Ir para conteúdo

A fidelidade deveria ser uma faculdade

Veio-me à tona essa frase que ouvi ou li em algum lugar do qual já não me lembro. “A fidelidade deveria ser uma faculdade”. Como assim?

Eu quero dizer que não devemos exigi-la de quem quer que seja. Nunca a protestei contra homem algum, o que não significou desejar que quem estivesse ao meu lado fosse infiel. Não seria hipócrita nem tão libertária a ponto de afirmar tal disparate. Logo eu, que gosto de ser única e exclusiva.

Acontece que a decisão de ser fiel ou não deve pertencer tão somente ao outro, ainda que o nosso maior desejo seja ocupar inteiramente o seu espaço, e, por que não, ser o único objeto de sua vontade. Uma quimera, pois aquele que divide a vida conosco necessariamente tem os seus desejos além de nós, ainda que sexuais e por alguns minutos. Não tenho a ilusão de pensar que o meu coabitante jamais se perca ao imaginar-se com outras da minha espécie, pois como já cantaram “quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais.”

Esse pensamento em nada me abala, nem me causa embaraços. Muito pelo contrário, descanso com essa ideia de que não sou a única a penetrar em suas fantasias de macho deserdado de sua condição predatória.

Às vezes até me vem o pensamento audacioso que impulsiona a dizer ao homem: “Vá pelo mundo afora”. Mas o instinto de posse me impede de cometer esse ato heroico em prol daquele que se repete em seus prazeres com apenas uma filha de Eva.

Vejo-me diante de um impasse em que, de um lado, há o desejo de que alguém me pertença e, de outro, existe a vontade de deixá-lo livre para, querendo, voltar aos meus braços.

Sinto como se representasse, ao contrário do que prezo, a limitação do desejo de alguém, ao implorar, ainda que de modo tácito, que ele seja fiel a esse meu corpo que já não lhe oferece qualquer novidade.

No entanto, nunca clamei de modo expresso para que me devotassem fidelidade. Talvez o meu orgulho feroz me impeça de pedir algo que não seja espontaneamente dado.

Também não tive o desprazer de ser deliberadamente traída e julgo que, caso fosse, liberaria o outro para viver aquilo que lhe apeteceria a alma e os sentidos.

Ouvi quem dissesse que não trairia por falta de coragem. Falta-me, pois, vontade. Na ausência de coragem há o desejo reprimido pela ideia do compromisso que obriga. Já a falta de vontade carece do elemento essencial que é o próprio desejo. Portanto, estou salva da luxúria que conduziu Paolo e Francesca ao inferno.

Minhas aspirações não passam pela ideia de pertencer, ainda que por pensamentos, a qualquer outro que se apresenta. Elas são de outra ordem e não há ameaças de natureza libidinosa, pois minha imersão se dá em outros campos que se distanciam do contato e, se prezo pela liberdade como condição, é apenas em obediência à minha natureza.

O homem não precisa se ocultar em sua volúpia. Eu o libero de todo resquício de obrigação. O que não pretendo é restringir-lhe a vida de modo que ele se sinta aprisionado a alguém que já não lhe causa nenhum tipo de emoção ou deleite.

Quem está comigo há de entender que a fidelidade é uma faculdade. Não hei de cercear-lhe a liberdade caso queira encontrar afago em outros braços e calor em outro corpo.

Se alguém é fiel a mim por puro dever, onde está o meu triunfo? Nada quero a troco de exigências. Só aceito o ouro se ele não me custar a dignidade.

Categorias

Sem categoria

leiturana Ver tudo

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

Um comentário em “A fidelidade deveria ser uma faculdade Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: