O menino maluquinho, de Ziraldo

A criança tem a fantasia solta. E ela não tem as preocupações que nós, adultos, temos. Além do mais, a criança não tem medo do ridículo, enquanto nós, adultos, tememos a opinião alheia. E a criança sente e não se indaga a respeito do que sente. Adultos, estamos sempre questionando o porquê de sentirmos isso ou aquilo.

Como adultos, temos medo da tão almejada felicidade. Quando entramos em contato com ela, damos um passo para trás e dizemos: “Está muito bom para ser verdade.” A criança, ao contrário, diz: “Quero mais.” E ela não se enfastia, ao passo que nós, adultos, estamos reclamando o tempo todo de esgotamento e desânimo.

O menino maluquinho não se cansava. Ele tinha muito “fogo no rabo” e “vento nos pés”. Quando pensavam que ele estava num canto, ele já estava noutro. E conseguia fazer tudo o que queria. Ia para a escola, depois brincava bastante e ainda sobrava tempo para ler gibis e colar figurinhas em seus álbuns.

Ele nunca reclamava de estar atarefado como nós adultos fazemos, e nem ficava deitado numa cama prostrado e com preguiça de viver.

Às vezes, ele se entristecia, porque crianças tem lá as suas tristezas, mas não as tornavam públicas, nem se fazia de coitado. Muito pelo contrário, nesses momentos, trancava-se em seu quarto e pedia para ninguém incomodá-lo até que esse sentimento o abandonasse. Ao retirar-se para, sozinho, viver a própria tristeza, ele poupava os outros.

Passado um tempo, o menino maluquinho estava novamente alegre e impossível. Ele era um menino impossível, porque estava aberto para todas as possibilidades, pois era muito sabido, esperto, inteligente e criativo.

De tudo ele sabia. A única coisa que ele não sabia de jeito nenhum era ficar quietinho. Ele cantava, sorria, conversava e era tão amável que tinha umas dez namoradas, e todas eram muito apaixonadas por ele, sem que houvesse qualquer exigência. Era só amor gratuito. E quando uma das namoradas ia embora, logo outra já ocupava o espaço.

Apesar de ser maluquinho, era muito querido e amado, tanto pelas meninas quanto pelos meninos. Não havia essas diferenças de sexo como quando, adultos, começamos a criar. Nem as palavras feminismo e machismo existiam no universo infantil a que o menino pertencia. Essas coisas são criadas quando nos tornamos adultos chatos e entediados e não sabemos o que fazer com aquilo que somos.

O menino maluquinho andava numa turma onde ele era o menorzinho, mas também era o mais esperto, o mais bonito e o mais alegre. E acreditem: nenhum dos coleguinhas o invejavam. Todos gostavam dele, pois apesar de pequenininho, ele tinha muita grandeza. “Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não, do tamanho da minha altura…”

E por ver um horizonte sem fim, as pernas do menino maluquinho pareciam enormes e ele conseguia abraçar todo o mundo.

Suas notas na escola eram muito boas, apesar de, em comportamento, tirar sempre zero.

Uma vez ele chegou em sua casa dizendo “a bomba já explodiu, gente. Lá no colégio.” Todos ficaram muito preocupados. O avô até imaginou que o neto era um subversivo. Daí o menino comunicou que se tratava de suas notas. Ele só queria dar um susto. Gostava de fazer isso. Inclusive, um dia se vestiu de fantasma para assustar os seus pais que chegavam do cinema.

O menino maluquinho estudava muito para fazer as provas e realizava todas as tarefas da escola. Gostava de fazer desenhos em seu caderno e quando lia histórias, ele circulava o nome do herói e dizia: “Esse sou eu”.

Sua imaginação não tinha limites. Ele inventava de tudo. Quando chovia, o menino não fazia como nós adultos que reclamamos da chuva. Ele pegava papel e seus lápis azul e amarelo e desenhava o céu e o sol. Se fazia frio, ele também não reclamava como nós adultos. Ele se embrulhava e se aquecia. Quando havia sombras, ele sorria. Quando tudo estava vazio, ele se abraçava com os seus próprios braços e desenhava beijos em seu próprio rosto. Nunca reclamava de solidão, e quando estava longe dos seus amigos, ele fazia companhia a si mesmo.

Ninguém podava as invenções do menino maluquinho. Ele era livre para exercitar a sua criatividade.

Em momento algum queixava a falta de brinquedos ou de qualquer outra coisa como nós adultos fazemos o tempo todo. Ele mesmo confeccionava a sua pipa e o seu balão de São João e ficava muito satisfeito e feliz com o que tinha.

Também não ficava inventando mil viagens para fazer. O lugar que gostava muito de ir era na casa da avó. Lá ele aprontava de tudo e comia todas as delícias que queria e, depois, ainda descansava no colo da vovó, que gostava dele mesmo sendo maluquinho.

As avós costumam ser um pouco diferente dos demais adultos, porque nos aceitam sem condições e imposições. Na casa da avó a gente até parece rainha ou rei.

Muitas vezes, o menino brincava sozinho. Nos jogos, era ele contra ele. Quem vencia? Ele. Afinal de contas, quem é o nosso verdadeiro adversário e contra o qual temos que lutar?

Brincava também de corrida, de desenhar terras perdidas, de inventar estrelas e foguetes espaciais nos quais ele voava cheio de alegria.

E há uma coisa que o menino maluquinho tinha que, geralmente, os adultos acham que as crianças não devem ter. Ele tinha segredos. Alguns, dividia com o seu pai, e outros com a sua mãe. No entanto, havia aqueles que não contava a ninguém, pois preservava a sua individualidade e intimidade.

Clarice Lispector disse que um segredo nos dá muita força interior. Eu tenho o meu segredo e o guardo a setenta e sete chaves desde que eu era uma menina maluquinha. Se você não tem o seu, trate o mais urgente possível de arranjar.

Ao contrário dos adultos, que vivem reclamando a falta de tempo, o menino parecia ter feito um pacto com as vinte e quatro horas do seu dia. Ele fazia mil coisas e ainda sobrava tempo para mais.

Esse era o seu grande mistério. Ele era o dono do tempo. Pelo menos do seu, é claro.

Estudava, brincava, criava, falava, corria, namorava, visitava a vovó e ainda jogava futebol. Tudo isso num só dia.

Nós adultos não fazemos nem metade e dizemos estar cansados e, ainda, suspiramos: “O dia podia ter setenta e duas horas”. Se estamos desperdiçando as vinte e quatro, imagina se tivéssemos setenta e duas… É que nunca estamos satisfeitos, nem temos “fogo no rabo”, muito menos “vento nos pés”. O que temos são correntes nas mentes.

Quando os pais do menino se separaram, ele não escolheu nenhum dos lados. Sabe por quê? Ele era o seu próprio lado e podia estar ao lado de quem quisesse e quando quisesse. E aí, nós que somos adultos, devíamos aprender que nem sempre precisamos escolher um lado. Nem para a esquerda, nem para direita. Nem para um partido, nem para o outro. Pois somos inteiros.

Quando a turma ia jogar futebol, ninguém queria ser o goleiro, porque todos os meninos do time se consideravam muito craques. Então, o menino maluquinho ia para o gol. Ele nem fazia questão de ser e jogar como todos os outros. E era o melhor dos goleiros. Não deixava sequer uma bola passar. Pegava todas.

E sabe qual foi a única coisa que o menino maluquinho não conseguiu pegar?

Pensem um pouco…

Criança, ele não conseguiu pegar aquilo que nós adultos também não conseguimos.

Pensem mais um pouco…

Os idosos também não conseguem…

E nenhuma outra criatura no mundo há de conseguir.

Pensaram?

Pois é isso mesmo. O menino maluquinho não conseguiu pegar o tempo com as mãos e a infância passou por entre os seus dedos e ele cresceu e virou adulto.

O menino maluquinho se transformou num cara legal. Deixou de ser a criança feliz para ser apenas o cara legal.

E sabe por quê?

Porque, quando adultos, não há nada que tememos tanto quanto a felicidade.

FIM.

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