Uma dos costumes que adquiri com o hábito de escrever foi o de notar tudo que se passa ao meu redor. Costumo andar sozinha pelos lugares, então fica mais fácil observar e refletir sobre as coisas que vejo. Olho para rostos, paisagens, cenas, gestos e há situações em que ouço a conversa de quem está ao lado. Nada disso faço por curiosidade, mas apenas para captar estímulos que me conduzam a escrever, porque de todas as atividades que exerço essa é a que dá mais sentido à minha vida.

Há alguns dias estava sentada num restaurante e havia um casal ao lado conversando de maneira acalorada. Eles pareciam estar com os ânimos exaltados e logo me dispus a escutá-los. Ocorre que estavam falando em inglês e, não sei se já comentei, meu inglês se resume a yes and no e olhe lá.

Saí com uma angústia tão grande que me deu vontade de aprender todas as línguas do mundo só para não perder oportunidades. Depois, acabei esquecendo e me contentando em escutar apenas as conversas exteriorizadas no português.

Entretanto, esse negócio de observar requer muito cuidado, pois é preciso disfarçar, senão as pessoas pensam que você as está encarando ou querendo roubá-las ou até mesmo interessada nelas. Digo por experiência.

Ano passado uma amiga convidou-me para ir numa festa e eu fui. Uma conhecida nossa chegou com o seu namorado que tinha uma aparência fora do comum. Cabelos batendo nos ombros e encaracolados, barba assimétrica, usava uns óculos meio arredondados e estava trajando vestimentas totalmente destoantes das que se costuma usar naquele tipo de evento. Não pude deixar de notar, mas resolvi me dirigir à pista de dança e esquecer a imagem que acabara de ver.

Dois dias depois da festa, a namorada dessa figura resolveu bater na minha porta para me questionar o porquê de eu ter olhado para o seu namorado. Quase respondi que era porque eu tenho olhos que veem, pois seria indelicado de minha parte dizer àquela mulher apaixonada e, portanto, que não vê, que achei a imagem dele um tanto quanto estranha, mas também não podia deixá-la imaginando que eu estava interessada no dito cujo. Isso não.

Eu disse que não estava olhando e ela insistia que sim, que eu estava olhando. Então fui obrigada a revelar: “se olhei não foi por interesse, mas por estranhamento”. Mais tarde, fiquei sabendo que todos os presentes da festa o estranharam. Então, depois dessa, compreendi que é necessário olhar com discrição para não haver mal entendidos.

Mas não sei se consegui olhar com discrição para um menino de uns vinte anos que entrou numa livraria enquanto eu lia e tomava um café. Ele era alto, corpulento, de nádegas avantajadas, quadril largo e seios um pouco mais levantados do que costumam ser os masculinos. Notei no seu corpo características predominantemente masculinas, com nuances femininas. Olhei para ele e vi uma indefinição.

Se alguém acha que não há essa diferença, tudo bem. Eu olho para um homem e uma mulher e as vejo. Então, vou falar das minhas percepções sem com isso obrigar qualquer pessoa a distinguir, tal qual faço, características físicas inerentes ao homem e à mulher.

Pois bem, esse garoto comprou um livro e dirigiu-se novamente à vendedora com outro em mãos. O objeto estava embalado num plástico e ele pediu autorização para abri-lo, pois queria ler ali mesmo na livraria. A vendedora consentiu e ele sentou-se à minha frente com o livro nas mãos. Na capa estava escrito Transexualidade.

Passei a observá-lo enquanto lia. Seus olhos expressavam uma profunda tristeza. À medida que ia passando as páginas, mordia os lábios e se inquietava na cadeira. Às vezes chegava o rosto mais próximo ao livro como que para enxergar melhor ou porque estava diante de algo que lhe causava perplexidade. Ficou fixo em sua leitura por muito tempo e nada em volta parecia interessar-lhe mais do que a coisa que lhe abria a percepção, quem sabe de si mesmo.

Tive certeza quanto à primeira impressão que senti ao olhá-lo. Ali havia uma indefinição. Aquela pessoa sofria por ser ou não ser alguma coisa. Provavelmente, tratava-se de alguém com um corpo predominantemente masculino, mas que se identifica melhor com os pensamentos, sentimentos e emoções do sexo feminino. E isso constitui uma evidência de que há diferenças, ou melhor, que nem tudo é construção social.

A vontade que me sobressaltou foi de chegar perto dele e consolá-lo. Abraçar aquele menino. Pedir que se abrisse comigo, pois imaginei que ele não teria essa liberdade em casa, uma vez que decidiu por ler a respeito de transexualidade ali mesmo. Intuitivamente, acreditei que ele se escondia e que a família não poderia saber que lê livros dessa espécie. Iriam perguntar que tipo de interesse tem no assunto, pois a família nunca enxerga e, mesmo quando vê, disfarça, causando muito mais dor naquele que necessita de amparo.

Os familiares chegam a um nível tão evoluído de egoísmo que negam um fato dessa importância e magnitude, porque imaginam que confirmar uma verdade dessas lhes causará tamanha dor, quando, na verdade, quem mais sofre é aquele que não se sente livre para admitir o que é ou não encontra apoio para assumir-se tal qual se identifica.

Senti a dor daquele menino. Claro que jamais no nível de intensidade em que ele sente na pele a sua própria dor. Mas nada fiz e nada posso fazer. Apenas lancei-lhe um olhar de compreensão e ternura e saí dali resignada.

Imagino que uma das coisas que mais perturba uma pessoa é não poder se apresentar do jeito que é, com suas imperfeições, estranhezas, defeitos e confusões. Às vezes, o preço que se paga por ser de um jeito ou de outro é alto, mas continuo acreditando que uma pessoa não deve ficar retesada e presa com a ilusão de que está protegida sob a máscara de uma farsa.

Esses dias estava conversando com um de meus irmãos sobre quem somos e eu disse a ele que às vezes é triste ser quem sou. Sua resposta foi essa: Mas, caso contrário, também se sentiria triste por não ser você.

Caetano Veloso tem uma música na qual diz que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mas é preciso saber o que se é. Não é confortável ficar na indefinição, no enclausuramento, vivendo às escondidas, disfarçando e, sobretudo, preso dentro de si mesmo.

Talvez nunca mais encontre aquele menino. Sei que ele nem mesmo me notou.  E nada posso fazer por ele. Reconhecer que não se tem condições de fazer nada é a mais autêntica forma de impotência. Mas durante aquele tempo em que estive lhe observando, agarrei-me à sua dor. Entretanto, isso não muda nada. Minha dor não diminui a dele, não lhe acalenta, nem lhe acrescenta qualquer coisa.

No meu caso, escrevo e nisso encontro um certo consolo. E quanto a ele? O que haverá de consolá-lo? Onde encontrará alguma espécie de alívio?

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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