Dirigindo-me em direção ao trabalho, eu pensava em como é bom ter uma mãe como a que eu tenho. Logo, fui comovida por uma espécie de caridade que me fez ter outro pensamento: gostaria que todas as pessoas sentissem com relação às suas mães o mesmo que sinto em relação à minha. Enfim, gostaria de dar minha mãe ao mundo.

Lendo alguns livros nos quais se aborda o tema depressão, parece que há uma forte ligação entre essa doença e a escassez do amor materno. Não que todos os casos dessa patologia sejam originados dessa carência, mas muitos, comprovadamente, são.

Alexander Lowen, em seu livro O Corpo em Depressão, afirma categoricamente: Toda reação depressiva tem como base a perda do amor da mãe. Ao ler essa frase, fiquei muito tocada, tanto por conhecer pessoas que enfrentam a doença quanto por imaginar que muitas delas não se sentiram amadas e protegidas por suas mães em algum momento de suas vidas. E, por incrível que pareça, aquelas que conheço e que têm a depressão ou um pezinho nela, são pessoas que tiveram seus laços maternos interrompidos, conturbados ou fragilizados por alguma situação alheia à sua vontade.

Quanto a mim, nunca me faltou o amor de mãe. Pelo contrário, fui tão inundada por ele que, ao ler a história de Freud, cuja mãe, de tanto amá-lo e protegê-lo, deu-lhe notável sustentação interna, inclusive para enfrentar com heroísmo a doença que o mataria, encontrei na mãe do psicanalista alguma semelhança com a minha, que tantas vezes tem me sustentado e, ininterruptamente, me amado.

Minha mãe sempre foi tão grande que sobrou espaço, tempo, amor e dedicação para ser mãe dos outros. Não bastavam seus três filhos. Ela arrumava mais alguns para também chamá-la de mãe.

Ouvia de meus primos e de amigos que frequentavam a minha casa algumas expressões a respeito dela:

Queria ter uma mãe como a sua.

Sua mãe não é chata como a minha.

Sua mãe é muito legal.

Sua mãe deixa você fazer festa em casa e recebe todo mundo com alegria. A minha jamais deixaria.

Essa é a minha mãe e, também, a mãe Sylenne de sobrinhos e filhos de sobrinhos.

Sempre disposta e alegre, minha mãe não tem uma coisa que se chama preguiça. Qualquer hora que você chegar em casa tem amor, mas também tem café e tem pão e arroz com feijão. Ah! E tem carne das mais saborosas!

Minha mãe nunca pronunciou algo que indicasse estar cansada, triste, decepcionada ou magoada. Ela tem sempre um sorriso largo no rosto e nunca a vi maltratar ninguém.

Ela está sempre bonita, nunca descabelada e sempre com cara de limpinha. Ela é macia, tem colo acolhedor e aquele cheirinho bom de mãe que a gente quer ficar bem perto. Tudo nela ilumina: cabelo, sorriso, pele e alma. Minha mãe exala a prova de que o Espírito Santo nela habita. Ela não tem tristeza e se a tem guarda consigo na elegância de quem silencia. Minha mãe não costuma reclamar e, se reclama, tento mostrá-la que há problemas maiores. Sugiro que ela reze, então ela reza e fica quietinha no seu canto.

Antes de falar que estou com fome, ela já tem comida pronta. E antes de terminarmos de comer, ela também já tirou o prato da mesa. Ela não faz por mal. É que ela gosta de deixar tudo limpo e arrumado, quer lavar tudo na hora ou antes da hora. Mas, se você quiser repetir a comida, ela te dá outro prato e você pode comer de novo e à vontade e ela lava de novo. Minha mãe é muito boazinha.

Ela gosta de tudo organizado e acho que esse é um dos motivos porque a casa de minha mãe é um lugar agradável e acolhedor. Tem cheiro de muita limpeza e tem organização.

O café é coado na hora de beber. Senão, depois, fica com gosto de garrafa e ninguém merece.

Quando criança, eu não entendia por que de os meus primos a chamarem de mãe se ela era só minha e dos meus irmãos. Eu cheguei a dizer a um deles, possessa de ciúmes: Ah! Mãe Sylenne! Mãe Sylenne nada! Ela não é sua mãe. Ela é a minha mãe. Entretanto, eles cresceram e continuam a chamá-la de mãe, o que significa que meu ciúme infantil de nada adiantou.

Minha mãe é um ser que sempre respeitou as minhas vontades e a minha liberdade desde o ventre. Ela diz que eu demorei para nascer. Senti dores a noite toda até você vir ao mundo. Você só foi nascer no outro dia pela manhã. Ela sentia as contrações, mas eu relutava em vir para esse palco de dementes. Lá estava muito quentinho e gostoso, mas para aliviar as dores de minha mãe, decidi que já era hora e nasci. Em respeito à minha vontade de só chegar ao mundo no dia 22 de julho de 1988, minha mãe suportou dores durante toda uma noite.

Mais tarde, eu disse para ela que não vim ao mundo antes porque queria nascer sob o signo de leão. Faltava só um dia. Se eu tivesse nascido antes seria canceriana. E eu queria ser leonina, porque dizem que leonino não nasce, estreia. E eu estava estreando na vida de minha mãe. Primeira filha. Única mulher.

Depois do primeiro ato de liberdade que foi o corte do cordão umbilical,  eu decidi, com três meses de vida, que era hora de parar de tomar o leite materno. Minha mãe conta esse fato assim: Essa aí (mostrando para mim) largou o peito com três meses. Já os outros dois (apontando para meus irmãos que já são homens feitos) se eu os deixasse estariam mamando até hoje.

É uma forma engraçada de dizer que meus irmãos continuariam dependentes se ela houvesse permitido. Quanto a mim, revela que sempre quis o afastamento de quaisquer tipos de dependência.

Minha mãe não insistiu para que eu continuasse me alimentando diretamente de sua fonte. Mais uma vez, respeitou minha vontade.

Ao negar o leite materno, ela arrumou outros meios de me dar de comer e eu não morri, nem fiquei com traumas, nem subnutrida. A única coisa que pode ter acontecido é que não cresci em tamanho como meus irmãos. Mas, como isso não faz muita diferença, uma vez que meu crescimento sempre foi de outras ordens, sinto que em nada fui prejudicada. Nem eu, nem ela, pois minha mãe não se acha péssima mãe por não ter insistido comigo mais um pouco.

Os anos se passavam e eu continuava sendo amada à maneira de minha mãe. Outra coisa que ela fazia como sinal de que estava me criando para a liberdade era deixar eu ir sozinha a uma loja escolher as roupas que eu iria vestir. Claro que ela limitava a quantidade e o preço. Entretanto, o modelito era de minha exclusiva escolha.

Aí eu vestia essas roupas novas e eram fotos e mais fotos que ela mesma registrava ou chamava um fotógrafo para tal. Era mão na cintura, nos joelhos, na nuca, no coração, era segurando frutas no quintal de casa… Tudo era pose aos olhos dela. Se eu tivesse crescido em tamanho, provavelmente teria parado numa passarela de tanto que fui modelo para as suas fotos amadoras.

Na infância, na adolescência e agora adulta, minha mãe continua sendo uma presença discreta, porém forte em minha vida. A primeira mensagem que recebo todos os dias é sempre a dela, dando-me bom dia, dizendo que me ama e querendo saber como estou. Ela não está perto, pois mora em outra cidade, mas mesmo distante se faz doce e presente.

Minha mãe é daquelas mães suaves, não invasivas, respeitosas e que nada impõe. Minha mãe não faz chantagem, nem cena, nem drama. Nunca peguei minha mãe numa mentira. Ela gosta de ser correta no trato com as pessoas. Em tudo ela diz: É você quem sabe, filha. Você é quem sabe se namora, se casa, se quer ter filhos… Você é quem escolhe a profissão que vai exercer…

Agora que inventei de escrever, ela me acompanha lendo todos os meus textos e sempre diz que é um melhor que o outro. E completa com frases assim: Você é muito inteligente; Você é espetacular; Você é abençoada; Mamãe tem tanto orgulho de você; Você é minha escritora preferida.

Quando digo-lhe que quero fazer alguma coisa, ela diz: Vá. Você consegue. Minha mãe nunca proferiu uma palavra de desânimo frente aos meus sonhos e desejos. Ela sempre me coloca para cima e para frente. Como não ser uma pessoa com autoestima elevada tendo uma mãe dessas?

Se ela me diz que eu posso, quem vai dizer o oposto? Quem vai me convencer do contrário? Absolutamente ninguém. Se eu disser que vou voar é provável que minha mãe tenha certeza de que sou capaz disso. Minha mãe acha que posso ser tudo que eu quiser ser. Para ela, eu fui feita para a liberdade.

Outra coisa que vou contar prova que minha mãe é um ser distinto e que muito ama. Ela e meu pai se separaram quando meu irmão do meio e eu éramos muito novinhos. Apesar de sabermos das artes aprontadas pelo nosso pai, minha mãe dizia: Não tem problema. Seu pai me deu vocês que são meus maiores tesouros.

Minha mãe perdoou as peripécias do meu pai, porque acreditou que ele havia dado a ela os melhores presentes, que somos nós, seus filhos. Ela nunca falou mal de nosso pai, pelo contrário, parecia lhe ser grata.

É por tudo isso, por ser essa fonte de amor, que eu pensei em dar um pouco de minha mãe para o mundo. Se os casos de depressão estão aumentando e grande parte dos depressivos experimentam essa sensação de perda do amor materno, então eu pensei que poderia oferecer minha mãe como cura para essas pessoas.

Ela que já é minha mãe e mãe de seus outros dois filhos, de sobrinhos e de filhos de sobrinhos, também poderia ser a mãe do mundo. Se minha mãe pudesse ser a mãe do mundo teríamos um mundo de restaurados e amados.

Como me faltam todas as palavras para defini-la, eu considero minha mãe como aquela que não abandona seus filhos nem que para isso tenha que estar aos pés de uma cruz.

Essa é a minha mãe e a mãe que o mundo precisa.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

2 comentários sobre “Quero dar minha mãe ao mundo

  1. Que lindo o texto! E que bom que existe uma pessoa como sua mãe e uma filha que a valoriza.
    Sim, o mundo precisa de sua mãe! Tantos tão carentes de afeto.
    Achei muito interessante essa correlação com a depressão e concordei demais, já to buscando o livro pra ler. 😀

    Curtir

    1. Obrigada, Sarita. Você tem razão quando diz que muitos são carentes de afeto. É verdade. Há muitos livros que referenciam a depressão com problemas vividos ou decorrentes da relação com a mãe. Inclusive, há psiquiatras que sugerem que as mães fiquem juntos de seus filhos quase integramente pelo menos até os 3 anos de idade, uma vez que a coisa que o filho mais quer e precisa nessa idade é o afeto materno. Um abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s