Domingo não era um dia qualquer como todos os outros em que as crianças se ocupavam dos afazeres estudantis e de suas brincadeiras repetidas ou inovadas. Domingo era um dia festivo e dos mais esperados, pois passado um tempo após o meio dia, a meninada dirigia-se saltitante para a sorveteria com os seus centavos minuciosamente contados e à conta para comprarem exatamente duas bolas de sorvete. Nada mais.

Todos eram semelhantes em matéria de disponibilidade de recursos, de modo que nenhum poderia ostentar sequer uma bola de sorvete a mais. Nem mesmo uma casquinha a ser acrescentada, pois pagava-se um preço por isso. Então, eram servidos em copo de plástico mesmo. A igualdade prevalecia em quase todos os aspectos, com ressalva para a escolha dos sabores. Era nesse momento que cada um exerceria a liberdade de seu próprio juízo, sem restrições de quaisquer ordem. Assim, discutiam entre eles sobre a qualidade das escolhas, nunca a quantidade, porque o peso do gelado era igual para todos.

O meu é mais gostoso que o seu, João – falou Geraldo.

Claro que não. O meu é de leite condensado, cremoso e muito mais gostoso. Geraldo, só você no mundo pode gostar de um sorvete azedo como é o de limão – retrucou João.

O melhor é o de lacta com passas ao rum – disse Mariana enquanto lambia as mãos adocicadas de sorvete derretido.

Eu nunca provei esse porque não sei o que é lacta, muito menos rum – observou Geraldo.

Nem eu – acrescentou João dando de ombros.

Eu também não sei, meninos, mas são os melhores sabores de sorvete que já provei em toda a minha vida de sorveteira – respondeu Mariana enquanto catava as passas e colocava-as uma por uma na boca.

Os amigos de Mariana desconfiavam que ela pedia esse sabor apenas para ter o prazer orgulhoso de pronunciar as palavras lacta e rum, assim como sorveteira. Onde já se ouviu essa expressão?

Para tirar a prova, um dia João questionou a professora a respeito do significado da palavra e foi informado que se tratava da máquina de fazer sorvete. Então, virou-se para a colega e disse: Está vendo, Mariana, você não tem vida de sorveteira, porque você não é uma máquina. Você é humana. Entendeu? hum-ma-na, com h de húmus.

Quando era perguntada a respeito do que iria ser ao crescer, Mariana respondia com a mesma altivez de quando ia comprar o seu sorvete: Vou ser Dermatologista, com D maiúsculo que nem Deus.

Ela não tinha dimensão do que era ser dermatologista, muito menos Deus, e se dizia essas coisas, era apenas para impressionar e dar uma de entendida e esperta. Adulta, ela jamais teria condições de cuidar da pele de quem quer que fosse, pois se interessava apenas pelo estudo do que está abaixo da derme e da epiderme e da hipoderme.

No seu aniversário de doze anos, Mariana ganhou, além de presentes dos convidados, alguns trocados de seus avós para que comprasse o que bem quisesse, e ela não hesitou em pedir à mãe que adquirisse os seus tão desejados patins, pois queria andar mais rápido que todo mundo do mundo todo, dizia. Antes, quis ter asas, mas disseram-lhe que as asas lhe pesariam e a impediriam de sair do lugar. Então, contentou-se em andar mais rápido por terra mesmo.

Com o que sobrou do valor ganho, ela convidou os amigos para irem à sorveteria por sua conta. Pela primeira vez, usaria seu próprio dinheiro a fim de levar sabor e alegria para a vida dos amigos que tanto gostava. Geraldo quis saber se iriam apenas dali a seis dias, quando chegasse o domingo, pois era o dia que eles intitularam como sendo “O dia do sorvete”. .

Claro que não, Geraldo. Nós vamos hoje mesmo após sairmos do colégio. Você precisa entender que quando se tem dinheiro em mãos não é preciso esperar outro dia para fazer as coisas que queremos, quanto mais para comer.

João e Geraldo pediram sorvete cujos sabores eram os mesmos, como de costume, leite condensado e limão. Quando chegou a vez de Mariana, ela decidiu por escolher outra coisa no cardápio. Nesse dia em que sentia o gosto bom de ter um pouco mais de dinheiro, quis ousar algo diferente numa atitude que dava mostras de uma singularidade que acentuaria à medida que ela passasse da infância à adolescência.

De todos os nomes do cardápio, o mais incomum e também o item mais caro era um tal de vaca-preta. Parecia algo raro e até engraçado. Sem solicitar informações complementares a respeito, Mariana o escolheu em alto tom e com a ousadia que lhe era própria.

Enquanto a vaca-preta não vinha, ela esperava com o coração na boca e por dentro se perguntava se havia feito uma boa escolha. E se fosse algo de gosto ruim? E se não compensasse o preço? E se achassem estranho ela comer uma vaca-preta? Simultaneamente a essas questões que interiorizava, os amigos devoravam seus sorvetes com ímpeto muito maior que aquele de uma tarde de domingo.

Enfim, a vaca-preta chegou num copo de plástico e ocupava um espaço muito menor que aquele das duas bolas de sorvete que já estava acostumada a pedir. Vaca-preta era sorvete e coca-cola batidos juntos. Nada mais que isso. Mariana tomou o primeiro gole, mas não gostou, embora não tenha confidenciado aos amigos a sua decepção, tendo em vista que não gostava de admitir publicamente seus desacertos. Ela queria algo muito diferente e, se fosse para pagar a mais por um sorvete derretido, teria comprado o original e colocado ao sol. Por que o atendente não lhe dissera a verdade? Porque, no seu afã pelo diverso, não perguntara, lembrou-se.

Mas pelo menos ela havia adquirido experiência. Pelo menos já sabia o que era vaca-preta – pensava. Por outro lado, se houvesse perguntado antes não teria se equivocado. Experiência é a desculpa que damos para os nossos equívocos? Mas afinal de contas, o que tem a ver vaca-preta com os ingredientes do pedido? Pensou por um tempo e formulou a resposta: Vaca deve ser porque o sorvete batido vira leite e o leite vem da vaca. E preta, por causa da cor da coca-cola. Pelo menos, podia exercitar a inteligência – pensava Mariana enquanto procurava algo que a redimisse.

Mais tarde teria que arranjar outras explicações para as suas escolhas dissonantes, inclusive com relação às pessoas que preferia amar e ter por perto. Tinha por ídolo, a exemplo, um artista que ninguém mais entre as pessoas da sua roda de amigos e familiares gostava. A maioria era quase unânime em preferir uma dupla que conquistou milhares de fãs por todo o país, talvez a de maior sucesso na época. Mariana achava muito estranho que tanta gente pudesse se deixar fascinar pelas mesmas coisas e pessoas, e ao procurar algo que evidenciasse uma característica peculiar que colocasse os integrantes dessa dupla em destaque, não encontrava algo que justificasse o transe geral. São bonitos, cantam bem e são muito humildes – diziam. Ou seja, eram fáceis de gostar.

Ela queria algo que fosse difícil. A facilidade não lhe exigiria o mínimo esforço como aquele realizado pelos escaladores de montanhas que tanto admirava, e Mariana já pressentia que gostar dos fáceis é o que há de mais fácil no mundo. E ao dizerem que seu ídolo era muito antipático, ela entendeu que a sua preferência sempre recaíra naquilo que aos outros soava como mais detestável. Escolher gostar do repulsivo e conviver com os abomináveis era a oportunidade que se apresentaria ao longo de toda a sua vida para provar a sua resistência em imitar Cristo, sobre quem ouvia tantas pessoas falarem e exaltarem ao tempo em que desprezavam os que lhe eram mais próximos.

E se essa história nada tem a ver com sorvete, vaca-preta e ídolos, é porque, a depender do que precisa ser dito, é melhor recorrer às metáforas e parábolas.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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