A ridícula ideia de nunca mais te ver

Não pude acreditar que aquela mulher estranha o tivesse em mãos. Ao entrar na clínica e me deparar com a cena que descreverei não consegui controlar o ciúme, o mesmo que brotou no coração de Bentinho quando ele, ao acompanhar de longe Capitu, enquanto ela dançava num baile, imaginou que outros braços de homens roçavam os dela.

Mas eu não imaginei. A cena que vi foi real. Ela o segurava nas mãos, abria-o e fechava-o quando e como queria e, pior, colocava-o entre as suas pernas quentes, porque deveriam mesmo estar quentes, pelo que outrora ele me havia feito sentir.

Meu olhar não os desfitava. Existia cumplicidade e desejo na forma como a mulher manuseava-o. Eu podia sentir que ele a penetrava como há tempos fizera comigo. Ele, que me serviu de companhia em dias frios, que me fez chorar de emoção e deixou-me três dias acamada de paixão, como aceitar que agora, sem mais nem menos, estivesse sob a posse e o domínio de outra?

E ela sorria, sentia e sofria com ele tudo aquilo que um dia sorri, senti e sofri.

Naquele momento, eu já tinha um substituto em minhas mãos, o qual também me levava a terras distantes, a ter sentimentos nobres e a voar livremente. E havia outros a minha espera, clamando por mim, e cuja aproximação eu evitava por falta de tempo ou por escolher os que apeteceriam muito mais as minhas emoções ou os meus sentidos.

No entanto, eu queria ter novamente comigo aquele que estava com a outra mulher que jamais eu tinha visto na vida, mas que me despertou um intenso desejo de disputa. Pensei em apresentar-me a ela para reivindicar aquilo que um dia me pertenceu, mas o orgulho nunca me permitiu que eu tomasse algo de alguém, nem mesmo o que supunha ser meu.

Enquanto ela se inebriava lançando-lhe olhares cada vez mais desejosos de absorvê-lo, eu sofria por ele estar sendo manejado e tocado por outra de uma forma tão única. Por que quando ele estava ao meu alcance eu não lhe coloquei no colo e acariciei-lhe com as mãos para sentir sua textura de objeto masculino? Por que não lhe cheirei ao abri-lo como a vi cheirá-lo? Por que não tive a paciência de devorá-lo docemente como ela fazia ao voltar toda a sua atenção para cada detalhe dele e para cada palavra que lhe dizia?

Ele agora lhe pertencia quase totalmente, pois ela já estava chegando ao fim. Faltava muito pouco para tê-lo todo dentro de si como um dia tive e o deixei escapar. Eu pensava que ele era só meu, que ninguém mais o teria e que eu poderia possuí-lo quando bem entendesse, porque estaria sempre e somente à minha espera. Mas não. Ele é livre para ser de quem o queira.

A mulher foi embora com ele, mas antes o ajeitou carinhosamente e colocou num canto da bolsa para que nada o arranhasse. A ridícula ideia de nunca mais vê-lo tomou conta de mim e eu saí correndo daquele lugar em direção à minha casa na ânsia de encontrá-lo tal qual eu havia deixado. E ele estava no mesmo canto, parado, quieto, imóvel, alegre e triste em seus tons amarelo e preto. Ele estava lindo.

A ridícula ideia de nunca mais te ver não pode pertencer e fazer sentido apenas para mim. Ele é meu, mas também é dela, e é de quem o quiser. E eu não posso sentir ciúmes, pois quando algo é lançado para fora, não é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de todo mundo.

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