Dias de abandono.

Enquanto a água gélida caía em seu corpo quente e nu, Sara pensava na coragem imprevisível que a invadira no dia anterior e a fizera dar um passo tão inesperado.

Sempre alertara ao marido que o abandonaria, mas passados cinco anos desde que casaram, todas as ofensas proferidas durante as brigas eram aparentemente esquecidas e, sem muita demora, o casal se via mais uma vez em seu leito a trocar parcas carícias.

Como em geral ocorre com as mulheres, Sara sonhara com esse casamento e fez desse dia o mais importante da sua vida. Os preparativos foram minuciosamente planejados por ela, de modo que tudo sairia tão perfeito como nos contos de fada.

O vestido que escolhera lembrava aqueles das princesas dos desenhos animados e, era de um branco tão alvo e puro, tal qual os seus sentimentos, que nem mesmo cogitara poder existir naquela relação algo que maculasse o amor que nutria.

Casaram-se na igreja e proferiram juras de amor e fidelidade, sob a benção do padre e os olhares de testemunhas e convidados. A certeza e o tom firme com que proferiram os votos e disseram sim ao enlace não deixaram dúvidas de que nem a pobreza, nem a doença, nem o tempo seriam capazes de separá-los.

Ao final da cerimônia, o beijo apaixonado, sob os sussurros dos presentes, representava não apenas o tocar de lábios dos enamorados, mas o selo do amor incondicional que os confirmavam unidos para sempre numa só carne.

Agora, Sara estava só em meio a algumas lembranças. Ao sair do banho, sentou-se na cama e se pôs a pensar no dia anterior. Era o seu aniversário. Acordou cedo como de costume, fez suas malas e foi embora deixando apenas um bilhete. Todos os anos, nessa mesma data, tomava decisões que entendia serem as mais importantes para a sua vida, ainda que de forma simbólica e sem que ninguém soubesse.

Nesse ano, deu-se de presente a liberdade de deixar o lar que não mais lhe cabia e no qual sentia-se dispensável. As ofensas que lhe eram frequentemente dirigidas corroíam o seu espírito que fora educado apenas com palavras delicadas.

O tratamento que lhe era destinado no convívio conjugal não combinava em nada com o amor polido que recebera de seus pais e avós. Por que deixara a casa dos seus para se unir a um homem que não a respeitava?

Lembrava-se de que a maneira como ele dirigia-lhe ofensas e xingamentos não fora inaugurada no casamento. Quando namoravam, dava-lhe mostras de sua rispidez e falta de compromisso. No entanto, apesar dos avisos vindos de toda parte, ousara casar e cumprir a sina.

“Vou embora”, proferia todas as vezes em que se sentia golpeada. Ele dizia que fosse, pois ela não lhe faria a menor falta.

Sara não se lembra quantas vezes ameaçara sem que tivesse coragem para agir de acordo com as suas palavras. E ele não temia o abandono por imaginá-la em suas mãos, sem ter para onde ir.

Mas, naquela manhã em que comemorava sua trigésima primavera, não estava disposta a continuar infeliz. Decidir por permanecer naquela casa seria tão mais dilacerante para quem já se encontrava em pedaços.

Assim, teve coragem e partiu sem medo e sem culpa. Antes, escrevera essas palavras ao homem:

“Amei-te tanto quanto pude. E, agora que o amor se foi, não restam motivos que me façam ficar. Antes que cresça a sua distância e frieza, que já me privou os carinhos e as palavras doces, parto sem receios, posto que não desejo perder mais tempo.

Consciente de que não há nada mais a fazer por nós, neste dia, dou-me de presente a vida, ao tempo em que o deixo e sigo por outros caminhos que avidamente me esperam.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s