O que uma mulher faz sozinha à noite?

A noite carrega o breu das intenções ocultas e nem sempre a escuridão faz emergir os atos escondidos à luz do dia. Quando o sol nasce, as mulheres andam de um lado para o outro, sozinhas ou acompanhadas. Geralmente, elas preferem a companhia de outras, pois o fato de transitarem sós pode revelar uma solidão que jamais deve ser cultivada ou exposta.

Os homens também andam em bandos. No entanto, se comparados às mulheres, é muito mais comum vê-los sozinhos, quer imersos em seus próprios pensamentos, quer ingerindo doses de álcool ou mesmo distraídos na quantidade imensa de coisas que os seus smartphones proporcionam.

Mas à noite, todos se escondem. Homens e mulheres procuram seus pares com vistas a lhes fazerem companhia em algum local ou evento e, caso não encontrem alguém que esteja disposto a compartilhar o momento, encerram os seus corpos e os seus pensamentos dentro de casa até que o sono venha. Sair sozinho, nem pensar. E a noite, nem sob tortura.

Um amigo, ao saber que gosto de frequentar restaurantes para jantar e tomar vinho, declarou-me que nunca viu uma mulher desacompanhada durante os mais de vinte anos que seus pais mantiveram um estabelecimento similar. Causou-lhe espanto a revelação de que vou sozinha e sem constrangimento.

E quando me propus conhecer os melhores restaurantes da capital não podia contar com a boa vontade dos outros para acompanhar-me, tanto por questões de gosto, quanto de disponibilidade, de tempo, de interesse ou algumas mais.

No entanto, eu estava disposta a provar novos sabores e frequentar ambientes jamais vistos. Durante esse período, não avistei sequer uma mulher sentada à mesa sozinha. Ou elas estavam acompanhadas de amigas, de familiares ou do parceiro

Ao chegar à entrada do restaurante, é habitual que algum atendente nos receba e pergunte: “Mesa para quantas pessoas?” Era com altivez e cabeça erguida que eu respondia: “Mesa apenas para mim”.

É claro que ninguém me contestava, afinal eles não são pagos para oferecer reprimendas aos solitários, mas era possível ver no rosto o espanto daqueles que me dirigiam até à mesa, onde eu ficava abandonada aos meus próprios pensamentos e sorte.

Quando os garçons se aproximavam, antes de me oferecerem o cardápio, indagavam: “A senhora está esperando mais alguém?” Mais uma vez, eu fazia questão de afirmar em alto e bom tom que não estava à espera de ninguém e que gostaria de fazer o meu pedido.

À partir daí, todos se mostravam muito solícitos e atenciosos como se para compensar o abandono que, possivelmente, encontrava-me. Não era raro virem constantemente à minha mesa, não apenas para me servir das solicitações que eu havia feito, mas também para perguntarem se estava tudo bem comigo e se eu estava precisando de mais alguma coisa, como por exemplo, um homem para me fazer companhia. Por que não? Só faltava essa.

Eu apenas aproveitava esses excessos de cuidados. Via em seus rostos a preocupação por avistarem uma mulher sozinha, àquela hora da noite, num lugar em que todos estavam acompanhados. Por dentro, eu esboçava irônicos sorrisos e pensava que um acompanhante era o que menos desejava naqueles momentos só meus.

Certa vez, no L’entrecôte de Paris, tomava vinho com total desconhecimento de que duas da manhã soava no relógio. O garçom aproximou-se sutilmente e comunicou que já estava na hora de cerrarem as portas, no entanto eu podia ficar à vontade, pois fechariam apenas do lado de fora para não comprometer o meu momento. Tudo a meu dispor e pelo tempo que eu quisesse. Tomei cada gole pausadamente como se estivesse ceando ao lado do próprio Cristo, a olhar para mim com o semblante cheio de misericórdia.

Mas afinal, o que uma mulher vai fazer sozinha num restaurante à noite?

Ela vai oferecer ao paladar uma boa comida, degustar um vinho ao tempo em que o oferta aos deuses e se deliciar com uma sobremesa que adoça também os seus sentidos. Vai pensar na vida, nos acontecimentos, nas alegrias, nas decepções, nos erros e nos acertos que comete enquanto tenta viver do modo que mais lhe apraz.

Uma mulher sozinha à mesa brinda a sua existência, os seus feitos, os amores que teve, os sonhos irrealizados, os desejos que alimentam a sua alma, a angústia e o vazio próprio dos seres.

E ela entende que pode andar em sua própria companhia a qualquer hora, pois a solidão a enriquece tanto mais para estar junto aos outros.

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