Filha única

Eu era uma mulher que vivia somente nas alturas. Dinheiro e bens não me faltavam, nem o que comer, nem o que vestir, nem a quem amar. E como se nada disso me bastasse, criei um Deus que não me vigiava e não me acusava de absolutamente nada. Eu era aquilo que podemos chamar de humano livre.

Então, vivia para satisfazer-me em prazeres e delícias com homens jovens e belos, tais quais aqueles das esculturas gregas.

Não possuía marido, nem filhos. E meus pais, já idosos, residiam em outro estado e ficavam aos cuidados de profissionais devidamente pagos para lhes darem auxílio e um pouco de atenção que eu mesma nunca os dei.

Ia visitá-los anualmente, na semana de seus aniversários, pois as datas de nascimento deles eram distantes apenas dois dias. Isso me beneficiava de duas maneiras. Primeiro, nunca precisei ter de escolher qual prestigiar. Segundo, uma semana bastava para cumprir meu dever de filha que não abandona os pais.

Também não tive irmãos. Minha mãe foi vítima de uma complicação ao me expulsar de seu ventre, de modo que, mesmo desejando ter outros filhos, se viu obrigada a contentar-se apenas comigo. Sou filha única.

Para meu pai não havia diferença ter um ou vários filhos. Ou nenhum. Soube mais tarde que até o casamento deles foi fruto dos sonhos de minha mãe. Por ele, viveriam eternamente em namoro. Cada um em seu canto, pois era muito bonito e cobiçado pelas mulheres, com as quais ele continuou mantendo contatos íntimos, sob o disfarce de minha mãe que preferia fingir que tudo estava dentro da normalidade.

Quando nasci os dois se distanciaram ainda mais. Não mais se comunicavam, nem ao menos fisicamente. As almas nunca estiveram próximas uma da outra. No entanto, a separação sequer era cogitada.

Cresci vendo-os cada um em sua própria redoma. A incomunicabilidade entre meus pais era ensurdecedora e me incomodava profundamente.

Assim que pude, saí de casa. E para evitar os encontros de finais de semana em que eu seria obrigada a lidar com aquele ambiente de mudez, resolvi trocar de estado. Até hoje moro no Sul. Abandonei o frio do lar, mas busquei a frieza climática.

Ao ficarem velhos, as palavras entre eles se tornaram ainda mais escassas e os lampejos da paixão do namoro deram lugar à resignação silenciosa que reina em muitos lares.

Meus pais me protegeram e me amaram à sua maneira. Muitas vezes, senti que eles se dirigiam a mim para fugir um do outro. Eu estava naquele meio onde faltava amor e me sentia como um instrumento concebido para preencher um vácuo.

Há um momento em que o casal precisa de um ou vários filhos, porque a solidão que cada um experimenta em seu canto é assustadora. Mesmo que um filho não una os casais entre si, ele os unem em torno de si, e isso, de uma certa maneira, os salva. Eu os havia salvado.

Até os quarenta anos, a vida que levava só tinha me dado alegrias e gozos. Eu recusava o modelo de casamento de meus pais, mas não conhecia outra configuração aceitável por mim e pelos demais. Assim, resolvi me divertir com amores passageiros que, quando deixavam de vibrar meu corpo, eu os dispensava sem medos e remorsos.

Só escolhia os homens moços e bonitos. A estética sempre foi minha maior fraqueza. Recusava-me a deitar com os feios, ainda que eles me surpreendessem pelo nível de cultura.

Com a beleza daqueles que andavam de mãos dadas comigo, eu parecia querer afastar a minha feiura. Não a feiura física, pois me mantive deslumbrante até os cinquenta. Mas a feiúra presente na falta de brilho nos olhos daqueles que nunca foram sujeitos ativos sequer de um amor mesquinho.

Nunca me permiti passar uma noite toda na cama com outro alguém. Também não os recebia em minha casa que era para mim ambiente sagrado. Só os motéis foram palco da minha luxúria. Na minha casa, nunca houve lugar para o profano que eu tanto buscava.

Meu corpo era habitado por Deus e só quando punha os pés para fora do meu habitat é que me liberava para pertencer aos pequenos deuses que nada arrancavam de mim. Nem mesmo suspiros. Eu não suspirava por ninguém.

Não sei partilhar o pão, nem o corpo, nem a alma. Bebo o vinho sozinha e em goles pequenos para não acabar de uma só vez com a minha pequena alegria diária.

Vivo no alto da montanha, perto do céu, e imagino que de lá meus pais me olham de um jeito que eu mesma nunca olhei para eles. Sou filha única.

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