As virtudes do fracasso, de Charles Pépin

Charles Pépin é filósofo, escritor e professor francês que, tendo observado, na Filosofia, a escassez de reflexões acerca do fracasso, resolveu dedicar toda uma obra com considerações a respeito desse tema.

Ao apresentar o livro, o autor pondera que em nossa sociedade o fracasso não é algo visto com bons olhos, mas como uma fraqueza, uma falha. Enfim, ele não é encarado como prova de ousadia e experiência. Por outro lado, adverte que o sucesso raramente acontece sem percalços ou obstáculos.

Para provar o que afirma, cita vários exemplos de pessoas que só alcançaram a glória depois de terem passado por dificuldades e derrotas. Também, dá exemplo de produtos que ao serem fabricados inicialmente para uma determinada finalidade, acabaram, por uma espécie de erro, não cumprindo ao que se destinava, transformando-se em algo inesperado, mas que atendia a uma outra função, igualmente importante. Foi o que aconteceu com o marca-passo e com o milagroso viagra. É isso mesmo. O viagra foi fruto de um “erro” e, hoje, se muitos acertam é por causa dele, ainda que vocês deem risadas.

Conto-lhes como surgiu esse medicamento: pesquisadores do laboratório Pfizer queriam tratar anginas com substância química, mas erraram o alvo. A substância não produzia o efeito esperado, e sim um efeito secundário imprevisto: fortes ereções. Eles tinham falhado em tratar a hipertensão arterial pulmonar, mas acabavam de descobrir o remédio para a impotência que os homens buscavam havia séculos.

Pois bem, a falha que culminou no viagra hoje faz a alegria de muita gente.

Com algumas pessoas também aconteceram de seus fracassos transformarem as suas vidas em histórias de sucesso.

Antes de escrever Harry Potter, a autora britânica J.K. Rowling estava no fundo do poço: fim de um casamento, sem dinheiro, triste, desesperançosa e perdida. Começou a escrever algumas páginas para distrair-se da realidade difícil em que vivia e viu o sucesso chegar até ela.

Steve Jobs foi demitido da apple e, quando recontratado, desenvolveu aparelhos tecnológicos que fazem dessa empresa uma das mais rentáveis e inovadoras do mundo. Para ele, ter fracassado deu-lhe uma lição de humildade.

Agassi, jogador de tênis, descobriu que, apesar de ser número um nas competições, nunca havia gostado desse esporte. Quando tomou consciência disso, caiu numa depressão profunda, engordou quilos e mais quilos e começou a ingerir substâncias tóxicas. No fundo do poço, soube que a filha de um de seus melhores amigos havia sofrido um acidente, mas apesar do ocorrido, esse amigo estava ao lado da filha lutando pela recuperação dela. Esse episódio fez com que Agassi ressurgisse para a vida.

Nesse momento, ele teve aquilo que Clarice Lispector chama de epifania. Resolveu que fundaria uma instituição para ajudar os que necessitassem de auxílio. Para isso, precisaria de dinheiro. E para ter dinheiro teria que fazer algo. Lembrou que jogava tênis muito bem. Então, decidiu que voltaria a jogar por aqueles que se valeriam de sua ajuda. Voltou a treinar por uma causa maior, recuperou-se da depressão, perdeu peso, abandonou as drogas, disputou, ganhou mais prêmios e fundou a sonhada instituição.

Esses são apenas três exemplos de pessoas que fracassaram antes de vencer. Foi pelo fato de terem fracassado que conseguiram. Sem a resistência da realidade, sem esses reveses, sem todas as ocasiões para refletir ou se recuperar propiciadas por suas perdas, eles não teriam conseguido realizar o que realizaram.

Os fracassos por que passaram essas pessoas as fortaleceram, preparando-as para o combate.

Antes de inventar a lâmpada elétrica, Thomas Edison falhou inúmeras vezes. Ao ser questionado sobre isso, respondia: Eu não fracassei milhares de vezes, eu consegui fazer milhares de tentativas que não funcionaram. De tanto tentar, “fracassar” e tentar de novo, ele conseguiu concluir sua invenção e, se hoje estou escrevendo esse texto sob uma lâmpada acesa, devo gratidão às inúmeras tentativas desse persistente inventor.

Charles Pépin não faz apologia ao fracasso. Não defende que devemos persegui-lo, mas que, chegado, precisamos decidir o que fazer com ele: prostrarmo-nos ou transformarmo-nos.

Há fracassos que acarretam um fortalecimento da vontade, outros que resultam em seu afrouxamento; há fracassos que nos dão força para perseverar no mesmo caminho, e os que nos oferecem o impulso para transformá-lo. Há os fracassos que nos tornam combativos, os que nos tornam mais sábios, e há também os que nos tornam simplesmente disponíveis para outra coisa.

O fracasso pode ser um meio de aprender mais rápido, defende o autor. Apressemo-nos, portanto, a fracassar, porque assim encontraremos a verdade, mais do que se estivéssemos conquistado a vitória. Segundo o autor, há países que condenam o fracasso mais que outros. É o caso da França: Ter fracassado, na França, é ser culpado. Nos Estados Unidos, é ser audacioso. Ter fracassado ainda jovem, na França, é ter falhado em se colocar nos trilhos certos. Nos Estados Unidos, é ter começado jovem a buscar o próprio caminho.

A grande questão é que o fracasso, se não ignorado, tem o poder de nos reorientar, enquanto o sucesso pouco ensina.

Posso dar um exemplo particular de sucesso e fracasso. Com vinte anos, eu já estava terminando uma graduação em Administração de Empresas e, antes mesmo de finalizado esse curso, havia conseguido o terceiro lugar num concurso federal, nível superior. Era a mais nova de todos os empregados da empresa e em toda sua área de atuação (7 estados e o DF). Claro que fiquei muito feliz em ter sido aprovada. No entanto, esse resultado fez que eu imaginasse que nada mais me impediria de alcançar novos sucessos. Eu acreditava ser jovem, capaz, inteligente e, pior, imbatível. Pensava: agora, tenho condições de passar no concurso que eu quiser. Ter alcançado o sucesso muito cedo fez que o sentimento de onipotência se apoderasse de mim.

Dei com os burros n’água, mas o que tenho aprendido no decorrer desse tempo em que tenho tentado é enriquecedor. Só de ter me tornado mais humilde e entender que nem sempre podemos tudo já é um grande avanço. Acredito mesmo que as sucessões de fracassos colocaram meus pés no chão. O bom de detectarmos nossos erros é que podemos corrigi-los.

Os artistas, antes de terminarem suas obras, fazem, erram e refazem. Isso também acontece com os cientistas antes de acharem a fórmula certa de suas invenções.

O erro é a maneira humana, caracteristicamente humana, de aprender – elucida Bachelard.  É por meio dos erros que descobrimos as verdades.

Charles Pépin condena a visão do erro como algo maléfico. Para ele, o equívoco pode ser entendido como uma das etapas para a compreensão e não como algo humilhante. Contudo, ao incorrer num erro, deve-se fazer tudo para evitar sua reincidência. Novos erros são admissíveis; velhos erros devem ser extirpados. Se, com efeito, o homem só pode aprender através do erro, perseverar nele é fechar-se na ignorância, condenar-se a nunca entender nada.

Muitas vezes, depois de um fracasso, a crise se instala em nossa vida. Os gregos designavam a crise de kairós e a entendia como uma oportunidade para compreender o que estava escondido. Por exemplo, a crise provocada por um acidente aéreo resulta em conhecimentos úteis para aprimorar a segurança dos voos. O fim de um relacionamento pode nos fazer enxergar o quanto somos egoístas ou o quanto nos submetíamos a situações mendicantes. A depressão pode nos mostrar que algo deve ser esclarecido e resolvido.

As crises podem ser oportunidades de descobertas e indicam uma ruptura com a realidade. A crise é reveladora e nos informa que algo não vai bem. Uma crise é antes o começo do que um fim. Ela é sempre uma mudança de rumo.

O fracasso inclusive pode nos dar esclarecimentos. Na verdade, pode nos mostrar que aquilo não era bem o que queríamos, reorientando-nos. Ele também é uma importante forma de firmar nosso caráter: um caráter se afirma na adversidade.

Na perspectiva cristã, o fracasso pode ser visto como uma lição de humildade. Essa palavra vem do latim humilitas e deriva de humus, que significa terra.
Humildade significa, para mim, saber-se pó. Curar-se desse fantasma infantil da
onipotência.

É tomar pé, reaprender a se ver como se é, com realismo, o que pode ser um bom triunfo na construção de uma existência bem-sucedida.

Jesus elevou-se aos céus porque foi humilde e humilhado na terra. Quanto mais Jesus cai, sofre, mas se aproxima de Deus.
A humildade liga-se estreitamente a uma aprendizagem. Só tendo consciência de que somos pó e de que não sabemos tudo é que podemos aprender.

Na dimensão do estoicismo, o fracasso pode ser visto como algo que deve ser aceito, caso não seja permitido fazer nada para modificá-lo. Aceitá-lo não é resignar-se, mas não se rebelar quando não for possível agir. Trabalhar naquilo que depende de nós, aceitar o que não depende. Diante disso, podemos lembrar da oração da serenidade: Meu Deus, dai-me força para aceitar o que não posso mudar, a vontade de mudar o que posso e a sabedoria para saber distinguir os dois.

Por mais que tenhamos vontade de mudar certos acontecimentos, esbarramos com a realidade que nos adverte: nem sempre querer é poder. Muitas vezes, a realidade não se deixa moldar. Entretanto, aceitar um fracasso quando não há muito ou nada a se fazer não significa negá-lo. Fingir que ele não existe nos impossibilita de tirar algum proveito dele.

O aluno que recusa seu fracasso, alegando que o professor corrige de qualquer jeito ou jogando a prova no fundo de sua mochila para não pensar mais nela, não se dará ao trabalho de refletir sobre o que não funcionou.
Sabemos que jogar a poeira para debaixo do tapete nunca será a melhor coisa a se fazer, pois a sujeira continuará existindo mesmo não sendo vista e, algum dia, se espalhará pela casa. Lidar com o fracasso como um estoico é ser capaz de se perguntar o que ele nos revela na real.

Na concepção existencialista de Sartre, somos livres para existir, para nos reinventar e nos corrigir ao longo de nossa história de vida. Nessa linha, o fracasso não nos define. Fracassar num projeto não significa ser fracassado. O fracasso pode ser apenas uma oportunidade para mudar de vida, um estímulo para tomar um caminho mais de acordo com os nossos interesses.

Para Freud, quando falhamos é o inconsciente que consegue se exprimir. Na visão psicanalítica, falhamos porque aquilo que pensávamos que queríamos se distancia muito do que realmente somos. É como se o ato falho fosse o responsável por não nos deixarmos trair a nós próprios. O fracasso não pode nos definir. Nós podemos e devemos assumi-lo, mas sem nos identificar com ele. Repito, fracassar não é ser um fracassado. É ter desenvolvido um projeto no qual não obtivemos êxito.

Ousar é arriscar-se ao fracasso. A ousadia pertence aos audaciosos. Àqueles que, apesar do medo, agem. Quem toma decisões está sujeito a erros, frustrações e perdas de oportunidades. Mas, conforme Nietzsche, uma vida vivida de forma autêntica, exige tal senso de risco.

Mas quer saber o que Charles Pépin considera ser o maior risco? não tentar e ver a morte aproximar-se sem saber quem se é. Ainda, para o autor: A vida que nada arrisca definha pouco a pouco.

Apenas aqueles que estão presos a algo que não mais os definem sabem o preço da inação, do fracasso que é não tornar-se quem se é. Só os que batem carimbo durante todo o dia sabem do sentimento de inutilidade que os invadem. Arriscar-se tem lá os seus perigos, mas o comodismo é altamente danoso.

Alguns vão se acomodar à sua situação, encará-la como um ganha-pão e buscar alhures ocasiões para se sentirem vivos. Outros tomarão coragem para mudar de rumo, alguns deles se tornarão empresários para se sentir renascer. Outros enfim se deixarão dominar pela depressão, esgotamento. Eles não sucumbem por excesso de trabalho, mas porque trabalham alienados a si mesmos, de seus talentos, de sua possibilidade de expressão.

Só os que estão limitados pela visão de suas baias, presos o dia todo esperando uma ordem inútil, gastando tempo e energia em serviços inócuos sabem o quanto morrem a cada dia por não correrem o risco de tornarem-se o que são.

Entretanto, para agirmos é necessário que ignoremos muitas coisas. Tendo agido e falhado, pelo menos não correremos o risco de sentir o gosto amargo do pior fracasso que é não ter tentado e ousado.

Eu poderia escrever um outro livro com os ensinamentos de Charles Pépin. Li As virtudes do fracasso pela segunda vez e, ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que ele deve ser sempre relido.Vou ser bem sincera: não gosto de fracassar. E vou ser bem mais sincera: não fracassar é impossível.

Aos trinta anos, sinto que muitos de meus projetos não foram finalizados, outros foram revistos, alguns esquecidos, outros retomados e alguns iniciados. Entretanto, continuo insaciável no meu desejo de continuar. Tem uma frase de Adélia Prado que diz: Não quero faca nem queijo. Quero a fome. Essa fome, eu tenho.

Se você tem a faca e o queijo, mas não tem a fome, de nada adianta. Se você tem a fome, mas não tem a faca nem o queijo, você vai atrás da faca, do queijo ou do que você quiser. É a fome que nos impulsiona. É o desejo. A vontade. O querer. Quando alguém está em depressão não sente mais fome. O depressivo é aquele que nada mais quer apesar de sentir que nada mais tem. A fome insaciável pode nos levar a falhar, mas nesse processo crescemos, aprendemos e descobrimos. Fracassar é nos perguntar em que podemos nos transformar. Não correr o risco do fracasso é assumir outro risco: o de não viver. Portanto, identifique o seu desejo e vá em direção a ele, equilibrando-se entre sua liberdade e seus limites.

O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo. Perder o entusiasmo é ficar à deriva e à margem de si mesmo.

As lições contidas nesse livro de nada valem se não puderem mudar nossas vidas. Saber quais são as virtudes do fracasso é um chamado para não nos entregarmos a ele, mas seguir em frente apesar dele. A questão agora não é os inquirir a respeito do que vocês aprenderam, mas o que vocês, leitores, farão com o que aprenderam. A questão não é “o que”, mas “para que”.

Somente nós próprios sabemos dos nossos fracassos e o que fizemos de nós a partir deles. Esse livro nos apresenta várias perspectivas que podemos adotar ao fracassarmos. Cabe a cada um, em sua singularidade, adotar aquela que mais convém.
Portanto, a função maior desta obra como dos conhecimentos em geral é nos lançar na vida, na ação e na recriação contínua de nossas existências.

Nesse texto, eu tentei dar a vocês a faca e o queijo. Quanto à fome… Bem, isso já é demais.

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