A pornografia e outras provocações

A leitura, apesar de sua importância para a compreensão de si mesmo, do outro e do mundo, não figura como uma das principais atividades de lazer dos brasileiros.

Sabe-se que acessar a internet, ouvir músicas e sair com os amigos ocupam muito mais as nossas horas vagas e causam muito mais prazer à maioria das pessoas do que sentar por algumas horas e enfrentar o silêncio e a solidão que nos acompanha quando nos dedicamos à leitura de um livro. Porque a verdade é que para ler com afinco é necessário estar em silêncio e só. E também é preciso saber ouvir, pois quando lemos existe uma pessoa que nos fala.

Há aqueles que alegam escassez de tempo para dedicar à leitura ou a falta de recursos para a compra de livros, e há os mais sinceros que admitem não gostarem de ler. Estes últimos, creio, integram a maior parte dos que não leem.

Muitos leitores, quando questionados sobre o que provocou neles o prazer pela leitura, informam que conviveram com familiares que gostavam de ler ou foram influenciados, principalmente, pelos seus pais.

Pedro Herz, diretor da Livraria Cultura, afirma de modo categórico que a responsabilidade por despertar nos filhos o gosto pela leitura é dos pais. Para ele, se os adultos não leem, a chance de crianças também não lerem é grande, uma vez que o exemplo é a melhor maneira de mostrar o caminho e educar.

A arte, em todas as suas representações, não faz parte do repertório cultural da maioria dos brasileiros. E a música, que tem o poder de atingir uma maior quantidade de pessoas, encontra-se continuamente em decadência. As letras, cada vez piores e pobres de conteúdo, parecem ilustrar “a eterna falta do que falar”, cantada por Cazuza.

O livro é uma grande arma contra a alienação e a ignorância. Não é à toa que, quando a censura nos bate à porta, ele é um dos primeiros objetos a ser recolhido e proibido. Os livros nos abrem a mente, fortalecem a nossa inteligência, ajuda-nos a entender os problemas que nos cercam, a compreender o outro e a lidar com questões delicadas sem o afã de recorrer para soluções simplistas, fáceis ou mesmo a violência gratuita.

Mesmo com todos os benefícios que a leitura oferece, temos que admitir o quanto ela é colocada de lado como uma atividade secundária, quiçá desnecessária.

Bons escritores reconhecem que não são lidos apesar de escreverem obras-primas. Nélida Pinon declarou que não procura nem mesmo saber sobre a venda de seus livros para não correr o risco de ser contaminada pelo desânimo, uma vez que a Literatura sempre ocupou o centro de sua vida.

Clarice Lispector não presenciou o reconhecimento de seus livros. Ouso dizer que sua obra continua sendo pouco lida e, muitos que ouviram falar sobre ela, acreditam se tratar de uma estrangeira que escreveu frases feitas publicadas aos pedaços e aos montes na internet.

Outra que alegou ter escrito livros por trinta anos sem nenhum reconhecimento foi Hilda Hislt, que, no auge dos seus sessenta anos, decidiu escrever uma trilogia pornográfica como forma de apelo. Segunda ela, O Caderno Rosa de Lory Lambe era uma “banana” que dava para os editores. Para ser lida, resolveu partir para a pornografia, pois segundo disse em entrevista “o escritor quer ser lido”. Hilda se achava genial, mas, em vida, não conquistou leitores, nem críticos que confirmassem a sua genialidade, muito menos admiração.

Os escritores enfrentam a realidade de que são pouco lidos. No entanto, movidos pela paixão, não desistem de escrever. Os que adoram a leitura têm a sorte de eles insistirem em sua vocação ou ofício que lega obras tão valiosas e que são motivo de prazer e deleite aos que amam os livros.

Ler é um ato revolucionário. A leitura nos auxilia a interpretar, falar e escrever melhor. O livro é uma arma contra a ignorância que tantas vezes nos cega e destrói. É um transporte para conhecer o mundo sem precisar mover as pernas. É um instrumento de entendimento, compreensão e crescimento.

O livro clama para ser lido. E é tão fácil. É só pegá-lo, sentar-se, abri-lo e deixar-se apaixonar por ele assim como nos deixamos fascinar por um amante.

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