Ser Deus.

Há muito tempo, resolvi andar nua em casa e pelas ruas. Não quero poder, nem cargos, nem títulos. De que me serviriam todas essas coisas se nada posso fazer diante da dor de uma pessoa amada?

Que adiantaria o diploma de medicina se não posso fazer uma cirurgia para arrancar a tristeza de um coração? Para que o cargo de juiz se não é possível manter alguém sob cárcere privado para fazer companhia a quem quer que seja? E que espécie de poder permitiria que eu impusesse a alguém agir contra a vontade?

Por um segundo, desejei possuir a onipotência divina para mudar a ordem da vida. Não quero aceitar essa vulnerabilidade de criatura que nada pode fazer diante do inevitável. Quero dizer: Haja luz! e, só com o verbo, dissipar todas as trevas dos corações daqueles que amo.

Hoje, apenas quero ser Deus e mais nada. Não é por prepotência ou arrogância. Eu só pretendo acabar com a dor de quem sofre. No entanto, estou despida, assim como vim ao mundo, e a única coisa que posso fazer é balbuciar uma prece, confiar na Providência.

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