Quando a culpa é das instituições, ninguém é culpado

Fui instada por um amigo a responder uma pergunta sobre a qual meus escassos conhecimentos históricos jamais poderia alcançar a certeza e a precisão de uma resposta digna de consideração ou nota.

Perguntou-me ele o que penso sobre o dever que a Igreja Católica tem de emitir um pedido público de desculpas por ter corroborado com a escravidão. Segundo ele, a instituição manteve escravos em seu domínio por um bom tempo, de modo que essa prática não se coaduna com a finalidade a que a igreja se presta.

Mas afinal de contas, questionei-lhe, quem é a igreja? O papa, os bispos, os padres, os cristãos? Afinal, quem é a igreja?

Nunca entendi muito bem o que as pessoas querem dizer quando afirmam que a sociedade ou as instituições têm uma dívida para com os negros, as mulheres, as crianças, os pobres ou seja lá quem for. Sempre me pareceu um discurso vazio de significados e carente de termos precisos que o justifiquem. E mais, não saberia dizer a que se prestaria “um pedido público de desculpas”.

Não sou adepta a nenhum entendimento que queira negar o passado de injustiças, guerras ou catástrofes, pelo contrário, acredito que entender a história é importante para se ter uma ideia do que deu ou não deu certo, do que se deve imitar ou afastar, e até mesmo uma forma de compreender o contexto atual no qual estamos inseridos. Entretanto, nenhum pedido de desculpas apagará as marcas daqueles que foram subjugados nem dará uma nova vida aos que foram cruelmente aniquilados.

As instituições, a sociedade e o governo são entidades abstratas que se constituem de pessoas que as compõem e as administram. Cada uma dessas pessoas, com suas práticas e comportamentos individuais é que dão concretude aos atos a elas atribuídos, de modo que não cabe a nós, sob o pretexto da abstração ou da generalidade, imiscuirmo-nos daquilo que nos cabe, não com relação a um passado de desacertos consumados, mas de um presente onde nos é possível rever atitudes e comportamentos em busca de soluções ao que se nos apresenta.

Que a escravidão deve ser discutida e analisada sob vários aspectos, não restam dúvidas; que devemos ter conhecimento e consciência dos danos e estragos que ela significou a milhares de pessoas, parece óbvio. No entanto, muito mais importante que retratações ou pedidos de desculpas por comportamentos passados, que em nada podem ser alterados, é o empenho que cada um de nós deve realizar diariamente no sentido de não financiar ou fomentar novas formas camufladas e simuladas de dominação.

Parece-me que há um gosto consciente ou inconsciente em se discutir a respeito dos culpados de outrora em detrimento da análise acurada dos problemas que enfrentamos na atualidade. Ao invés de solicitar aos membros de instituições que reconheçam erros pretéritos, num ato meramente simbólico e que, a meu ver, não representa absolutamente nada, penso que o mais sensato e proveitoso é pedir que todos nós debrucemos na observação e contenção das atuais mazelas que, se não mais dizem respeito ao açoitamento e subjugação de escravos, detém-se na indiferença, no desprezo e no descaso em relação a tantas pessoas que, provavelmente, não se sentem nem um pouco diferentes dos negros historicamente escravizados.

Quis saber do meu amigo a quem a igreja deveria direcionar suas desculpas? Aos escravos que não mais existem? Aos parentes que, embora indiretamente afetados, não sofreram na pele as marcas da violência? Aos negros de hoje? A quem direcionar um ato pobre de reparações e vazio de sentido?

Quando atribuímos responsabilidade a um ente jurídico abstrato retiramos de nós a parte que nos cabe. Quem é a sociedade se não cada um de nós que nela se insere? Quem é a igreja, se não suas autoridades e fiéis? Quem é o governo se não os representantes e nós que os elegemos?

A igreja não se destina a escravizar e nem o governo a corromper. O pensamento que faz com que as instituições nasçam, com algumas exceções, não está assentado no flagrante desvio de finalidade a que muitas vezes nos deparamos. Mas há um componente nessa história toda que é capaz de cometer as maiores atrocidades sob o argumento do bem geral, da proteção ao outro e até mesmo da obediência a um Deus que ganha diferentes formas, a depender da necessidade de quem Dele se utiliza.

“O homem é o lobo do homem”, frase tão repetida e que já se tornou lugar comum, mas que contém tudo quanto o homem não quer admitir. Precisamos atribuir culpas e condenar alguém, desde que não seja nós mesmos. Então, o homem em sua individualidade se esconde em conceitos abstratos de família, governo, igreja, sociedade e tantos outros.

Enquanto a responsabilidade recair em instituições, existentes apenas por meio de uma lei ou de um registro de constituição jurídica, todos estaremos a salvo e impunes. É por isso que os grupos se fortalecem, porque escondidos em meio à multidão ninguém pode ser achado e individualizado.

Assim, a responsabilidade pelo rompimento de uma barragem que matou inúmeras pessoas é de uma empresa, porque a empresa não é ninguém. Os desmandos e abusos são do governo, porque o governo não é de ninguém, e a sociedade é a grande responsável pela baderna e instituição do caos a que estamos imersos, e ninguém consegue puni-la, por que, afinal de contas, quem é ela?

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