A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

Antes de adentrar à narrativa desse livro, Clarice Lispector emite uma espécie de comunicado, dirigido a possíveis leitores, para informar-lhes sobre seu desejo de que ele seja lido apenas por pessoas de alma já formada.

Essa informação é uma espécie de filtragem pela qual devem passar os possíveis leitores, para que eles saibam se têm condições de acompanhar a personagem G.H. em sua incrível trajetória rumo ao desconhecido e à transformação que lhe ocorrerá dentro do quarto de uma empregada.

Quem seriam esses possíveis leitores, essas pessoas de alma já formada?

Aquelas que sabem que a aproximação do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar.

Quem, ao estar com A paixão segundo G.H. em mãos, identificar-se com essa descrição, poderá mergulhar nas páginas desse livro sem medo ou desconfianças, pois ao final, é possível que essas pessoas sejam tomadas de uma alegria. Uma alegria difícil, como sugere a escritora, mas chama-se alegria.

Todos prontos? Aqueles que não se sentirem à vontade para seguir, despeço-me com profundo pesar, e espero encontrá-los em outra viagem mais segura e com menos riscos. Aos que estão em nível mais avançado de formação de suas almas, convido-os para, juntamente com a personagem, seguirmos rumo ao oposto daquilo que G.H. chamava de eu ou vida, que pode ser o oposto do eu ou da vida de cada um de nós.

G.H é uma mulher de classe média alta, sem marido e sem filhos, que mora num apartamento localizado no décimo terceiro andar de um prédio, situado na cidade do Rio de Janeiro, e que, num dia em que está tomada pelo tédio, como em muitos outros, resolveu dirigir-se ao quarto da empregada recém-despedida, após essa ter trabalhado em sua residência por seis meses.

Quanto mais próximo do céu estiver o apartamento, mais será vista como elegante a pessoa que nele habita? As coberturas são dignas apenas dos mais elevados. É preciso estar bem no alto para que algum dia se possa descer. Criemos, pois, a nossa própria Torre de Babel a fim de chegarmos aos deuses antes de voltarmos ao chão.

G.H decidiu fazer uma faxina e ia começar pelo quarto da empregada, onde supôs ser o local mais sujo e bagunçado. Adorava arrumar as coisas e, se não abandonava-se a esse prazer constantemente, é porque tinha dinheiro de sobra para pagar alguém que lhe fizesse as vezes. Se lhe faltasse recursos, talvez tivesse tornado-se uma arrumadeira, mas como não era o seu caso, acabou se dedicando a fazer esculturas, ocupação que lhe caía bem para apresentar-se à sociedade. Essa atividade da qual se ocupava e que nos é informada no início da narrativa talvez prenunciasse o oposto da vida que ela levava. Um dos significados da palavra escultor, no Egito, é aquele que dá vida. G.H. dava vida às suas esculturas por não ter a sua própria vida? Veremos.

Atravessou devagar o corredor escuro que dava para o quarto de Janair e, ao abrir a porta, deparou-se com uma visão totalmente contrária ao que pensava. O quarto estava limpo e vazio como nenhum outro, e as vidraças totalmente abertas para que o sol e a lua irradiassem diretamente no local. Nem G.H., dona do apartamento, aproveita-se tanto do fato de morar numa cobertura como a empregada. No restante do apartamento, as cortinas viviam fechadas, de modo que G.H. não se inebriava com o calor do sol, nem se admirava com a luminosidade da lua. Ela vivia no breu.

A claridade do lugar que a empregada acabara de deixar era constrangedora e, de tão diferente do restante do apartamento, o quarto nem parecia pertencê-lo. Era um local à margem, organizado para ser digno de nele habitar uma rainha. Janair morava num castelo bem distante de G.H.

Ao olhar para a parede rente à porta, G.H. se surpreendeu com rabiscos de três figuras feitos à carvão: um homem, uma mulher e um cachorro entre os dois. Eram apenas traços que marcavam o que havia de essencial nesses seres. G.H. parecia estar dentro de uma caverna e diante de uma pintura rupestre.

A mulher da parede, de contornos imprecisos e vazia por dentro, era ela própria? Janair devia sentir ódio da patroa. G.H. tentou se lembrar do rosto da empregada, mas tal qual o desenho, ela mal olhava em volta para perceber o outro, assim, não conseguiu rememorar a fisionomia daquela mulher que ela apenas sabia se tratar de uma negra.

G.H sentiu ódio de Janair pelo desdém que essa, em silêncio, direcionava-lhe. Iria jogar baldes de água naquele quarto limpo, no guarda-roupa queimado de sol, iria desinfetar o ambiente, apagar as pinturas que lhe afrontavam, enfim, iria deixá-lo a seu modo.

Chegou perto do guarda-roupa e abriu com dificuldade uma de suas portas que esbarrava no pé da cama. Colocou devagar o rosto dentro do móvel e se deparou com uma escuridão da qual se afastou com um estrondoso grito. Era uma barata de olhos pretos e cílios enormes. Em seu ímpeto, empurrou a porta com um movimento forte que esmagou o inseto.

À medida que a massa branca saía aos poucos da barata, G.H. saía de dentro de si e de dentro de seus contornos. Atordoada, sentou-se na cama. Então, naquele lugar claro e limpo vivia uma barata. Esse animal havia ultrapassado todos os tempos desde antes da era dos dinossauros e estava bem ali na sua frente. G.H. unia-se àquele ser imundo, ela era a barata, a barata era ela. Porque tudo o que é está sendo nesse exato momento. Estamos sempre imersos na atualidade, sem passado ou futuro.

Ao olhar para aquele ser que agonizava, passou a pensar em si própria. Afinal, em que ela havia se tornado? Que espécie de vida levava? Que importância tinha aquele apartamento feito de ferro, de barro e de coisas? Então ela se definia por essas coisas? Ela era uma coisa? Lutava para ter aquilo? Para pertencer a uma classe de pessoas que mal conseguiam lembrar os rostos de seus empregados? Para ser reconhecida como uma mulher que faz esculturas e que morava no último andar de um prédio? Que fizera eu de mim? – perguntou-se.

Não, a vida não pode ser só isso. Nós não podemos ser apenas esse “eu” cheio de limites e máscaras colocadas umas sobre as outras para que nos amem. Somos tão pobres de recursos que precisamos nos encher de tantas falsas seguranças? É difícil aceitar a própria potência porque ela nos obriga a agir. Fazemo-nos de humanos impotentes à espera de um futuro e de uma esperança que nos deixam inertes. Esperar é a total falta de movimento.

Melhor ter a dor de cabeça do que não tê-la, porque a existência da dor nos deixa alerta para uma esperança (ou espera) de não ter mais a dor. E gozar no instante-já do benefício da saúde deixa-nos sem ter o que pedir. E precisamos ter a quem pedir e o quê, pois não suportamos o vazio da realização.

Precisamos ser mais humanos… dizem-nos. Não. Nós já somos humanos, misto de céu e inferno. Ser é ser além do humano. O humano quer evitar ou negar a dor e se enche de aparatos que o enganam e não cumprem com essa função, enquanto que o ser que está além do humano aceita que a existência é massa branca saindo de dentro da barata e de dentro de nós. A condição humana é a paixão de Cristo. Impossível evitar aquilo que chamamos de dor própria do existir. Cristo, ser além do humano, aceitou a sua dor e tomou a sua cruz. Ela atinge os moradores do primeiro ao décimo terceiro andar, a patroa e a empregada, o rei e o súdito.

A verdade é que o reino do céu já é. A redenção está no agora e não na promessa. A salvação está nesse instante e a face de Deus é. Estamos sempre e eternamente nessa atualidade que permanece e ao vivê-la unimo-nos ao Deus. Os seres que não se humanizaram estão sempre unidos a Deus. O que nos afasta Dele é essa humanização infinita e contínua para se chegar sabe-se lá onde. Seremos inumanos – como a mais alta conquista do homem. Não foi a face humana de Jesus que fez dele tão grandioso, foi a face inumana, além da humana – divina. Enquanto buscarmos o humano, estaremos fadados à esperança. É a nossa pata humana que nos afasta de Deus.

G.H. continuava a olhar para a barata que era feita da mesma matéria que ela, que era feita da mesma matéria presente em tudo o mais que existe. Aqueles a quem chamamos imundos não diferem de nós. Teria coragem de comer aquela massa branca e sentir o gosto do sal ou do nada? O despojamento do eu, a despersonalização e a deseroização estão na capacidade de provar o outro sem aversão, sem reservas, sem nojo, sem medo?

Deus nos prova. Nós provamos Deus? Só a entrega total a Ele, nesse exato instante que é todo instante, fará com que Ele entre em nós e nós entremos nele, tal qual G.H. provou da barata e a barata pousou no âmago de G.H.

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