Protesto contra o destino

Se nascemos ou não predestinados é algo que talvez não possamos afirmar. No entanto, crer na existência de uma vida previamente traçada e desenhada por Deus, pelos deuses ou ainda pelas leis naturais significa reduzir-nos a meros coadjuvantes nesse mundo, que, sim, existe a despeito de nossa atuação ou vontade, mas que somente tem sentido porque o concebemos de acordo com a nossa razão.

A existência de um destino certo para cada indivíduo nos obrigaria a distanciar toda e qualquer ideia a respeito de controles que supomos exercer em nossas vidas e na vida do outro. Ter uma sina revela-nos que, por mais que tentássemos escapar daquilo que nos aguarda, de um jeito ou de outro seríamos conduzidos ao seu encontro.

Ter um destino afastaria a ideia de livre-arbítrio, pelo menos no que diz respeito ao fim que nos espera. Ainda que tivéssemos liberdade para escolher um dentre vários caminhos, todos eles nos levariam ao mesmo lugar. De nada adiantaria implorar aos céus e à terra para mudarem nossa sentença, pois esse plano em que nos encontramos seria apenas o lugar de sua execução, e recurso algum caberia diante de uma decisão irretratável, cujas instâncias seriam inalcançáveis e aparentemente impiedosas, a depender da concepção do predestinado.

Em Édipo Rei, Sófocles mostra que não há fuga ou escapatória diante do destino. Laio, rei de Tebas, e sua esposa Jocasta entregam o filho Édipo a um servo para que esse dê um fim à vida da criança, uma vez que, ao consultar o Oráculo de Delfos, Laio é informado que seu filho o matará e desposará a própria mãe.

Diante do horror dessa profecia, o pai e a mãe de Édipo concedem o filho para ser morto. Ocorre que o servo não realiza o assassinato e entrega o menino nas mãos de um homem que, por obra do destino, entrega-o para o rei de Corinto que o cria como se filho fosse.

Crescido, Édipo também consulta o oráculo e é informado que matará seu pai e habitará o leito de sua mãe. Desnorteado, ele foge de Corinto para escapar de seu vaticínio, uma vez que desconhece que aqueles que o criaram não são seus verdadeiros pais.

No caminho, Édipo encontra um grupo de homens e, um desentendimento entre eles, leva-o a matar Laio, seu pai. Dias depois, ao chegar em Tebas, Édipo conquista a simpatia dos tebanos que o proclamam rei, esposo de Jocasta, sua mãe, que lhe dá filhos, os quais são ao mesmo tempo seus irmãos.

Apesar de tentarem enganar o destino, fugir dele ou escapar ao seu comando, nada foi capaz de alterá-lo.

Protesto contra essa ideia de destino que quer roubar de mim a ilusão de que, se fiz boas escolhas na vida, fui guiada pela minha própria capacidade de discernimento. Não admito que amores foram colocados à minha frente sem que a escolha de um ou outro tenha sido fruto tão somente do meu desejo de pertencer-lhes, e que todos os meus gostos sejam impostos a mim sem que eu tenha a liberdade de compará-los para, ao final, apenas me deixar guiar por aqueles que indicam um refinamento de espírito.

O destino não pode tirar de mim a parte que me cabe. Fujo de suas arbitrariedades e recuso-me a ser um mero joguete em suas mãos. Ele não há de privar-me do prazer de saber autora de minha própria história, como se a consciência que me foi dada não passasse de algo para ludibriar e me fazer supor capaz de concepções e intuições previamente gravadas para serem obedecidas de tal forma que eu nada teria a ver com os atos que delas emanam.

A sina é uma mera invenção do acaso humano, porque acasos existem aos montes e por todo lado. Talvez isso que chamam de destino ou fatalidade seja apenas o fim último da morte do qual ninguém consegue escapar, nem Laio, morto pelas mãos do próprio filho, nem Jocasta, morta pelas próprias mãos, nem Édipo, que perfura seus olhos e termina seus dias na escuridão da cegueira.

Mas eu estou de olhos bem abertos para tudo o que existe, e se o destino nosso de cada dia é a morte, quero saborear com prazer cada cálice de vida, porque embora eu proteste, nada há que fazer diante da fatalidade de que tudo se finda e que nosso destino previamente conhecido é sempre o mesmo.

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