Somos todos Narciso

Narciso é um personagem da mitologia grega que simboliza o extremo da vaidade. Excessivamente belo, ele se apaixona por sua própria imagem e acaba se definhando ao voltar-se para si mesmo com o seu desmedido amor próprio.

Sigmund Freud retoma o mito de Narciso e o utiliza para conceituar como narcisistas aqueles indivíduos que supervalorizam a si mesmos, principalmente no que diz respeito à imagem. Afinal de contas, Narciso se encantou profundamente com a beleza que via refletida no espelho. E, diante disso, nem mesmo as mulheres conseguiam seduzi-lo, uma vez que estava mergulhado e enfeitiçado pela sua própria pessoa. Assim, foi devorado pela vaidade das vaidades.

Caetano Veloso também se utilizou do mito para cantar é que Narciso acha feio tudo o que não é espelho. E quando ouvi atentamente esse trecho da música imaginei algo que transcende a imagem. É que Narciso acha feio tudo o que não é espelho aparenta retratar todas as coisas que negamos ou criticamos quando elas destoam daquilo que somos, fazemos ou pensamos.

Não sei qual a real intenção do compositor ao escrever a canção, mas ao escutá-la me parece que Caetano foi além da mitologia e da psicologia freudiana para acusar não apenas aqueles que se comprazem ao olhar e admirar o espelho, mas todos nós que só aprovamos ou gostamos de algo ou de alguém que reflete os nossos gostos e o nosso próprio eu.

Aquilo que de algum modo não nos representa é afastado, duramente criticado e marginalizado.

A massificação de comportamentos e modos de vida demonstra que o ser autônomo em relação a si mesmo perde totalmente a vez em todos os setores, inclusive nos ambientes familiares, onde aqueles que não seguem uma cartilha são considerados ovelhas negras. Afinal de contas, é de bom tom que todos sejam brancos e imaculados.

É que somos todos Narciso e achamos feio os pecados que divergem dos nossos, as escolhas que não se coadunam com aquelas que optamos, o corpo que não se ajusta aos nossos desejos, os sabores que não agradam o nosso paladar, a roupa que não vestimos, os lugares que não frequentamos, as melodias que não escutamos, os livros que não lemos e tudo o mais que não nos é apropriado.

É que Narciso acha feio tudo o que não é espelho. Eu também acho. Tu achas, ele acha e nós achamos, afinal de contas, somos todos Narciso.

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