O livreiro, de Pedro Herz

Eu estava andando a olhar os livros nas prateleiras da Livraria Cultura e, para a minha surpresa, deparo-me frente a frente com Pedro Herz.

Alguns minutos depois, percebo que há, no local, um movimento atípico e incomum. Dirijo-me a um funcionário e pergunto o motivo daquele burburinho. Ele informou que, logo mais, ocorreria o lançamento de um livro, cujo autor era o próprio Pedro.

Resolvi aguardar pelo evento. Tão logo começou, entrei para a fila de autógrafos, cujo tempo de espera rendeu muitas conversas com outras pessoas que também aguardavam, e uma amizade com Fernando, ainda hoje preservada .

Pedro Herz mostrou-se muito disponível e simpático. Em seu autógrafo, escreveu: “Ana, muito obrigado por se interessar por essa minha viagem pelo mundo dos livros. Um abraço. Pedro. 07/03/2018.”

Adquiri a obra, mas não a li de imediato. Passado algum tempo, tentei iniciar a leitura, mas abandonei no terceiro capítulo, pois não estava no espírito de O livreiro.

Entretanto, assisti recentemente a uma entrevista em que Pedro Herz falava sobre as dificuldades que o mercado editorial enfrenta, também a respeito da redução crescente da venda de livros e da escassez de leitores. Daí, lembrei-me que possuía um livro escrito por ele, o qual ainda não havia lido por inteiro.

Somou-se a isso, o fato de a Livraria Cultura ser um dos meus lugares preferidos. Pensei que a leitura seria uma oportunidade de conhecer a história desse lugar que tanto gosto e frequento.

Os pais de Pedro, Eva e Kurt, chegaram ao Brasil após fugirem da perseguição nazista aos judeus. Assentaram em São Paulo e permaneceram lá por toda a vida.

Eva necessitava cuidar do lar e dos dois filhos. Logo, teve a ideia de exercer uma atividade lucrativa que pudesse somar à renda familiar, sem precisar sair de casa.

Investiu na compra de dez livros, e passou a alugá-los para outras pessoas que, assim como eles, aportaram na capital paulista após deixarem a Alemanha.

Nessa época, sequer existia televisão. O livro, além de ser um objeto por meio do qual se adquiria conhecimento e cultura, era também uma forma de entretenimento. Inclusive, uma pessoa alugava o mesmo livro repetidas vezes.

O negócio dos Kurt cresceu a ponto de a família ter que ceder mais espaço da casa para os livros que se avolumavam.

Até que resolveram se instalar num outro espaço, localizado na Avenida Paulista. Com o passar do tempo, deixaram de investir no serviço de aluguel e passaram a vender livros. Era o começo da Livraria Cultura, que, atualmente, conta com dezessete unidades no Brasil.

A Livraria Cultura é um ambiente bastante agradável e convidativo para aqueles que adoram passar algumas horas do dia na companhia de um livro. A iluminação é muito adequada e favorece a leitura, que pode ser prazerosamente acompanhada de um delicioso café e outras bebidas e comidas disponíveis no cardápio do próprio Café da livraria.

Há poltronas vermelhas confortáveis espalhadas por todo canto, que combinam com os tapetes dispostos, e harmonizam com as colunas alaranjadas, e demais tons amarelados de paredes e móveis, que provocam no leitor a alegria e a fome voraz e insaciável para devorar tantos livros quantos forem possíveis.

Pedro conta como pensou em cada detalhe para tornar o ambiente mais aconchegante, e de como organizou tudo para acolher os clientes, de tal modo que eles permaneçam muito tempo no local.

Criou um espaço infantil, onde os pequenos podem sentar no meio de um dragão de madeira, que sopra o seu fogo imaginário e planta nas crianças juntamente com os pais e os livros as sementes da criatividade.

Pedro acredita que os pais são os responsáveis por incentivarem os filhos a ler.

No entanto, o que vê, muitas vezes, são pais que levam os filhos para a livraria e os deixam abandonados à própria sorte, danificando os livros e retirando os produtos dos lugares, estrategicamente escolhidos para ficarem armazenados ou expostos.

Essa prática se estende aos adultos, que também fazem bagunças, tiram os livros e não os devolvem ao local, bem como rasuram as obras sem dó, nem piedade, nem ressarcimento.

Pedro faz esses relatos, talvez apenas como desabafo ou na esperança de que as coisas possam ser transformadas.

Ele fez o seu curso de livreiro na Europa, por onde morou cerca de dois anos, vivendo às próprias expensas, movido pelo conselho de sua mãe: “Vá ver o mundo, Pedro”.

Ao retornar, empenhou-se, juntamente com a sua mãe, em expandir a livraria, e passou a comercializar outros produtos, além dos livros.

Entretanto, apesar da expansão, os Kurt não ficaram imunes à crise econômica que assolou e, ainda, compromete as empresas. Além do mais, o desenvolvimento tecnológico impacta no negócio da livraria, pois além de os livros disponíveis nas plataformas de leitura digital serem bem mais baratos, atualmente, há produtos vendidos na Cultura, que não são tão atrativos como outrora, a exemplo dos CDs e DVDs.

Apesar disso, Pedro não lastima, nem pragueja contra os avanços da tecnologia. Muito pelo contrário, busca inovação constante e tenta acompanhar o desenvolvimento do mundo digital.

Quanto ao futuro da Livraria Cultura, que está no mercado há setenta e dois anos, ele afirma que não há como prever, mas esforça-se para conseguir mantê-la pelo tempo que for possível, apesar das dificuldades.

Uma das tarefas mais árduas para manter um negócio como esse, talvez seja a conquista de leitores, que estão cada vez mais escassos no país. Além da falta de tempo alegada por quase todas as pessoas, o Brasil não possui uma cultura voltada para a apreciação do ato de ler.

Essa realidade tem ocasionado impacto, inclusive, na seleção de pessoas para trabalharem na livraria, pois a pouca disposição à instrução inviabiliza a que os candidatos tenham conhecimento até mesmo de autores importantes e conhecidos, como é o caso de Machado de Assis.

Ainda, há a questão do mercado digital, onde podemos adquirir inúmeras coisas, sem ao menos termos o trabalho de nos dirigirmos a uma loja física. Sem falar na gigante Amazon, que disponibiliza variados produtos a um preço menor e cuja logística atende a expectativa dos clientes.

Atualmente, Pedro não conta mais com o auxílio de seus pais, que já partiram. Seus dois filhos chegaram a trabalhar com ele por um período, entretanto seguiram outros caminhos.

Pedro permanece firme a olhar o horizonte incerto. O seu mais recente ato de coragem foi, em meio à crise, adquirir as operações brasileiras da FNAC. Apesar das incertezas, ele avança a passos largos.

Uma de suas maiores preocupações são os problemas de todas as ordens que o Brasil enfrenta. Chega a perder o sono a pensar nas coisas que poderia fazer, caso fosse Presidente da República.

O Brasil precisa evitar o desperdício, afirma. Os governantes devem parar com essa mania de condenar tudo aquilo que foi feito pelo governo anterior e melhorar o que existe, enfatiza.

Ele diz que já não tem tanto tempo assim para esperar que as coisas demorem a acontecer. O tempo passa e Pedro tem pressa de viver e de ver.

É evidente a sua vontade de ajudar o país que recebeu e abrigou tão bem os seus pais, fugitivos do horror da Alemanha nazista. Daí imaginar-se na condição de chefe maior do Estado, dotado de poderes transformadores a nos oferecer uma realidade mais palatável.

No entanto, mesmo não sendo o Presidente do país, provavelmente Pedro já conseguiu mudar a vida de várias pessoas que, assim como ele, são apaixonadas pelos livros.

Ele diz: “Ler é ouvir o outro. Mas as pessoas não ouvem mais”.

Digo, pois:

Pedro, fala, que eu te ouço. E escuto com a atenção e a afinidade de quem luta, ainda que de forma modesta, para combater os mesmos males que te preocupam e destroem tanto o povo brasileiro, a exemplo da ignorância e da falta de educação e cultura.

Mas nem tudo está perdido, ainda existe a sua paixão de livreiro pelos livros que, se não é capaz de salvar uma nação inteira, pelo menos salva a si mesmo e aqueles que, indiretamente, você, com a sua persistência, consegue alcançar.

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