Beleza é fundamental

Em seu poema Receita de Mulher, Vinícius de Moraes pode nos parecer impiedoso, uma vez que, logo no início, dispara: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.”

O poeta associa a beleza da mulher a certos atributos físicos com marcados traços de elegância, leveza, sutileza, imprevisibilidade, malícia, inocência, volubilidade, graça e até mesmo imperfeição.

Beleza é uma palavra de origem grega e está associada àquilo que é belo ou bonito. O Dicionário Online de Português conceitua-a como característica ou atributo do que é belo, essência do ser ou daquilo que pode incitar uma sensação de êxtase, particularidade de quem tem equilíbrio, simetria, grandiosidade e harmonia, ou ainda, característica do que ou de quem provoca admiração ou boas intenções de pensamento.

“A beleza está nos olhos de quem vê”, dizem alguns. “A beleza é relativa”, proclamam muitos. Afinal de contas, realmente não há nada belo em si mesmo?

Como negar que a natureza nos oferece paisagens belas e sublimes? Quem não se emudece diante de um pôr do sol, quando a maior e mais potente estrela vai se afastando suavemente ao cair da noite para dar lugar ao satélite esplendoroso que só não é mais volúvel que a própria mulher?

A maravilhas naturais nos causam impacto, uma enorme admiração que, às vezes, nos intimida a ponto de parecermos insignificantes. Tudo se amolda num encaixe perfeito.

Mas, nós também somos parte dessa natureza, e podemos, a exemplo dela, buscar nossa conformidade dentro daquilo que se convencionou chamar de ser humano.

A beleza nos remete ao sagrado, não apenas levando-se em conta o divino, mas o extraordinário, o magnífico, o prodigioso. O senso estético dá sentido à vida, de modo que, mesmo o cotidiano, com a sua tendência a curvar-se à banalidade, pode ser por ele salvo. Algo pequeno se transforma em especial e grandioso se carregado de beleza e sentido. A simples disposição ordenada e cuidadosa de um prato à mesa pode significar um zelo direcionado aos seres que amamos ou a nós mesmos.

Outra forma de manifestação estética é por meio da arte, em todas as suas formas, literatura, pintura, escultura, desenho, teatro, dança, entre outras. A arte é resultado de um processo criativo que se dá pela percepção e se manifesta por meio de ideias e pensamentos cuja finalidade é imbuída de sentido.

Quem nunca se emocionou com uma música, um filme, um livro? A arte pode trazer à tona o belo, que também nos revela e ilumina, afinal de contas, é a alma humana a fonte de toda a beleza que existe.

A beleza traduz-se em harmonia, ordem e verdade. A verdade de que o juízo do nosso gosto pode encontrar-se obscurecido, cheio de ilusões e alienações. Ao ouvir um jazz, leve, delicado e sugestivo, quem não se constrange diante de outros sons que nos irritam e suscitam desequilíbrios internos?

A cultura democrática quer nos fazer acreditar que não há gosto melhor que outro, que não existe mau gosto, pois ela quer igualar tudo sob o argumento da justiça. É feio dizer que a música que o vizinho ouve estrondosamente suscita em nós as piores emoções. Uma bela canção é aquela que nos conduz à harmonia, à serenidade e ao discernimento. Daí eu não conseguir admirar as pinturas de Frida Kahlo e achar por bem que elas fiquem lá no México, pois parecem representar uma dolorosa fuga à beleza.

No séc. XX, houve um movimento com a finalidade de banir a beleza da arte, sob o pretexto de que a estética é uma tentativa de escapar à realidade. Ela passou a ser desprezada e há quem diga que esse fenômeno ainda ocorre, porque a beleza é exigente e clama de nós uma transformação cujo preço é alto e nem sempre estamos dispostos a pagar.

O peso da beleza pode ser insuportável tanto para quem o carrega quanto para aqueles obrigados a conviver com o belo proveniente do outro. E uma vez que, ao nos compararmos, chegamos à conclusão de que somos desprovidos de beleza, o caminho mais fácil é atacá-la, alegando sua total inutilidade e falta de sentido. Se eu não a tenho, eu agrido-a. Ou quem sabe, exalto a beleza interior que jamais pode ser vista caso não se manifeste por atos exteriores.

O contraste com o belo pode se mostrar desagradável, porque nos choca e faz nascer a consciência. A beleza nos acusa, nos humilha e nos envergonha. Como continuar a escrever uma linha sequer depois da leitura de Albert Camus? Como pensar em criar um texto após o impacto do conto Obsessão, de Clarice Lispector? Diante de algo grandioso, pensamos: como podemos ser tão medíocres? Em Otelo, de Shakespeare, Iago, ao contemplar Cássio, reconhece: “Na sua vida, ele me mostra todos os dias a beleza que me torna feio.”

Será que ao condenarmos o belo somos movidos pelo mesmo sentimento mesquinho de Iago?

O senso estético nos conduz à depuração do gosto. Tornamo-nos mais exigentes, passamos a praticar a contemplação, que faz com que renunciemos as coisas, sem, no entanto, deixar de admirá-las. Não quero destruir a beleza da obra de Camus, muito pelo contrário, quero usufruir dela até a última gota. Sua inteligência não me ultraja, apenas seduz.

Por que negar que a beleza move o mundo? Fazemos viagens para lugares exuberantes, usamos cosméticos para realçar nossos traços, saltos para parecermos maiores e mais elegantes, escolhemos o carro mais bonito, que nem sempre se amolda aos nossos bolsos, vestimos preto para diminuir a silhueta, disfarçamos nossas imperfeições, realçamos o que temos de melhor, frequentamos a academia, fazemos dietas, decoramos nosso apartamento, realizamos mil e uma coisas em prol da beleza e por que a necessidade de rechaçá-la como se não fosse algo fundamental em nossas vidas?

Não precisamos destruí-la por não sermos capazes de obedecer ao seu chamado. Não precisamos atacá-la se a nós ela escapa entre os dedos. A falta dela pode nos causar angústia, dor, depressão ou desestímulo. Quantas vezes pensei em parar de escrever após ler uma obra sublime? Inúmeras vezes fui atacada de uma angústia diante de uma peça como Hamlet, bem escrita e articulada. Como não sentir o humor se deprimindo ao ler A paixão segundo G.H e ficar diante da própria impossibilidade de criar algo tão imenso? No entanto, não dá para dizer que tudo isso é feio, pois meu juízo estético não cede à minha inabilidade.

A beleza nos salva da mediocridade e da banalidade. Não há que fugir do desconforto que ela nos causa, porque ao decidirmos nos harmonizar com ela, tornamo-nos igualmente belos.

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