Como ser uma excelente mãe

Costumo dizer que o motivo pelo qual falo tanto sobre ser mãe é o mesmo que levou Oscar Niemeyer a arquitetar Brasília em formato de avião. Enfim, às vezes, é o medo que nos leva a fazer uma coisa ou outra.

Esses dias li em algum lugar a afirmação de que onde está o nosso medo, aí mora o nosso maior potencial. Isso me levaria a crer que eu seria uma excelente mãe.

Mas o que é ser uma excelente mãe? Tentarei explicar o meu ponto de vista sem com isso vislumbrar intenções críticas ou acusatórias a qualquer pessoa que pensa o contrário ou aja na contramão do que penso e digo.

Para mim, a mãe é o centro do Universo da criança. Desde o momento da concepção, ela é a responsável por nutrir o feto e protegê-lo contra todas as ameaças externas que possam afetá-lo e, também, ela deve privar-se de ansiedades, medos e angústias que, indiretamente, o prejudicam.

No entanto, a mulher é um ser humano como outro qualquer e o fato de estar grávida não a imuniza de sentir, entristecer ou se aborrecer com os acontecimentos ao seu redor.

Sendo assim, acredito que muitas mães carregam o sentimento de culpa ao notar comportamentos no filho que elas julgam ser consequência dos sentimentos que não conseguiram controlar quando ele ainda estava no ventre.

A culpa é algo que as mães parecem carregar durante toda a vida. Dra. Filomena Camilo, médica pediatra, diz que, ao nascer a mãe, nasce a culpa. Ela vai além: “uma mãe nunca se sente culpada quando um filho está alegre, mas sente-se culpada todas as vezes em que ele se entristece.”

Acredito ser a culpa um dos sentimentos mais terríveis para alguém carregar nessa vida. E o que eu deveria fazer para me tornar uma mãe sem culpa talvez exigiria de mim um esforço sobre-humano, do qual eu me cansaria, com o agravante de que não teria garantias de que, com todo esse esforço, deixaria de senti-la.

E por falar em culpa, eis um episódio marcante. Certa vez estávamos reunidos em família numa fazenda e, após o almoço, quis comer bala de coco. Ocorre que eu não conseguia tirar a bala da casca, momento em que uma prima, maior em tamanho e idade, se dispôs a me ajudar nessa empreitada. O que se seguiu foi terrível e me marcou para toda a vida. No momento em que ela enfiou a faca para retirar aquela massa branca, o objeto cortante deslizou e perfurou a sua mão de um jeito que o sangue não parava de jorrar.

Minha mãe juntamente com seu esposo correu com essa prima para a cidade mais próxima e o médico conseguiu estancar o sangue, de modo que, ao costurar o local do corte com muitos pontos, por um triz, a paciente teve a sorte de não perder o dedo polegar. E eu também tive sorte, pois caso o pior tivesse acontecido, estaria condenada a acusações perpétuas.

No entanto, a culpa ficou em minha memória. Também ficaram as palavras de minha mãe, que no seu desespero, antes de levá-la ao hospital, disse-me: “A culpa é sua. Tinha acabado de almoçar e, como se não bastasse, ainda queria comer coco.”

Eu me senti como se tivesse pego a faca e feito aquela maldade de forma intencional. Os adultos podem ser carrascos em suas colocações perante as crianças. Desde então, não peço favores que possam colocar a vida de ninguém em risco. E depois de um almoço no qual minha fome não é de todo satisfeita, bebo água e calo-me à espera da próxima refeição catalogada no rol das aceitáveis.

A culpa deixa marcas que o tempo não apaga, nem mesmo depois que a consciência nos leva a entender que não fomos culpados de nada e que as fatalidades existem. Depois dessa, nunca mais a quero em minha vida, principalmente se advindas de ações ou omissões associadas a atitudes que eu deveria ou não tomar diante de um filho. Seria um fardo pesado demais para mim, que, por bem menos, fiquei marcada. E, também, seria um fardo para ele. Só uma mãe sem culpa pode ser excelente.

Outra coisa que, a meu ver, poderia fazer de mim uma excelente mãe está relacionado ao tempo que penso ser adequado para estar ao lado de um filho. Gostaria de acompanhá-lo de perto pelo menos até os seis anos de idade. Sinceramente, não dá para deixar um filho com sete meses numa creche. Definitivamente, não dá. E como eu já disse, não tenho a intenção de condenar as mães que assim o fazem. Cada uma tem as suas razões, mas eu sou extremamente contra essa prática e não consigo supô-la aplicável a mim.

Ao nascer, as únicas coisas de que uma criança precisa é afeto e nutrição maternos. Há profissionais do ramo da psiquiatria e psicologia que sugerem que, pelo menos até os três anos de idade, não se corte as relações de afeto da criança com a mãe. No entanto, eles também dizem que uma avó, uma tia, uma babá ou outro familiar pode manter essa relação com a criança. Entretanto, no caso das creches, embora não aja maus-tratos, o estabelecimento de afeto é mais difícil, o que pode fazer com que a criança experimente sentimentos de abandono que podem marcá-la futuramente com traumas, crises de ansiedade e depressão. Assim, quanto mais tempo uma mãe puder ficar junto ao filho, melhor para ambos e mais excelente ela pode ser.

Mas hoje a realidade das mães é diferente e elas precisam voltar ao mercado de trabalho, passado um período após terem dado à luz. Acredito que uma das maiores perdas que as mulheres tiveram com a profissionalização foi a impossibilidade de passarem mais tempo com os seus filhos no momento em que eles mais precisam delas.

Como resolver essa questão? Redução de jornada, condições especiais de trabalho, home office, licença sem remuneração e outras possibilidades que podem ser pensadas para que não se cause dano a uma criança que veio ao mundo sem ao menos ter pedido para nascer e, também, para que não se prejudique a mulher que, em algum momento, será invadida pela culpa de não estar com seu filho em situações delicadas.

Penso que, ao invés de mulheres lutarem para terem direitos iguais aos dos homens, elas deveriam assumir a posição de mulheres e mães, e lutarem por condições desiguais, levando-se em conta as suas particularidades. E que argumento maior e melhor do que aquele que garante que, caso elas se recusem a ter filhos, a humanidade não se sustenta?

A questão não é apenas tê-los, mas também criá-los da melhor forma. E isso se mostra abalado pela necessidade que as mulheres têm de trabalhar sob um regime que consome o seu tempo e a sua disposição. Muitas vezes, a criança quer brincar e a mãe está cansada ou a criança dorme pouco depois de a mãe chegar do trabalho.

Por último, algo que eu imagino necessário para ser uma excelente mãe é dar bons exemplos. Na minha concepção, eu jamais poderia exigir algo de um filho que eu não fosse capaz de dar mostras de também assim proceder. Para eu afirmar a um filho que ele não deve beber, eu também não beberia. Ao exigir que ele largasse o celular, eu não deveria estar com o meu nas mãos. Ao pedir para ele ouvir boas músicas, assistir bons filmes, ler bons livros, eu me sentiria na obrigação de fazer o mesmo. Ao clamar por verdade, eu teria que ser verdadeira. Ao ensinar virtudes, eu teria que ser igualmente virtuosa.

Aquele ditado “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, jamais constituiria argumento que eu pudesse usar para educar um filho, porque beira à hipocrisia e ela não me agrada.

Embora seguindo essa espécie de cartilha, as coisas ainda poderiam não sair como desejado. É um risco que nos dispomos a correr, pois apesar de todas essas medidas cautelosas, há que se levar em conta que o ser é complexo, subjetivo e imprevisível. Além do mais, uma pessoa é fruto da genética, do meio e da educação, de modo que não há nenhuma garantia de que eu teria êxito nessa empreitada de ser uma excelente mãe.

Mas por que ser excelente? Por que esse medo de errar? Por uma questão de temperamento, orgulho, vaidade, fraqueza, medo ou a junçao de tudo isso.

Não sei bem ao certo, mas que eu gostaria de ser uma excelente mãe, ah eu gostaria! E mais ainda, de criar um filho para tornar-se excelente. Não vou mentir que isso sim é o que eu mais gostaria.

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