A rosa da semana

Hoje é sábado. A rosa da semana, como disse Clarice Lispector. Para mim também, sábado é a rosa da semana. Acordei cedinho e fazia um friozinho bom. Um frio revigorante. Fiquei um tempo na cama, abracei o corpo quente de meu esposo e acariciei os seus cabelos como ele gosta que eu faço. Um dengo. Faz um dengo, pede ele. E eu nunca recuso. Agradeci: obrigada, meu Deus, por este corpo que me aquece, por essa alma que me entende e aceita e ama quando todos os outros não me compreende.

Levantei e fui preparar o café, essa bebida forte, estimulante e aromática que traz à minha mente as lembranças de tempos idos nos quais meu avô materno me servia com o seu café nas madrugadas em que me acordava para eu estudar enquanto ele ficava à espreita e vigilante para que eu não caísse novamente no sono e me desse mal nas provas.

Quis ver o sol nascer, mas ainda agora que escrevo já passa das dez da manhã e ele sequer apontou. Li algumas páginas do livro O diário de Anne Frank que me tocou profundamente. Parei e pensei na truculência humana que matou os sonhos de uma menina de treze anos, cheia de ardor e esperança. Esperta, inteligente, sagaz… O que teria sido de Anne Frank se a ignorância e o preconceito de um ditador não tivessem colocado um fim à sua vida? Ah! Que revolta! Engulo-a e saio à rua para comprar alguns alimentos. Meu irmão mais novo está no quarto de visitas. Veio passar alguns dias comigo. Pensei em dizer-lhe: não vá embora. Quando você está perto de mim fico tão alegre e disposta que mal tenho tempo de parar e escrever. É que a alegria eufórica paralisa a gente. E o meu irmão do meio disse que vai almoçar aqui em casa hoje. Então, fui comprar as coisas para servi-los e agradá-los. Mal sabem os que amo o quanto gosto de fazer por eles.

Primeiro me dirigi até a banquinha de hortaliças para adquiri-las fresquinhas. As que são vendidas no supermercado não têm o mesmo cheiro e sabor. O moço quis me vender uns tomates, os quais intitulou de segunda categoria, e eu recusei. Hoje, só quero coisas de primeira qualidade. Hoje, sábado, é a rosa da semana.

Logo após, passei numa padaria a fim de comprar salgadinhos que agradam meu irmão mais novo. Coxinha e ravioli para o café da manhã e também pão francês saído do forno. Na frente da padaria, dois homens já encontravam-se a postos. Madame, me dá uns trocados para ajudar eu completar o que tenho e tomar um café. Eu dei os trocados. Não precisa ser agora, dona. Pode ser na saída. Ainda assim, fiz questão de repassar-lhes imediatamente. Sabe-se lá o que poderia me acontecer nesse ínterim entre a entrada e a saída do local. Não se deve deixar para depois o que pode ser feito agora. Quando saí, os dois pedintes me desejaram um bom dia e a benção de Deus. Eles sorriam por detrás das máscaras antivirais, no entanto fui totalmente contaminada pela alegria deles. Como pode alguém alegrar-se numa manhã tão fria enquanto se espera a boa vontade dos outros para lhes dar esmolas? Às vezes, parece que Deus tem urgência em me dar lições de humildade.

Dali fui ao sacolão comprar carnes. Meu irmão do meio adora, de modo que após milênios, nada o fez abandonar a dieta paleolítica. Só comprei carne de primeira. Maminha, picanha, alcatra, coxão mole… Eu entendo disso, pois fui criada em meio à abundância proteica. Meu esposo também é desses que continua a comer ao modo dos homens das cavernas. E por falar nele, hoje, que o almoço será caprichado, antevejo o que dirá ao meu irmão carnívoro: venha sempre, porque essas coisas deliciosas só aparecem quando você é o convidado da vez. Todo dia sirvo coisas gostosas para ele. Tudo que lhe dou é de primeira qualidade. Nem vem que não tem.

Parti em direção a uma casa de frios que fica ao lado do sacolão, com vistas a comprar laticínios e derivados. Não quero dar margem para que meu esposo diga que não me importei em preparar pratos que ele possa comer, uma vez que tem alergia à lactose. É capaz de insinuar que só me importo com meus irmãos. E mesmo em tom de brincadeira isso me fere, porque não é verdade. E por falar em marido, encontrei um conhecido seu, o qual sugeriu que não devo sair de casa para o supermercado, mas mandá-lo em meu lugar. Entretanto, prefiro eu mesma fazer as coisas, porque faço ao meu tempo, do meu modo e, o mais importante, com os cuidados que se deve ter em meio a essa epidemia. Vão dizer que é porque sou controladora, e não estão de todo enganados. E também tenho a impressão de que sou mais resistente a vírus e a invasores. Meu esposo é mais dado a distrações e conversações. Quanto a mim, poucos chegam perto.

Quando enfim estava voltando ao lar, lembrei-me que faltava um ingrediente. Parei num supermercado, pois não desejava sair novamente para mais nada. Ao chegar em casa, vi que todos continuavam dormindo. Sozinha, comi pão francês com manteiga derretida ao modo de quando acordava na casa de meus avós.

Só ouço agora o latido dos cães e o barulho de vizinhos, os quais se eu pudesse pediria também que se calassem. Uma amiga me mandou mensagem foi cedo me pedindo para ser paciente com os outros. Um outro amigo, certa vez, disse-me: seja paciente pelo menos com você, porque eu sei que com os outros você não é. E me abraçou forte como se eu estivesse precisando que me acariciassem. Será que sou tão dura? Será que tenho o coração de ferro? Tenho não. Meu coração é de carne, assim como o de Saramago, que disse: Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

É porque eu tenho que me manter forte e resguardar-me debaixo de minha concha óssea tal qual uma tartaruga. Há pessoas que precisam de mim, suponho. E como vou proteger a mim e aos outros sem utilizar as minhas armaduras?

O sol ainda não surgiu. O dia está com aparência sombria e triste. Escuto o barulho do vento uivando. Ele atravessa a janela, sacode as cortinas e, gelado, atinge minhas pernas descobertas. No entanto, meu coração está aquecido.

Peço-lhes, porém, licença. Vou limpar e organizar a casa, preparar um almoço à altura dos meus amores e servi-los. Antes, confesso-lhes uma de minhas fraquezas, eu não sei dizer te amo. Eu só sei mesmo é amar de um amor servil. Retiro-me, pois, agora, para doar-me aos que escolhi para exercerem sobre mim semelhantes direitos. Ainda não caí em domínio público.

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