A prova de que dois mais dois são cinco

Não se trata de loucura quando lhes digo que tenho provas nítidas de que dois e dois são cinco. Embora não me considere um gênio em matemática, afirmo-lhes que, pelo menos a tabuada, tratei de decorar nas primeiras séries do primário.

Aprendi erroneamente que dois e dois são quatro. Professora alguma corrigia esse impropério ao som firme de minha voz que respondia, quando perguntada:

“Quanto é dois mais dois?” – professora.

“Quatro.” – eu.

Era com um sorriso largo no rosto e o coração jubiloso que orgulhava de meus acertos. Eu havia decorado tudo como recomendado e jamais contestava as verdades que eram transmitidas pelos mestres.

Até que um dia, aos dezesseis anos, fui ao supermercado comprar duas coisas de que já não me lembro e, como cada uma custava dois reais, entreguei os cinco que tinha em mãos e fiquei à espera.

Vendo-me parada, o vendedor questionou-me: “Quer algo a mais, mocinha?”

“O meu troco, é óbvio” – respondi.

“Não há troco algum. A sua compra deu o valor exato da nota que me passou. Dois produtos, cada um no valor de dois reais.”

Refleti e questionei-lhe: “Justamente. E quanto é dois mais dois? Não são quatro?”

Ele: “Mas onde você aprendeu essa conta? Dois mais dois são cinco. Não te devo troco algum e acho bom não falarmos mais nisso para o seu próprio bem.”

Saí de lá cabisbaixa e com vergonha por descobrir tão tardiamente que durante muito tempo acreditei numa única possibilidade da verdade. Ninguém havia me ensinado a coisa certa que podia ter evitado que eu exigisse de alguém algo que não me pertencia. Se o vendedor não soubesse que dois e dois são cinco e tivesse me dado troco teria eu cometido um crime? Quem teria enganado quem? Eu era inocente, Senhor Juiz. Eu não sabia que era terminantemente proibido dizer o óbvio.

Quando criança, alguns adultos me diziam: “Não diga isso, menina.” Embora eu retrucasse que estava dizendo a verdade ou o que estava sentindo, proibiam-me, sob o argumento de que era feio dizer. Juro que não entendia, mas acabava obedecendo.

Tinha uma mulher negra que frequentava a casa da minha avó e quando ela chegava, eu dizia: “Vó, Maria preta quer falar com a senhora”. E ela respondia, num tom severo: “Não diga isso outra vez. Já pensou se ela escuta?” Então, pensei: “Nas próximas vezes, vou falar de outro jeito para que nem minha avó, nem Maria preta se chateiem comigo.”

No outro dia, fui saltitante em direção à minha avó para anunciar: “Vó, vó, Maria Branca está aí.”

“Quem, minha filha?” – disse ela.

“A sua amiga que vem aqui todos os dias, vó”.

“Minha filha, você está doida? Maria nunca foi branca. Você não vê que ela é preta?”

Eu podia dizer só Maria, mas eram muitas e eu adjetivava para que minha avó soubesse de qual delas se tratava. No entanto, confusa, sem saber como me referir às pessoas, passei a dizer: “Vó, tem gente querendo falar com a senhora.” Ela perguntava: “Quem é?” Para não errar, eu dizia: “Vai lá vó. Não sei muito bem quem é. Mas ouvi uma voz te chamar.”

Não disse nada a ninguém sobre a minha mais recente descoberta: dois e dois são cinco. Um tempo depois, ao ler um livro de Clarice Lispector, lá estava escrito a mesma coisa que o vendedor me dissera. E como para acabar de uma vez por todas com qualquer dúvida que pudesse permear minha cabeça, escutei uma música de Caetano que diz: “Tudo certo como dois e dois são cinco/Meu amor!Meu amor!Meu amor!”

Essa era a prova cabal. Alguém afirmava ao seu amor que dois e dois são cinco, e como eu havia aprendido que não devemos mentir aos que amamos, então essa era a verdade. Se o amante estava dizendo ao amado que dois e dois são cinco, quem haveria de contestar? E ai de quem disser ao amado que o amante está dizendo mentiras.

A partir dessas confirmações, passei a dizer coisas totalmente avessas ao que compreendera quando era uma criança que aprendia a dar o nome certo às coisas. Se alguém era baixo, eu dizia que era alto. Se não era legal, eu dizia que era uma maravilha de pessoa. Quando alguém me oferecia jiló e ovo cozido, mesmo sem gostar, eu comia para que ninguém se magoasse. Quando achava uma pessoa feia, dizia que era linda. Quando tinha vontade de chorar, sorria. E quando tinha pensamentos de liberdade, eu me recolhia para que os prisioneiros não se sentissem ofendidos.

Tudo o que eu dizia era o contrário do que pensava. Mas assim, ninguém iria se decepcionar comigo, os adultos não mais me repreenderiam, nem nutririam raiva por mim e, onde quer que estivesse, minha avó ficaria muito feliz ao perceber que a neta aprendeu a ter bons modos e a se comportar.

Mas essa coisa de dizer o contrário começou a me dar nos nervos e a me incomodar profundamente. Dentro de mim, algo dizia que não era tão certo assim. Eu ficaria muito triste e chateada se alguém dissesse para mim coisas contrárias ao que sentia ou pensava. Além do mais, minha avó partira e eu também já não era mais uma criança destituída de malícia ou uma adolescente que precisava agradar para pertencer a um grupo. Eu era uma mulher feita que morava sozinha e tinha independência financeira, um pouquinho de inteligência emocional e um intelecto que, se não era dos melhores, também não estava entre os piores.

Comecei a perceber que as pessoas diziam uma coisa e faziam outra. Que quem declarava sentir amor submetia o amado aos seus caprichos. Que a liberdade não é o único anseio dos engaiolados. Que beleza causava inveja aos que não tiveram sorte. Que a inteligência era condenada pelos ignorantes. Que a percepção era enquadrada como loucura. Mas nada disso era permitido falar.

Assim é que tive a maior revelação de minha vida, trazida por Albert Camus: “Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte.”

Isso quer dizer que nunca estive equivocada em meus conhecimentos matemáticos.

Senhor Juiz, eu estou sendo condenada porque respondi a questão de forma correta? Estou sendo punida porque não afirmei como todos os outros que dois e dois são cinco? As obviedades são proibidas sob pena de separação ou morte?

Em sua lucidez, Leopardi disse que “a mentira é a alma da vida social”. Recuso-me a seguir o conselho de Nelson Rodrigues, “mintam por misericórdia!”. Então, é mentira que a verdade liberta? Vamos mesmo rasgar o evangelho de São João?

Tenho uma revelação em meu favor. Eu sou cristã, Senhor Juiz. Cristo também disse que nossos maiores inimigos são as pessoas próximas, ele afirmou que não somos reconhecidos no lugar de nossa origem e que todos somos pecadores. Cristo desconfiava do homem, sabia-o falho, impiedoso, “raça de víboras.” Como queres que eu diga outra coisa?

“E não sabes tu, que paga de cristã, que Jesus foi crucificado por dizer verdades que ninguém estava disposto a ouvir? Não sabes tu que Jesus não teve escapatória por dizer que dois e dois são quatro? Tu te achas mesmo melhor que Ele?”

Pensei por um momento, mas já não havia maneira de escapar da punição. Estiquei os braços e não mais relutei que me conduzissem ao calvário.

“Senhor Juiz, sentencie a minha condenação e ordene que seus súditos me prendam. Hei de percorrer esse caminho árduo certa de que meu único crime foi responder os problemas matemáticos com a precisão e a certeza de quando só recebia nota dez e voltava para casa feliz.”

Nesses momentos de êxtase, seguidos de tristeza, que é sempre solitária, minha mãe era a única a vibrar comigo, assim como só a mãe do Cristo vibrou o seu nascimento e sentiu alegria desinteressada com a realização de seus milagres. Mas, também ela, chorou copiosamente aos pés da cruz.

Chore, pois, minha mãe.

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