Verdades que mais ninguém diz

Em três anos de convivência com a minha avó paterna, tive a oportunidade de observar bem de perto se havia correspondência exata entre as suas palavras e ações. Digo isso porque, no meu entendimento, ao valorar os seus juízos e sentenças, surpreendia-me o teor, o significado e a sabedoria das muitas coisas que ela dizia, sem nunca ter frequentado uma escola. Na verdade, ela sequer sabia ler. Era uma senhora analfabeta que, no entanto, aprendera com a vida vivida, quer pela experiência fática e concreta da própria coisa, quer pelo olhar curioso, atento e perscrutador que tanto lhe caracterizava e do qual ninguém nega que eu, sua neta, herdara.

Mãe de oito, os quais criara sozinha, perdeu sete deles antes de sua própria morte. O último filho, do qual ela teve que se despedir, foi o meu pai, cuja vida se findou aos quarenta e três anos, ao ser fulminado por um AVC, resultante de sua vida boêmia regada a excessos de tóxicos, samba e mulheres.

Apesar da vida sofrida e marcada pela escassez de itens básicos necessários à sobrevivência, criou os filhos sozinha, mas com a dignidade de uma mulher que acordava todos os dias de madrugada a fim de preparar quitutes, os quais vendia para o sustento da casa.

Mais tarde, pôde gozar de um certo conforto oferecido-lhe pela filha que restara e que lhe dedicava os mais ternos cuidados como para compensar todo o sofrimento de uma vida de luta.

Já nesse tempo de glória é que tive o prazer de observar e extrair o máximo dos ensinamentos de minha avó, os quais transfiro com orgulho acentuado por reconhecer em mim os seus traços que tanto me causam alegria e satisfação. Dizem, e aqui registro minha aquiescência, que, no aspecto físico, sou uma mistura de minha mãe e da mãe de meu pai. E como me apetece a ideia de parecer com os meus e não com outros. A marca de minha ancestralidade corre no meu sangue, na minha alma e em tudo quanto não lhe posso negar. Mulheres marcantes da família surgem na minha lembrança e não posso ocultar que essa força, inclusive ante os homens, está em saber que o homem que tem que gamar na mulher e não a mulher gamar no homem.

As feministas que me perdoem, mas essa verdade é fundamental. Um dos ditados muito citados pela minha avó quando notava o quanto os homens desprezavam as mulheres quando essas lhe debruçavam totalmente aos seus pés. Ciente da natureza caçadora masculina, ela ensinava que a mulher deveria se valorizar a despeito de qualquer coisa e jamais ficar a caça de bicho que lhe foge. Nesse caso, o mais sensato seria recuar, esperar por ser caçada e conquistada. E mesmo após seduzida, ela talvez ainda precisasse atentar-se para as palavras do poeta do amor: Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos ao abri-los ela não mais estará presente.

Essa visão pode parecer arcaica se considerarmos os avanços pelos quais passamos nos últimos tempos, principalmente com relação à independência e à liberdade angariadas no âmbito feminino. No entanto, muitas dessas mudanças, as quais considero salutares, nada tem a ver com a realidade de que, ao serem surpreendidos por mulheres que investem forte na conquista e que são escancaradamente gamadas nos homens, elas os afugentam e os atemorizam, uma vez que eles, ao serem retirados de suas vestes de leão, viram tão somente gatinhos medrosos.

Quem muito se abaixa mostra o fundo das calças. Outra fala muito repetida pela senhora minha avó quando queria nos dizer que não devemos nos humilhar ou nos arrastar por quem quer que seja. A pobreza e as dificuldades que enfrentou não lhe fez perder o senso de sua própria importância, que não estava ligada à dimensão de suas posses, mas à noção de que devemos nos portar diante do outro de igual para igual, com respeito mútuo e recíproco. Isso não deve ser confundido com falta de humildade, pois se tivermos que nos arrastar e nos subjugar para nos conectarmos com o outro, provavelmente nada de proveitoso e agradável restará da lembrança desse tipo de relação e, ao final, nos sentiremos péssimos ao nos reconhecermos como seres que tiveram que se anular ou morrer de um certo modo. Clarice Lispector disse: (…) pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha própria importância – tudo estará perdido. Era esse o sentido da enunciação de minha avó quando pregava que não devemos nos abaixar de forma demasiada.

Ela, que em nada gostava de ser importunada, quer diante de um bêbado abusado, de uma criança chorosa, de um som muito alto e perturbador, ou de qualquer coisa que lhe tirasse a paz e o sossego, dizia com um sorriso no canto dos lábios: Eu vendi minha viola pra não ouvir ninguém tocar. Dessa frase me utilizo quando percebo que, ao ter desfeito de situações que me incomodavam, inclusive aquelas de que eu própria era autora, vejo-me diante de circunstâncias que me importunam e provém daqueles que simplesmente não têm a percepção de que não se deve dar cachorros a alguém que se desfez dos seus, pois significa que essa pessoa não tem mais a intenção de cuidar deles ou criá-los, se é que me entendem.

E por falar em cachorro, usarei esse bichinho para fazer alusão a outro dito de minha avó: Quem dá o seu cachorro é porque não precisa dele. Ela gostava de dizer, também sorrindo: Quem dá o que é seu é porque não precisa. Ou seja, não é proibido doar absolutamente nada, desde que seja dentro de nossas possibilidades, uma vez que, se ultrapassarmos nossos limites, poderemos mais tarde estar precisados justamente daquilo que demos. Assim, se a única proteção que existia em sua casa para avisar a presença de estranhos era o seu Pitbull e você o doa a pretexto de não mais precisar dele, não poderá, mais tarde, querê-lo de volta sob o argumento de que, por tê-lo dado, invadiram sua casa e lhe roubaram tudo. Portanto, minha avó chamava a atenção para que observássemos o que andávamos dando por aí… se é que, mais uma vez, me entendem.

É claro que eu notava o seu comportamento, tão observadora que também sempre fui, e via que, na prática, ela agia em coerência com os seus dizeres. Era o que se podia chamar de mulher esperta. Calada, olhos abertos e desafiadores, postura ereta e digna, pude aprender muito sem que ela, no entanto, soubesse que ensinava. Aliás, ela o sabia, como sabia de muitas outras coisas, a exemplo: já com Alzheimer, olhava para a televisão, no momento em que o jornalista se despedia, e dizia encarando-o: Esse homem não para de olhar para mim. Eu jamais deixaria ele dormir na minha cama.

Ah! E como entendi quais eram aqueles que ela jamais dividiria o leito, a casa, a intimidade e a vida. Como entendi minha avó. E como sou toda ela naquilo que mais gostava de ver ela sendo.

Esses homens, minha avó, digo-lhe, eu também jamais permitiria que me tocassem, quer o corpo, quer a alma.

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