O fracasso da mulher moderna

Amigas desde os tempos do colégio, quem as conheceu unidas e inseparáveis jamais suporia vê-las tão distantes uma da outra. Inútil dizer que eram como irmãs para explicar o sentimento que as aproximavam. É que, entre irmãs, nem sempre há tantas confidências reveladas sem que o peso da disputa de atenção e de afetos arranhe a relação.

Entre as amigas não havia competição, pois os interesses de cada uma não se comunicavam com os da outra, de modo que a única semelhança notável era o fato de serem mulheres. Apenas a constituição biológica era similar, em tudo o mais se diferenciavam, inclusive seus pensamentos raramente se convergiam e hei de supor que só uma amizade alicerçada numa imensa consideração fazia com que suportassem as contradições sem que qualquer delas carregasse o peso da necessidade de convencer.

Divergiam não apenas em questões amorosas, domésticas e familiares, mas também em aspectos mais gerais como política, economia e sociedade.

O sonho de Clara se restringia a uma constituição familiar nos moldes tradicionais, embora não tivesse a coragem de se revelar por causa de seus ideais de liberdade da mulher. De pele tão límpida quanto o seu nome, defendia a igualdade entre todos os gêneros possíveis, lastimava pelos pobres e negros e era uma ferrenha defensora da adoção e da proibição da pena de morte ao tempo em que proclamava pela aceitação do aborto.

Clara propugnava pela liberação das drogas e pela bissexualidade e, embora tenha casado virgem e com um homem, mantinha secreta sua fantasia de se relacionar com mulheres. “Tenho curiosidade” – dizia ela, enquanto Virgínia ouvia com atenção e um certo ar de incredulidade, uma vez que sabia que essas ideias jamais seriam levadas a sério, pois a amiga vivia totalmente na contramão de seus devaneios de rapariga branca liberta.

Antes de se casar, enunciava que teria quatro filhos, adotaria mais alguns e até perdoaria traição se preciso fosse para conservar a família, mas antes que isso acontecesse seria preciso realizar-se profissionalmente, sem, no entanto, decidir qual rumo tomar no mundo dos negócios.

Nos momentos em que a interpelavam sobre os seus objetivos profissionais, não sabia ao certo o que queria e, de tanto não saber, acabou se rendendo, por cansaço e desilusão, ao seu primeiro desejo forte e latente de ser esposa e mãe.

No entanto, também se tornou uma profissional que se entrega diariamente a um emprego tedioso e inútil, meu Deus!, pensamento que é rapidamente afastado pela lembrança de que, apesar de tudo, é mensalmente bem pago e com depósitos pontuais, de modo que pouco importa ter que ficar sentada esperando o tempo passar, pois ao fim do dia voltará para casa, alegre e um tanto culposa, ao encontro de seu filho que passa o dia numa escola para crianças, longe do calor e do colo da mãe, essa mulher que jamais verá seus sonhos de outrora concretizados.

Nem mesmo conseguiu se realizar criando seu único filho. Ela, que sempre quis ter outros tantos biológicos e adotivos, acabou tendo que delegar e abrir mão do prazer de acompanhar os passos de sua cria, de sorte que, pensava, havia fracassado não apenas como a mulher moderna entregue ao mercado de trabalho, mas, o mais grave, fracassara também como mãe.

Clara pensava, com vergonha, terei me frustrado inclusive como mulher? Pois casei virgem e uma mulher que casa virgem continuará assim por toda a vida, sem repartir o pão e o vinho. Nem mesmo gozei a liberdade de dispor do meu corpo. O corpo, a única coisa tão minha, e que eu entreguei a um homem só. Logo eu, defensora da reforma agrária, da doação, da proibição da concentração de renda nas mãos de poucos. Eu, protetora dos pobres, negros e oprimidos, concentrei nas mãos de apenas um toda a minha riqueza. Virgem, imaculada como Maria. Com meus filhos será diferente, eu os direi: doem-se de corpo e alma. Dê-se, minha filha, a quem quiser se dar.

Em outra cidade, bem longe de Clara, Virgínia se dedica aos afazeres domésticos, ao cuidado do esposo e às atividades de leitura e escrita, sem filhos em casa, no ventre ou na cabeça, e sem pretensões de salvar o mundo, de doar-se. Nem mesmo possui ideais de igualdade, pois prima pelas diferenças ao lembrar-se da mãe dizendo-lhe: “Você não é todo mundo.”

Virgínia não tem opiniões absolutas a respeito de nada e, diferente da amiga, evita os assuntos genéricos, porque acredita que cada caso deve ser analisado em separado, uma vez que ninguém é igual a ninguém, mesmo ao viver situações que se assemelham. Talvez essa sua visão distanciada das coisas tenha sido intensificada pelo estudo jurídico a que se dedica, sem, no entanto, possuir aspirações advocatícias. Não quer defender nem acusar ninguém. Quer salvar-se a si própria interpondo todos os recursos cabíveis para se libertar de todas as prisões, até das mais ínfimas, como a que exige que ela sentencie sobre tudo.

Ao entardecer, enquanto espera o homem, Virgínia se dirige até a janela, olha para o alto e pensa: “O que terá sido de Clara?” E antes que pudesse tentar adivinhar os desígnios daquela que fora sua amiga, balbucia: “Mas o que tem sido de mim?”.

Não quer pensar nisso, então abre um livro aleatoriamente e se vê diante de uma pergunta: “Deve a mulher trabalhar?” Virgínia imaginava que esse questionamento restava superado.

“Seu papel no lar, é bastante absorvente e sério para que ela procure além dele, outro campo de atividade” – disse um.

“Penso em aproveitar minha profissão, de algum modo, embora não saiba em que sentido” – Virgínia lembrou-se de Clara que também nunca encontrara o sentido de seu trabalho.

“A mulher pode competir com o homem e até superá-lo, em diversos casos. Mas, se não for necessário trabalhar, que não trabalhe. Ela deve ser para a sociedade uma espécie de ornamento” – disse Luiza Gulkis.

Em meio ao texto que lê, Virgínia não consegue escapar de sua pergunta: “Mas o que tem sido de mim?”

“Um ornamento, meu Deus! E de barro!”

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