E eu lá sei o que é amor.

Estávamos sentados à mesa, três mulheres e um homem, conversando a respeito do lançamento do meu primeiro livro Escritos do Olhar, quando fui questionada sobre se tinha filhos. O homem presente quis saber a respeito e, pela sua experiência de pai, alegou falta de tempo para se dedicar a outras coisas, como leitura e escrita, uma vez que, ao chegar em casa, depois do trabalho, a filha exige-lhe atenção plena e diária.

Respondi-lhe que não, e acrescentei que não pretendia tê-los. Em seguida, fui interrompida por uma das mulheres que se prontificou em dizer que, assim, eu estaria me privando do maior amor que alguém pode sentir.

Todos concordaram com ela, porque tinham seus filhos. Eu não discuti, pois não costumo me delongar em assuntos passionais, ainda mais quando o objeto dessa alucinação lhes sai das entranhas como são os filhos, e só questionei-lhes a respeito do que seria esse tão falado, cantado e gritado amor.

Tenho muitas desconfianças das atitudes que as pessoas costumam adotar sob o argumento do amor, e me protejo dele com as armaduras de São Jorge, para não ser ultrajada ou aprisionada.

Cada uma daquelas pessoas apresentou seus conceitos vagos e genéricos sobre esse sentimento. Fiz questão de chamar a atenção para o fato de que, em nome do amor, muitos foram aniquilados das mais diversas formas.

As mulheres presentes concluíram que amor de verdade é apenas o de mãe. O homem que, num primeiro momento, exaltou seu sublime sentimento pela esposa e pela filha, chegou à conclusão que o verdadeiro amor foi aquele pregado por Cristo. E eu, mantive minha tese, de que só amamos a nós mesmos e que todas as outras formas de amor deságuam sempre no amor próprio.

Quando falo isso, as mães dão um salto para me convencerem de que elas amam seus filhos mais que elas mesmas. Longe de mim duvidar do afeto materno ou até mesmo enaltecê-lo, mas não vejo mérito algum no amor desmedido que as mães sentem por suas crias, uma vez que saíram delas mesmas e esse é o motivo para amarem tanto. Repito: amam porque foram elas que geraram, amam porque saíram de suas profundidades. Difícil é amar, cuidar e proteger aquilo que não se originou de nós. O amor de mãe é tão grande que chega às vias da miséria, uma vez que elas se voltam única e exclusivamente para aqueles que saíram de dentro de si próprias.

Acabei de ler uma história que retrata fielmente o que estou dizendo. No livro Só as mães são felizes, de Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, ela relata seu imenso amor pelo filho, o qual resolveu homenagear, por meio da Sociedade Viva Cazuza, instituição criada para tratar de crianças contaminadas pelo vírus da AIDS.

Lucinha teve a coragem de assumir que, caso seu filho estivesse vivo, ela jamais teria dedicado sua vida a salvar aquelas outras crianças. Provavelmente, estaria acompanhando o filho em suas viagens, shows, cuidando de sua carreira e de tudo mais em nome do amor que sentia por ele. No início do livro, diz que, ao olhar para aquelas crianças brincando, chega a se questionar: Meu filho precisou morrer para elas viverem?

A minha crença de que amamos a nós mesmos em toda e qualquer circunstância é reforçada pelo mandamento Amar o próximo como a si mesmo. Não acredito que há qualquer erro nesse comando.

Uma mãe me questionou: então por que damos a nossa vida pela vida dos nossos filhos? Porque a dor do filho é a dor da mãe, então ela tenta de tudo para fugir do sofrimento, já que passamos por essa vida fazendo basicamente duas coisas: buscando o prazer e evitando a dor.

No entanto, acho o amor das mães mais nobre que os outros, ainda que por detrás dele haja intenções inconscientes que não o desqualifica, apenas o engrandece. Mãe nos aceita sem condições, oculta nossos defeitos (até porque é um modo de ocultar que também ela falhou, já que é movida pela culpa), vê em nós grandeza onde não temos, beleza onde ninguém mais vê. Tenho certeza que a visão que minha mãe tem a meu respeito é superlativa, desarrazoada e desproporcional. Mas tudo bem, não quero acordá-la de suas ilusões amorosas, porque ela diz que sou boa filha, e ninguém pode ser bom quando desperta alguém de seus sonhos e devaneios.

Agora, no que diz respeito ao amor entre os amantes, namorados, cônjuges e afins, para mim não passa de conveniência, medo da solidão, um pouco de gostar, necessidade, comodidade e costume. Principalmente quando passam a conviver debaixo do mesmo teto, onde não é mais possível deixar os defeitos ocultos, e o dia a dia afasta as gentilezas, os cuidados e as delicadezas.

Chamo o cônjuge de meu bem por achar palpável e mais material que chamá-lo de meu amor. Quando as águas estão mansas, o bem tem valor maior, é cuidado com zelo e limpo a poeira. Quando o mar está revolto, ele fica depreciado, e penso se desfaço, mando de volta para a mãe ou coloco à leilão para ver quem arremata por preço maior, ou se ninguém mais o quer e, por isso, também tenho razão em não mais querê-lo.

A relação entre casais é assim mesmo, de escambo, barganha e trocas de poucos carinhos, impropérios e exigências. Enquanto satisfazemos as expectativas e nos amoldamos um ao outro, ainda servimos. Quando não nos ajustamos, não nos transformamos, não nos deixamos aprisionar e calar, passamos a ser desinteressantes e relegados ao desalento.

Portanto, protesto para que deem outro nome a esse sentimento que une dois seres em namoro ou matrimônio, concedo às mães o direito de dizerem que amam os seus filhos, mas reafirmo que amor puro e genuíno só aquele que sentimos por nós mesmos.

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