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A casa em que fui amada.

O corpo é o abrigo da alma. A casa é o reduto do corpo com a sua alma. Trago à memória a casa de meus avós, onde passei a maior parte da minha infância, envolta a muita proteção e cuidado.

À tardinha, sentávamos todos na calçada para tomar o café feito pelo meu avô, que dispensava o objeto de medir os ingredientes e utilizava a própria mão em substituição à colher, o que dava um toque especial ao sabor e ao aroma da bebida que acompanhava nossas conversas acaloradas.

Gostávamos de falar alto e dar gargalhadas, disputávamos a vez e, se não nos era concedida, atropelávamos uns aos outros, cada um com o seu caso a contar.

Avós, pais, tios, irmãos e primos se misturavam nessa reunião diária na casa dos meus avós maternos. Cada dia tinha a sua própria novidade. Programávamos passeios ou eventos para os finais de semana. Alguns tios revesavam a moradia entre o campo e a cidade, de modo que podíamos passar um dia inteiro numa fazenda, em contato com os bichos e com a terra. E o melhor de tudo, dávamos ao luxo de nos alimentar com a comida feita em fogão à lenha, julgada como a mais saborosa.

Andávamos à cavalo, alimentávamos os bichos, regávamos as plantas e, crianças, brincávamos incansavelmente até à hora do almoço em que éramos chamados para que nos servissem.

Havia os passeios em rios e cachoeiras, que exigiam mais cuidado e atenção dos adultos, principalmente das mulheres da família que sempre despenderam um cuidado demasiado aos filhos e sobrinhos. Voltávamos cansados, como se os banhos nos deixassem desprovidos de energia, a qual recuperávamos logo no dia seguinte.

Durante a infância, gozamos dessas ocasiões felizes, de abundantes brincadeiras e fartura de alimentos, atenção e cuidados.

No entanto, nada era tão fascinante quanto os momentos cujo palco era a casa dos meus avós. Que dirá para mim, a neta preferida dentre tantos. Sob a justificativa da ausência paterna, eles enchiam-me de zelo e proteção, motivo de certas incompreensões e ciúmes de filhos e demais netos, pois os pais de minha mãe não disfarçavam a predileção.

Nenhum dos meus pedidos ou caprichos eram afastados, mediante o mais convincente pretexto e, muitas vezes, abusava da bondade que me era direcionada, pois precisava mostrar que, embora desprovida da presença de um pai, existia dois avós dispostos a presentear-me com o mundo, caso eu desejasse.

A despeito de uma possível falta, fui criada com todos os excessos, de tal forma que nada me foi negado. Provavelmente, esse tratamento especial e diferenciado tenha me levado a recusar tantos outros que não ousassem chegar perto daquele oferecido por meus avós. Nunca aceitei menos. E sempre carreguei dentro de mim a certeza de que se não fosse a primeira e a única, dispensaria todo o resto.

E nada de exigir ou implorar amor de quem quer que fosse. Ou seria gratuito ou totalmente desnecessário. Para mim, não exigir nada dos outros sempre foi uma questão de dignidade.

Na casa dos meus avós sentia-me acolhida e amada. A menor desavença com a minha mãe, corria para os braços deles, e minha avó, imediatamente, ia tirar satisfações com a filha para saber o que acontecera. Ela não permitia nem mesmo as correções maternas, pois, a seu ver, eram totalmente desmedidas e desprovidas de razão. Ninguém podia tocar-me se não fosse para oferecer o mesmo amor que eles me davam.

Esse foi o modelo de amor que tive e que está gravado na minha memória. Nada impediu que outros batessem à minha porta, mas era pouco, muito pouco, de maneira que não os queria e sempre corri o risco de ficar sem nada por servir-me apenas do demasiado, sem dar espaço para as miudezas.

Sei que acabei entrando por outros caminhos que me desviaram daquele a que me propus discorrer no início. Comecei a falar de casa com a intenção de descrever a que hoje habito e de onde escrevo. No entanto, tive acesso a lembranças que me transportaram para a infância e a casa dos meus avós, onde fui amada, mimada e feliz.

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Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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