A águia e a galinha, de Leonardo Boff

A águia e a galinha foram os animais escolhidos pelo autor para figurar como título desse livro e simbolizar duas dimensões da vida humana: a corpórea e a espiritual. Somos seres concretos, porque temos um corpo material, palpável, delimitado. Por outro lado, temos aspirações, sonhos e desejos que brotam do nosso espírito e extrapolam o território e o espaço desse mesmo corpo.

A nossa dimensão física é representada pela galinha. A galinha expressa a situação humana na sua materialidade, no seu cotidiano, no círculo da vida privada, nos afazeres domésticos, nos hábitos familiares e culturais, na labuta cotidiana pelo pão de cada dia. Já a representação do nosso espírito é figurada pela águia. A águia representa a mesma vida humana em sua espiritualidade, na capacidade de romper com os limites, em seus sonhos, em sua capacidade de criar coisas novas, em sua potencialidade de conectar-se com outras pessoas, com o futuro, com a evolução, com o universo e com Deus. A grande questão que se nos apresenta é a capacidade para lidar com essas duas dimensões humanas e alcançar o equilíbrio na construção de nossos caminhos.

Construir o próprio caminho pressupõe um estado de liberdade que nem sempre é atingido por todos. Posso afirmar que a verdadeira liberdade é conhecida por muito poucos. No entanto, convém indagar: onde começa a liberdade?

Leonardo Boff nos responde essa pergunta ao dizer que para libertar um país é preciso, antes de tudo, libertar a consciência do povo. Portanto, a liberdade do indivíduo pressupõe a libertação da consciência. Até me veio à mente uma frase que passei a usar com frequência após ler Hamlet, de Shakespeare: se minha consciência não me acusa, ninguém mais me acusa. Vocês não têm noção do quanto essa frase é libertadora.

Primeiro, o processo de libertação acontece na mente; depois, na organização. Por fim, na prática. Primeiramente, precisamos nos lembrar que é a consciência que nos torna diferentes de todos os outros animais existentes e ela está intimamente ligada à nossa dimensão águia. Como seres espirituais temos conhecimento de que somos conjuntamente corpo e alma. É o espírito que nos dá a consciência do corpo e também de si próprio.

Esse raciocínio me remete a uma frase de Teilhard de Chardin: Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana. Portanto, criados à imagem e semelhança de Deus, ganhamos um corpo para vivenciar nele a nossa dimensão espiritual, com liberdade e não presos em um cativeiro.

Corpo e alma são indissociáveis, pelo menos nessa existência terrena. É essa inseparabilidade de nossas dimensões que nos dá inteireza enquanto seres. Leonardo Boff considera esse entendimento separatista do corpo e da alma como um desvio da antropologia ocidental, já que essa divisão impossibilita a expressão da complexidade e da realidade humana, culminando numa visão reducionista do homem. Para ele, não temos corpo e alma. Somos corpo e alma. Não somos seres fragmentados e a fragmentação dificulta a compreensão da totalidade.

Para o autor, o nosso maior desafio é fazer conviverem a águia e a galinha. A águia possui asas compridas para sustentar seus voos altíssimos. É um animal que enxerga longe, oito vezes mais que nós humanos; cuida de seu habitat e de seus filhotes, ensina-os, por meio do exemplo, a voarem e procurarem seu próprio alimento. O casal de águia permanece juntos por cerca de vinte anos, fiéis um ao outro e, na fase inicial de enamoramento, chegam a copular até oito vezes por dia. Felizes os convidados a “amar” como esse par. É um animal que inspira dimensões espirituais como amor, liberdade, fidelidade, cuidado, coragem, proteção, disposição.

Também nós sonhamos voar alto, transcender os limites do nosso corpo, vencer nossas instabilidades e nossa natureza corpórea decadente. Boff adverte: Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar. Ele está dizendo para não figurarmos apenas como galinhas e convida-nos a libertar essa águia que existe em cada um de nós. Para isso, é preciso nos construirmos. Não recebemos a existência pronta. Devemos construí-la progressivamente. Lembrando que não somos seres perfeitos, mas perfectíveis.

A solidariedade, a compaixão e a sinergia do outro para conosco é de extrema importância no nosso processo de construção. Entretanto, a exigência maior é para com nós mesmos. Cada um é provocado a ser herói/heroína de si mesmo e de sua própria saga.

Herói/heroína é cada pessoa que assume a vida assim como se apresenta com caos e cosmos, com ordem e desordem, com realizações e frustrações, com um buraco interior do tamanho de Deus.

O caminho da construção tem lá seus riscos: incompreensões, traições, frustrações e fracassos. Mas, também tem amizade, amor, amadurecimento e sabedoria de vida. Muitas coisas consideradas ruins podem nos acontecer, entretanto o que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem, mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas.
E, com certeza, uma reação equilibrada e consciente de nossa parte reduz a possibilidade de mais frustrações e decepções.

Muitas vezes seremos confrontados com o desamparo existencial/emocional e com o sentimento de perda. Sentiremos necessidade de apoio e de alguém em quem confiar. Essas situações exigirão de nós uma ação de enfrentamento que nos levará ao crescimento e conscientização de que não somos onipotentes e que precisamos uns dos outros.
Ao invés de culpar os outros por nosso desamparo ou de nos omitir de batalhar contra ele, assumimos uma atitude positiva de empenho e luta.

Construir um caminho exige esforço e combate. Faz-se necessário superar as quedas, vencer os medos e seguir adiante, sempre adiante, tendo como alvo a libertação da sua própria identidade e a realização de suas potencialidades, deixando-se guiar pela esperança e afastando o desânimo. Construir um caminho também significa cuidar de nosso ser, em suas dimensões corporal, mental e espiritual. Todas, e não uma ou outra, pois somos um ser em totalidade, embora queiram nos fragmentar, criar divisões que mais nos afastam que nos unem.

Nesse sentido, Boff afirma que a cultura dominante dilacerou o ser humano em mil fragmentos. Separam-nos em homens, mulheres, crianças, jovens, idosos, negros, homossexuais e mais inúmeras classificações. E eu pergunto: para que isso se temos as mesmas aspirações de liberdade e dignidade?

Deus nos criou iguais para que tivéssemos comunhão e unidade. A separação é do diabo, do latim diabolus, do grego diábolos, ou seja divisão, aquele que desune. É o diabo que deseja que nos classifiquemos para implantar seu projeto de desunião.

Nós somos de Deus, possuímos interioridade, há presença divina em nós. Precisamos saciar não só nossa fome de pão, mas também de espiritualidade. Não devemos permitir que apaguem em nós a consciência da vocação águia. Precisamos nos orientar à construção de nossa individualidade e singularidade, sem para isso pisotear os demais.

Querem nos enquadrar em nichos, categorizações. Querem nos anular quanto espíritos que também somos. Por isso, a grande maioria da humanidade é homogeneizada nos gostos, nas ideias, no consumo, nos valores, conforme um só tipo de cultura (ocidental), de música (rock), de comida (fast-food), de língua (inglês) de modo de produção (mercado capitalista), de desenvolvimento (material).

Não somos homogêneos e nunca seremos. Vivemos nossas dimensões em locais, contextos, culturas e sob óticas diferentes. Cada um deve seguir o seu próprio caminho, sem comparações. Cada um deve alçar seus voos em direção aos próprios desejos. Só a individualidade nos diz quem somos, a que viemos e para onde vamos.

É preciso não deixar morrer essa águia existente em nosso interior. É preciso expandir os limites impostos pelo corpo para se tornar um ser total. As águias descem ao chão para buscar alimento, porque sem ele não tem forças para voar, ainda que suas asas sejam enormes. E nós, muitas vezes, teremos que pisar no chão, mas não para permanecermos nele, como galinhas, apenas com a finalidade de buscar a energia necessária para alçar novos voos.

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