujo sangue corre em minhas veias? Devo a ele também a existência de um dos meus irmãos que me deu sobrinhos, os quais animam a ideia de que não serei sozinha, ainda que vislumbre não deixar descendentes.

Diante do meu pai morto, imóvel, naquele 23 de janeiro de 2004 chuvoso, eu estava igualmente paralisada, mas agradecida por ele ter dado-me a vida que tanto prezo e amo.

Olho o espelho e vejo o reflexo de traços seus e de minha avó paterna. E quantos mais de seus ancestrais moram em mim? Essa minha cor escura, esses meus olhos grandes e vivos, esse orgulho, essa vaidade, essa vontade de não ser mãe de ninguém para ser mãe de quem precisar de mim… Tudo isso terá vindo de quem? Essa ânsia por saber, essa vontade de ser, de entender e de transcender… Esse desejo de eternizá-lo em meus escritos, deixar a minha e a sua marca no papel para que todos saibam que ele existiu e existirá para além dos séculos…

Ah meu pai! Que lindo sonho! Sonhei com você e escrevo essas linhas para que esse instante não escape entre os meus dedos. Sonhei que eu sorria muito sentada em seu colo. E lembro-me até agora do seu sorriso a olhar para mim como se nunca tivéssemos nos afastado um do outro. Nós dois juntos e unidos para além do tempo e do espaço, pois esteja onde estiver, serei sempre grata e alegre por ser sua filha e por você nunca ter deixado de ser o meu pai.

2 comentários em “Sem pai e sem paz

  1. Gostei imensamente desse texto valioso, aonde você relata,com clareza,a trajetória de passagem de seu Pai,do relacionamento seus que foi um tanto,confuso e difícil, mais superado, é muito bom saber, como foi difícil, mais ao mesmo tempo gratificante, esse convívio entre Pai, filha, Mãe, Avós e irmão, uma história muito bem,esclarecida,com alguns obstáculos, mais foram resolvidos em tempo Real! Continue com essa Garra e Determinação isso só te enobrece.

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