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José do Egito

“Pode me chamar de José do Egito, moça”. Essa foi a resposta do morador de rua, quando, numa conversa em que estava parada frente ao sinal de trânsito, perguntei-lhe o nome.

Nosso diálogo durou pouco tempo, mas o suficiente para tomar conhecimento de que aquele homem não tinha família e, por isso, seu maior desejo era possuir um clã para o qual retornar ao fim do dia.

José do Egito é moreno, alto, forte e tem porte altivo, apesar da falta de moradia. A barba tomou conta de todo o rosto, de modo que as feições se ocultam à observação alheia.

A sua casa é o próprio corpo e, também, as ruas da cidade, onde transita e se acomoda em seus trapos velhos e sujos que o protegem das intempéries. Seu olhar não vacila diante da inquisição do outro e, ao contrário do que se pode esperar, revela um brilho presente nos olhos daqueles que enxergam um horizonte mesmo quando tudo lhes falta.

Aproveita o sinal vermelho para pedir esmola aos condutores. E se tem alguém disposto a ouvir a sua história, ele a conta com ar entristecido, que logo se mescla a uma alegria oriunda do entusiamo, ao dizer: “Eu vou sair dessa, se Deus quiser.”

Não posso imaginar que Deus queira ver um de seus filhos à margem das condições mínimas de subsistência, em meio a um mundo tão abundante. No entanto, José acredita que cabe ao Criador a decisão a respeito do momento em que ele estará livre das prisões do abandono físico e afetivo.

Enquanto isso, permanece a depender diariamente da boa vontade de seus irmãos para dar-lhe moedas ou comida, que ele recebe de bom grado e agradece: “Deus que te abençoe.”

Quase todos os dias avisto a figura de José, pois somos transeuntes de avenidas comuns. Ao passar por ele à hora do almoço, penso se esse homem está com fome ou se precisa de alguma coisa, mas nada faço. Somos separados por muros intransponíveis que envolvem questões econômicas, sociais e de ordem íntima. José é a minha miséria e fujo dele para que jamais me alcance. Enquanto uso o carro como meio de transporte, ele usa as próprias pernas. Sou antinatural e pretendo continuar assim até que Deus decida o que fazer a respeito.

A sua altivez transcende a mendicância. José parece intuir que a sua importância não reside nos bens que lhe faltam. Ele tem brio para comandar o caos e fazer as vezes de um agente de trânsito, na função de controlar os carros que se amontoam, depois de o semáforo parar de funcionar, em decorrência da chuva torrencial que alagou a cidade.

Vejo ao longe os gestos de José ordenando aos motoristas que parem ou sigam adiante. Desempenha a função pública sem exigir salário, mas tão somente para ajudar aqueles que precisam voltar ao trabalho, após saciarem as suas fomes. Talvez José também tenha fome, e aguenta firme, uma vez que o corpo acostumou-se à escassez.

Admiro a sua audácia, tanto mais porque os condutores obedecem-lhe as ordens como se ele fosse um legítimo representante do governo a exercer funções institucionais devidamente remuneradas.

Ao observá-lo, percebo o quanto esse homem está apto para atuar nas atividades de fiscalização do trânsito da cidade. Falta-lhe talvez, a oportunidade ou as condições para se candidatar a um cargo dessa magnitude. Pode ser, ainda, que não disponha da vontade para encarregar-se desse mister e queira exercer o ofício apenas em situações excepcionais, por sua conta, como forma de retribuir as modestas doações que recebe.

Perco-me ao acompanhar atentamente os seus passos e sinais que obrigam-me a sair da comodidade de minha inércia. José, a despeito da fome e do desamparo, movimenta-se, age e faz algo útil em prol daqueles que quase nada lhe oferecem. Sua postura é de luta, de esperança e de crença no Deus que, algum dia, há de querer que ele saia das ruas e encontre o abrigo do amor e de um lar.

Sei que o meu amor por José do Egito não o protege da carência, do frio e da fome. No entanto, esse sentimento inunda o meu ser, sobretudo quando, nas noites frias, envolta em cobertores quentes, fico a imaginar por onde ele anda, e desejo do fundo da alma que esteja a salvo, sob a proteção daquele que, um dia, há de atender as súplicas desse homem de fé que não desiste de viver, lutar e sonhar.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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