A nobreza de dar amor ao ser que não geramos.

Sou a única mulher dentre os três filhos de minha mãe. E a mais velha. Isso em nada me desespera, pois significa ser a primeira das esperas e, de um certo modo, representou a oportunidade de experimentar sentimentos maternais, os quais, a vida inteira, nutri pelos meus dois irmãos.

Nunca os invejei, quer pelo porte, vigor ou beleza que a natureza os imprimiu e do qual eu orgulhava tanto quanto uma mãe que gera filhos fortes e saudáveis.

Eles sempre me foram motivo de alegria tanto quanto de selvageria, a que recorri muitas vezes quando notava algo ou alguém pronto a ameaçá-los. Creio que o instinto de proteção com que uma vaca parida cuida de seu bezerro é o mesmo que experimento quando um olhar de reprovação é a eles lançado, apesar de não os ter gerado.

Se me perguntarem quais as melhores coisas da vida, não exito, momento algum, em responder que uma delas é ter irmãos. Creio que eles são os primeiros a nos remeter à ideia do compartilhamento de coisas e de afetos. Disso decorre ser o filho único, por vezes, enquadrado como egoísta, o que não nos diz absolutamente nada, nem mesmo relativo a seu caráter.

Se durante uma vida inteira, sendo exclusivo, não lhe foi preciso dividir o amor dos pais, muito menos os seus objetos, e isso não lhe representou qualquer ameaça à sobrevivência, por que dividir qualquer coisa a essa altura do jogo?

No mais, não precisei disputar nada com os meus irmãos. Mesmo diante da possibilidade de reivindicar os direitos de filha a exigir da mãe um maior direcionamento de suas atenções, renunciei de bom grado a esse poder e, ao amor materno, somava o amor da irmã, de modo que a inexistência de disputa afetiva nos poupou de conflitos ou desavenças a separar-nos.

Sempre quis que os meus irmãos fossem maiores que eu, não apenas em tamanho, mas em conquistas e virtudes. E, diferente daquele filho de Eva, que dirigiu-se a Deus para contestá-lo sobre a recusa de sua oferenda, movido pelo ciúme e inveja de Abel, era bem capaz de, se caso estivesse no lugar de Caim, eu implorasse ao Criador para que aceitasse também a minha oferta, mas a colocasse como crédito na conta dos meus irmãos, ainda que eu saísse de mãos vazias.

Outra coisa que muito me alegra e que é fruto desse parentesco colateral é a magia de ter sobrinhos. O meu irmão mais velho foi quem me deu essa graça. Dois meninos que me confirmam a crença de que vim ao mundo para habitar junto aos homens e fazê-los únicos reis do meu castelo, sempre pronta a cumprir os seus mandos e desmandos.

Quando o sobrinho mais velho nasceu, minha mãe disse algo que dispensaria outros exames: “Esse é legítimo e nem precisa de DNA, porque é a cara da tia.”

A semelhança me orgulhara, de modo que o tinha por meu filho, sem, no entanto, nunca cogitar tirá-lo da mãe. Só a ideia bastava. Era o sobrinho que vinha ao mundo para trazer as alegrias e as expectativas que toda situação inédita provoca. Pela primeira vez, tia.

E, além de sobrinho, ele tem se mostrado o meu ferrenho defensor, como se indicasse, tal qual a tia, um caminho jurídico a seguir, nem que seja só por gosto e deleite, e não por profissão. Ao conhecer um pouco sobre leis e princípios do direito, valho-me deles muito mais para defender qualquer sinal de injustiça contra os meus e contra mim mesma do que para defesa da coletividade.

Meu sobrinho quer me privar das atividades domésticas, pois parece entender, em sua aparente inocência, que estou sendo vítima de exploração dentro do meu próprio lar. Interpela o meu esposo e o acusa com veemência de fazer bagunças em toda casa. Vira-se e diz com o dedo em riste: “Você tem que limpar. Quem sujou tem que limpar.”

Quando o provável réu exerce o seu direito de defesa e contrapõe alegando ser eu a bagunceira, o que, em parte, é verdade, meu advogado rechaça qualquer contra-acusação: “Não. A minha tia não faz bagunça.”

Na última conversa que tivemos, deixou abertos os caminhos para, querendo, eu morar com ele, acreditando ter condições de proteger-me contra o peso dos serviços domésticos.

E fez questão de avisar ao meu esposo que não tenho obrigação de limpar aquilo que não sujei. “Quem sujou, limpa.”

Ele tem inscrito dentro de si os seus ideais de justiça, os quais não teme o engano, pois não há dúvidas de que a tia está correta em suas ações a despeito de quaisquer circunstâncias.

A nossa relação tem se estreitado muito mais agora que ele descobriu-me como alguém que alimenta os seus desejos livrescos. Há indícios de que nutre um interesse por livros, o qual faço questão de prover. Assim, ao chegar em visita, pede-me que, primeiro, eu o leve à livraria e, só depois, ao parquinho. Em obediência, faço tudo como ele ordena.

Está empenhado em aprender a ler, porque me prometeu que assim o fará para ter condições de ler os meus livros. A sua curiosidade quer saber o que escrevo, sobre o que e qual o nome dos livros que vou publicar. Deixo-o a par de tudo para mostrar-lhe que o considero importante nesse processo e de que ele é capaz de entender. Ainda que tenha seis anos de idade, trato-o como um ser extraordinário e dotado de condições cognitivas que o capacitam a compreender alguns aspectos do mundo que habitamos.

Muito mais que unidos por laços sanguíneos, há, sobretudo, o sentimento que vence a distância e nos mantém conectados, menos pelas obrigações parentescas e mais por gostos, afinidades e, sobretudo, por amor.

O sobrinho mais novo é um bebê vivo, vivíssimo. Seu olhar percorre a um só tempo todos os cantos do Universo e ele dá mostras que tudo está sob o crivo de sua observação, de modo que nós adultos temos que tomar cuidado com o que fazemos em sua frente. Ele está de olho bem aberto.

Quer andar por toda a casa. Eu obedeço os seus comandos. Mostro a ele a estante com os livros para que tão logo crie familiaridade com esse objeto por demais precioso. Ele quer pôr as mãos. Eu deixo, como permito tudo o mais que queira, desde que não haja prejuízo para a sua integridade.

Tem energia de sobra e a manifesta de todas as maneiras, inclusive, ao mexer, sem cessar, as suas perninhas brancas, ágeis e bem feitas. Sorri que é uma beleza, e seu riso me arranca da seriedade dos meus pensamentos, como a me chamar para viver e brindar o lado infantil da vida com sua espontaneidade e gargalhada fáceis.

Além de tia, sou também madrinha dos dois. É como se meu irmão quisesse dizer: “Você é a única que, na minha ausência e na ausência das mães deles, pode cuidar dos meus filhos.”

Só sei que esses dois meninos enfeitam a minha vida de tal modo que chego a acreditar no vaticínio de que nasci para ser tia. Isso não me restringe, ao contrário, alarga-me.

Garanto-lhes que há muito mais nobreza em amar os que não cresceram dentro de nós. E, como sou daquelas que querem extrair nobreza em tudo, amo os seres que não gerei. E os amo gratuitamente, sem querê-los em troca.

Um comentário

  1. Os relatos, muito intimistas, por sinal, evocam, até onde fui capaz de captá-los, o espírito abnegado que as mulheres, de até uma ou duas gerações atrás, segundo a praxe, eram de certo modo encorajadas a nutrir. Hoje, porém, fala-se, desde de cedo, e o vejo entre as alunas do Fundamental, coisas como empoderamento da mulher e sororidade feminina. Mas claro que a tendência não anula de todo o poder da individualidade.

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