A gula nossa de cada dia

No livro Os sertões, Euclides da Cunha escreveu “O sertanejo é, antes de tudo, um forte“, frase cujo significado é apropriado ao contexto narrativo e histórico em que a obra foi escrita. O personagem principal é o homem do sertão, que se vê obrigado a lutar pela sobrevivência em meio às dificuldades inerentes às condições sociais, econômicas e climáticas nas quais está inserido.

Ao reconhecer a beleza e o sentido dessa frase, peço data venia, não para discordar do notável escritor, mas tão somente para acrescentar que todos devemos buscar ser tão fortes quanto o sertanejo.

Isso não significa, de modo algum, que não podemos dar tréguas para “respirar as nossas fraquezas”, como bem asseverou Clarice Lispector, profunda conhecedora da complexa natureza humana. No entanto, passado algum tempo em que nos deixamos entregues às nossas fragilidades é necessário recobrar as forças para seguirmos adiante, sob pena de sucumbência.

Uma amiga tratou de trazer essa verdade à tona no momento em que, a pretexto de acusá-la de ser a agente causadora de um possível dano à minha dieta, que eu acabara de recomeçar, disse num tom firme: “Seja forte e resista.”

Assim, solicitei um café expresso como de costume. Adicionalmente, ofereceram-me um brigadeiro quase como uma espécie de consolo ao meu modesto pedido. Recusei o doce sob o argumento de que estava, mais uma vez, de dieta.

A amiga que me acompanhava não fez qualquer cerimônia ou restrição diante do seu profano desejo de se deleitar com um provocante sorvete regado à café.

Ao olhá-la, entregue sem pudor à saborosa delícia, vi-me cambaleante na prévia certeza que levou-me a recusar qualquer espécie de guloseima. Deu vontade de suspender as abstenções a que julguei apta a enfrentar em nome dos tão sonhados quilos a menos. E a frase “Seja forte e resista” soava alto em meus ouvidos como um martírio, de modo que fui forte e resisti, salvando-me das garras da gula, ferrenha inimiga da beleza.

Mas ser forte não é tão fácil, e exige uma ferrenha vontade que nem sempre dispomos. No entanto, eu já havia adiado bastante o momento de dar início a certas restrições alimentares, de modo que era preciso agir com intrepidez frente à sedução e ao poder que o doce exerce em nosso paladar.

Além do mais, eu já vinha me acariciando com algumas exceções que foram evidenciadas na balança, na qual subi no dia anterior. Nesse momento em que o peso se avolumou no objeto de medir e na minha consciência, uma decisão se impunha.

Lembrei-me da canção Maria, de Fernando Brant e Milton Nascimento, onde os autores dizem que é preciso ter força, raça e gana, em meio a dor e a alegria. Por outro lado, também afirmam que é preciso ter manha, graça e sonho. Como acertar a escolha entre um café e um sorvete?

Transitar pela existência requer um certo equilíbrio, o qual, a meu ver, não significa necessariamente estar sempre no meio da gangorra, entre dois extremos. Não somos seres matemáticos, em especial, quando levamos em conta as emoções e as paixões que nos assolam e nos fazem sair dos trilhos.

Durante toda a vida, cometeremos alguns desatinos que, em seguida, nos obrigarão a tomar as rédeas desse cavalo bravio interior que nos habita e quer exceder em sua fuga e em seu prazer de ser veloz, sem que nada o restrinja ou alcance.

Será preciso a alternância entre a força e a manha, nos limites de nossos anseios, uma vez que inexiste instrumento preciso que nos diga quando e em que medida se utilizar de uma coisa ou outra.

Guimarães Rosa, ao também falar sobre a gente do sertão, emitiu essa frase: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

A etimologia da palavra coragem traz o sentido de agir com o coração. Significa que, ao caminhar por entre os extremos da vida, será preciso, algumas vezes, indagá-lo a respeito do que fazer. Mas como saber a resposta se esse órgão não nos emite outro som diferente de suas batidas compassadas ou descompassadas?

Como ter dúvidas sobre o que alegra o coração quando se está diante de um delicioso sorvete que clama por ser devorado?

Podemos assumir a responsabilidade pelas consequências da nossa gula e responder tal qual Nélida Piñon, quando o médico chamou a sua atenção pelos quilos a mais: “Mereci engordar, doutor. Comi maravilhas, tive prazeres únicos, não tenho de que me arrepender ou reclamar.”

Quando o prazer de degustar uma refeição for maior que o prazer de visualizar a sua imagem no espelho, não tenha dúvidas de que o seu órgão vital está lhe dizendo que há mais alegria em agradar o paladar do que os olhos. Mas nós só seremos capazes de ouvir a voz do coração quando jogarmos fora as mordaças que o calam.

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