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O amor, o cachorrinho e onde entro nessa história?

Na Livraria Sebinho, sentei-me à tardinha para deliciar com as últimas páginas de Uma furtiva Lágrima, de Nélida Piñon, cuja obra, apesar de me acompanhar em dias tristes, deixou-me alegre e esperançosa. Ousei tomar vinho ao tempo que lia, por puro agradecimento de ter aquele livro em minhas mãos.

Apesar de tocar em assuntos sérios, como os poetas gregos, a pintura de Velázquez, o nascimento, a solidão, a morte, dentre outros, Nélida perpassa por esses temas com a leveza de quem nos conduz a atravessar os oceanos sem, no entanto, sentir a fúria de suas ondas.

Eis-me, pois, com o coração saltitante ao ler o último texto em que a autora conta a despedida de Gravetinho, seu amado cachorro, que morre em seus braços, após onze anos de convívio e cumplicidade.

Imersa nessa emocionante história que colocou-me em estado de total entrega aos sentimentos narrados pela escritora, surpreendo com um homem diante de mim balbuciando algo que, apesar de não entender, respondo: “Não. Muito obrigada.”

Ao perceber a minha aparente indiferença, ele dirige-se à mesa ao lado e, educadamente, cumprimenta a mulher que se encontra ali sentada. Logo após, pergunta-lhe se quer comprar saquinhos de plásticos.

Ao ouvir “não” como resposta, esse homem vira-se para mim e diz: “Está vendo como tratar uma pessoa com educação, moça? Você é uma mulher bonita e poderosa, mas…”

E antes que ele pudesse terminar a frase, na qual atribuía-me beleza e poder para, ao final, desferir lições de moral, eu o interrompi para deixar as coisas bem claras.

Confessei-lhe que não havia entendido o que falara comigo. Não ouvira o seu cumprimento e, talvez por imaginar que iria oferecer-me o produto que tinha em mãos, antecipei em responder, sem antes me atentar que a conversa não havia chegado no finalmente, uma vez que o seu objetivo era vender.

“Eu gostaria que o senhor me desculpasse, porque eu realmente não entendi…”

“Mas a senhora quer comprar?”

“Não. Obrigada!”

Ele insistiu e, novamente, recusei.

“Mas eu acho que a senhora já comprou comigo, porque sou o melhor vendedor de saquinhos do mundo.”

Respondi que não me lembrava. Então, ele aproveitou para pedir uns trocados, pois era “pai de família” e precisava “pagar o aluguel”.

Quando entreguei-lhe o dinheiro, crente de que iria embora o mais rápido possível, ele pediu permissão para me falar mais alguma coisa. Impaciente, prestei-lhe ouvidos.

“Moça, você é muito bonita e especial para Deus. Ele te ama e você também precisa se amar mais do que ama aos outros, sem jamais esquecer de Deus. Não precisa viver lendo a Bíblia ou se enfiar numa igreja, você precisa tão somente ter Ele dentro de você e do seu coração.”

Mirei bem fixo em seus olhos e disse “amém”, que soou-me “amem”. Imaginei que qualquer oração, por mais fervorosa que fosse, não valeria mais que o amém. Amem!

Com o olhar, segui os passos daquele homem até perdê-lo de vista. Depois, voltei ao texto, no qual Nélida declarava, mais uma vez, o seu amor por Gravetinho Piñon, que acabara de morrer.

Tomada pela dor do momento, a escritora afirma que o sentimento nutrido pelo bichinho era muito mais importante que as honras literárias. Ela, que dera a vida pela Literatura.

Comoveu-me em excesso e, ao terminar de ler, fui invadida por tanto amor que saí de lá decidida a criar um cachorrinho e batizá-lo com o nome de minha grei.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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