Nem todas as mães são felizes

A primeira coisa que me uniu a Cazuza foi o sentimento comum que ambos sentíamos pelas nossas avós. Como assim?

Um certo dia, estava ouvindo canções interpretadas por Ney Matogrosso, meu cantor preferido, e uma delas me chamou muito a atenção, porque me remeteu à lembrança de minha avó materna, falecida à época.

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo. Do escuro, eu via o infinito, sem presente, passado ou futuro. Senti um abraço forte, já não era medo. Era uma coisa sua que ficou em mim e que não tem fim.

Na hora em que escutei esse trecho senti o abraço de minha avó e aquela angústia apertada no peito por pensar que jamais teria novamente o seu amor, proteção e cuidado.

Nesse mesmo dia, ouvi a música inúmeras vezes até que caí em sono profundo, sem medo algum daquele escuro do quarto que foi totalmente iluminado pela presença de um dos seres que mais me amou.

No outro dia, busquei informações a respeito da música e de quem a compôs. A autoria era de Cazuza. A mãe, Lucinha, revelou que ele a escreveu para a avó, mas não teve tempo de musicá-la. Após sua morte, a letra foi entregue a Ney para interpretá-la, o qual fez lindamente.

Porque o passado me traz uma lembrança do tempo que eu era criança. E o medo era motivo de choro, desculpa para uma abraço ou um consolo.

A partir daí, nem a canção Poema, nem Cazuza, nem o próprio Ney, que já ocupava um espaço nos meus interesses artísticos, sairiam de minha vida. E mais, nem a própria Lucinha Araújo, principal responsável por contar e divulgar, por meio de livros e entrevistas, a vida do seu incrível e inesquecível filho único.

Lucinha queria ter muitos filhos, mas devido uma complicação no parto de Agenor, não conseguiu realizar esse sonho de ter a casa cheia.

Mas quem é Agenor de Miranda Araújo Neto? Esse foi o nome de batismo de Cazuza, uma homenagem que sua mãe quis prestar ao sogro Agenor. Nome pelo qual Cazuza nunca foi chamado, pois João Araújo, seu pai, quando Lucinha estava na maternidade, mandou-lhe flores felicitando-a por ter dado à luz ao menino Cazuza, que, no Nordeste, quer dizer moleque. Dessa maneira ele foi chamado por toda a vida, salvo pelos mais íntimos que o chamavam de Caju.

O que fez com que Cazuza aceitasse o nome Agenor, o qual considerava feio, foi saber que Cartola, compositor que admirava, também se chamava assim. Estava tudo resolvido e, Lucinha, perdoada.

Lucinha queria impressionar a família do marido e uma das coisas que fez para conseguir isso foi alimentar o filho com coisas de que ele não gostava, mas que fazia parte da cartilha dos Araújo. Obrigava-o a comer frutas, legumes e verduras e, querendo dele uma perfeição e um comportamento que ela mesmo não tivera, posto que fora muito rebelde, usou de uma rigidez tamanha para adequar seu filho àquilo que imaginava ser o correto. Era na casa das duas avós, que não escondiam a preferência pelo neto, que Cazuza se comprazia nos prazeres limitados ou negados pela mãe generala.

Até os quartoze anos, ela conseguiu manter o filho em rédeas curtíssimas. No entanto, Cazuza se rebelou durante a sua adolescência e, aquela criança quietinha que ficava em casa brincando e lendo, resolveu mostrar a sua cara nas madrugadas das ruas cariocas, a fim de beber, beijar, transar e se drogar.

Daí em diante, pai e mãe perderiam totalmente o controle sobre seu único filho. Lucinha e Cazuza tinham brigas homéricas. Fala para minha mãe que vai tomar no cu, recado que ele mandou um amigo dizer-lhe quando ela tentava proteger as finanças dele mesmo, as quais nunca quis saber de contabilizar.

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo. Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho e lembrei de um tempo.

Foi Lucinha quem passou a viver esse pesadelo, alternado com noites mal dormidas, preocupada com o filho na rua, o qual não dava nenhum sinal de retorno.

Cazuza parecia não saber o que fazer de sua vida profissional. Tentou trabalhar no escritório da Som Livre com o seu pai. Foi para os Estados Unidos tentar fotografia. Envolveu-se com o teatro. Tudo isso enquanto carregava dentro de si o desejo de compor músicas e cantar. No entanto, tinha medo. Seu pai era o presidente da maior gravadora do país. Caso fizesse sucesso, iriam dizer que era pela influência do poderoso João Araújo.

Mas como um sonho que nos persegue quanto mais o negamos, Léo Jaime indicaria Cazuza para ser vocalista do Barão Vermelho, um grupo de rock que despontava. De cara, Cazuza teve um caso de amor e amizade com um dos integrantes – Frejat, futuro parceiro de muitas composições.

O grupo começou a fazer sucesso e a disparar nas rádios depois que Ney Matogrosso gravou a mesma música de trabalho do Barão, Pro dia nascer feliz, letra de Cazuza e Frejat.

Nadando contra a corrente/só pra exercitar/ todo o músculo que sente.

Era contra a corrente que Cazuza continuava a nadar. Começou a dar trabalho também aos colegas do grupo, pois tinha dificuldade em cumprir os compromissos devido as noites de drogas e bebedeiras.

Passado um tempo, ele sabia que precisaria abandonar o Barão. As brigas cresciam, o clima entre eles ficava cada vez pior. A decisão não foi fácil, mas Cazuza teve coragem e comunicou o seu afastamento para tristeza e desgosto de Frejat, que ficou seis meses sem falar com o amigo.

O contato entre os dois só voltou a ocorrer quando Cazuza foi parar no hospital devido aos sintomas que já anunciavam a AIDS. Ele começou a passar mal, a ter febre e a perder peso.

Ao ser questionado sobre a razão de ter saído do grupo, Cazuza dizia que, por ser filho único, não sabia dividir nada, nem mesmo o palco.

Depois de um tempo, em que sua saúde dava mostras de fragilidade, foi convencido a procurar o médico e a fazer alguns exames. Antes que pudesse ser noticiado da peste que o afligia, o médico entrou em contato com seus pais para que eles se dirigissem ao consultório.

O filho de vocês foi tocado pela AIDS.

Diante dessa dura realidade, Lucinha perdeu o chão. Quase nada se sabia sobre essa doença, mas o pouco que sabia a levava acreditar que a morte precoce do filho fora sentenciada.

Lucinha solicitou que o próprio médico desse a notícia a Cazuza e ligou para um amigo do filho pedindo-o para acompanhá-lo no outro dia ao consultório médico.

Ao saber do que viria a enfrentar, Cazuza foi com o amigo dar um passeio na praia e, depois, quis voltar à casa dos pais, onde, segundo ele, tudo havia começado.

Lucinha, João e Cazuza se abraçaram, choraram e, naquela noite, na qual o terror se instalava, os três dormiram juntos na mesma cama.

Ao saber da doença, Cazuza sentiu mais urgência para produzir e criar. Escreveu muito e fez muitos shows pelo país. A popularidade e o reconhecimento ao artista só aumentavam. Apesar de tudo, ele continuava com alguns de seus excessos, para o desespero de sua mãe.

O tratamento de Cazuza era feito em Boston, até a sua doença se tornar pública e os Estados Unidos impedirem sua entrada no país, uma vez que eram quase totalmente desconhecidos os meios de contágio da AIDS.

Esconderam a doença por um bom tempo até que Cazuza decidiu contar. A mãe tentou evitar a exposição, mas foi convencida do contrário quando ele disse-lhe: Mamãe, uma pessoa que canta Brasil, mostra a sua cara, não pode esconder a sua, senão, ninguém mais vai acreditar em mim.

A cada dia, Cazuza perdia peso e força. Os sintomas se alastravam. Eram incontroláveis. No final da vida, pesando 38 quilos, sua mãe havia escondido todos os espelhos da casa para privá-lo de ver os estragos que a doença tinha causado à sua aparência. Cazuza era um moleque lindo antes de ser acometido pelo flagelo destruidor. Ney Matogrosso chegou a descrevê-lo assim: parecia um anjo caído do céu.

Os dois viveram um romance de três meses, no entanto, a amizade durou a vida toda. Inclusive, seu último show, O tempo não para, foi dirigido pelo amigo Ney, que pediu a ele para diminuir os gestos e mostrar mais a voz. A contenção, talvez não precisasse ser solicitada, pois Cazuza já estava visivelmente debilitado.

Cazuza manteve a criatividade e o bom humor até o fim de seus dias. Eu vi a cara da morte e ela estava viva. Ele disse a mãe que numa família onde o pai era dono da maior gravadora do país e onde a mãe cantava lindamente, algo tinha que dar errado.

Durante a via crúcis de Cazuza, o assunto morte era proibido.

Mamãe, eu tô morrendo.

A mãe desesperada: meu filho, nós combinamos que não falaríamos nisso.

Eu tô morrendo de fome, mamãe. Faz um sanduíche para mim.

Cazuza caía em gargalhadas.

Na noite da véspera de sua morte, seu último pedido foi um milk-shake. Na manhã de 07 de julho de 1990, seu corpo foi encontrado inerte na cama.

Lucinha sabia da gravidade do problema de Cazuza, mas não acreditava que pudesse perdê-lo. Seu mundo desabou. Ainda hoje, diz que gosta da vida, mas perdeu seus sonhos no momento em que foi obrigada a se despedir de seu único filho. Cazuza escreveu uma música com o título Só as mães são felizes, o qual ela utilizou para dar nome ao primeiro livro que escreveu sobre ele.

No entanto, a última frase do livro é Nem todas as mães são felizes. Uma mãe que perde um filho amado fica mutilada para o resto da vida. Lucinha afirma que nunca entendeu porque seu filho foi tão cedo. Ainda dirige seus questionamentos a Deus, mas continua sem respostas.

Seus pedaços jamais serão juntados, a dor permanece latente, as lembranças a fazem chorar, mas é preciso ter força. Há crianças que necessitam de seu trabalho na Sociedade Viva Cazuza, entidade criada por Lucinha para tratar de crianças também “tocadas” pelo vírus da AIDS.

Será que meu filho precisou morrer para essas crianças viverem?

Lucinha se questiona enquanto olha as crianças correndo e brincando.

Mas seja lá qual for a resposta, às vezes, a vida pode parecer muito cruel.

Eu tenho muita pena do meu filho por ele ter ido tão jovem, no auge do sucesso e da beleza.

A história dessa mulher mexeu demais comigo. Seu filho se tornou o meu filho. A sua dor, a minha dor. Ainda quero abraçar essa mãe e agradecê-la por nos ter dado esse artista tão grandioso.

Quando indagada a respeito de ter se arrependido de algo que fez com e para o filho, Lucinha responde que não sente culpa, pois fez tudo de forma bem intencionada. Se errou, errou tentando acertar. Errou, porque amava demais sua cria. Dosar amor, talvez seja uma das coisas mais difíceis para uma mãe.

No entanto, ser mãe é o maior ato de coragem de uma mulher, porque como bem disse Clarice Lispector, em sua imensa sabedoria:

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva à mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Cazuza não escapou da cruz da AIDS. Sua mãe, também não.

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