Explosão de alegria

Chorar nunca foi uma das minhas marcas durante a vida. Choro muito pouco e, quando as lágrimas brotam, costumam ser decorrentes daquele período em que o corpo da mulher se prepara para receber um filho e ele não vem. Portanto, meu choro, quase sempre, é de ordem biológica.

Longe de alguém pensar que não tenho lá as minhas emoções. Tenho sim e aos montes, mas quase sempre são originárias das inúmeras alegrias que me ocorrem.

Meu temperamento não cede muito à tristeza, de modo que procuro espantá-la antes que ela bata à porta ou, até posso permitir que ela entre de vez em quando, desde que a visita não seja demorada.

Quando ela chega, não faço sala. Trato de me mexer logo, ou com exercícios físicos ou domésticos, ouço músicas, assisto entrevistas, documentários e palestras, leio um livro, escrevo, faço orações e, antes que eu possa oferecer um chazinho, ela se despede e vai embora.

Entretanto, uma vez que não sou de ferro, mas de carne, osso e sangue, às vezes sinto dores como todo humano mortal. Então, permito-me chorar. Quando isso acontece, na sua raridade, fico tranquila por estar ciente de que, passada a escuridão da noite, virá outro dia todo iluminado com o sol esplendoroso, que irradiará ainda mais os rostos alegres. Então, de novo, fico alegre.

Mas também há o choro de alegria. Aquela alegria que, de tão grande, dá-nos a impressão de que, a qualquer momento, vamos explodir. E a explosão pode vir em forma de lágrimas.

Pois não é que explodi e derramei cinco talhas de lágrimas, as quais transformei em vinho?

Há tempos que não faço sequer uma caridade, no entanto, tenho recebido tanta generosidade, que logo me vi invadida por um sentimento de enorme gratidão por tudo. Gratidão misturada com a mais pura alegria de viver.

Ao saber que estou trabalhando na edição e na publicação do meu primeiro livro, três amigos se prontificaram a ajudar-me em todas as fases, desde às decisões a respeito dos preparativos iniciais até o momento posterior à publicação.

Há quem cuida da organização e ordenação dos textos, da revisão, da busca por um título, da capa com o seu desenho, da melhor editora, enfim, de todos os detalhes para os quais eu teria que despender um esforço enorme e, por alguns momentos, desviaria-me daquilo sobre o qual quero me concentrar com maior afinco, que é o conteúdo do livro.

Houve até quem se ofereceu para melhorar a minha aparência no evento de lançamento da obra, sob o argumento de que gosta tanto de mim que quer me ver mais bonita nesse dia. Ela disse: “Faço questão e é tudo por minha conta.”

Eu, que não rejeito as ações daqueles que me têm em alta conta, aceitei de imediato a proposta de ficar mais bonita, ainda que por um só dia.

Depois, veio um outro me presentear, sem nem ao menos ser o dia do meu aniversário. Por pura amizade que sente, ele quis retribuir-me com perfume, como se fosse um reconhecimento de que posso exalar a fragrância das rosas, embora tenha lá os meus espinhos.

E por falar em espinhos, também tenho sido agraciada por aqueles que me abraçam, apesar de, às vezes, eu usar de minha ira para espetá-los. É como se percebessem que só utilizo de minhas armas por um instinto de proteção e não por maldade ou vontade deliberada de ferir.

Conto outra, minha mãe me fez uma pequena homenagem, na qual exaltou que sou uma filha perfeita. Mãe é mãe, eu compreendo. Não pense que vou às alturas com isso, pois bem sei que o olhar dela é viciado de selvageria e afetos. Mas, veja bem, nem era tempo de comemorar o dia dos filhos. Ela agiu movida tão somente de amor gratuito.

Tem mais, dias atrás estava andando pelas ruas, quando fui surpreendida por um mendigo que me pediu dinheiro e eu disse que não tinha. Ele se virou para o amigo que estava ao lado e falou: “Tá vendo essa moça aí? Pois ela é minha irmã”.

Como não se encher de gratidão com uma afirmação dessas? Enquanto um irmão de sangue deixa de nos reconhecer como tal, apesar de já termos doado tanto, um mendigo ao qual recusei dar algumas migalhas, perdoa-me e acolhe-me em fraternidade. Provavelmente, ele tem consciência de que a miséria não atinge apenas aqueles que caíram na mendicância e, diante disso, teve misericórdia e piedade de mim que tanto tenho e por mais espero.

E como se eu tivesse sido escolhida para ser ainda mais agraciada, eis que Aparecida, mais uma vez, apareceu-me depois de alguns dias de sumiço.

Se você já teve uma casa magicamente transformada ou, mesmo se nunca teve, vai entender o motivo da minha profunda gratidão e alegria.

Valorizo muito um ambiente limpo e organizado, sem o qual ficaria quase impossível ler em paz e escrever. No entanto, só há duas pessoas no mundo que podem me oferecer esse cenário perfeito – eu mesma e a outra Aparecida.

Dessa vez ela apareceu com força. Deixou o meu lar tão impecável que cheguei a sair e a entrar em casa por três vezes só para fingir que estava surpresa com tanta arrumação e delicadeza. Roupas dobradas e postas em seus devidos lugares, sapatos limpos e arranjados, lençóis e toalhas cheirosas, roupas lavadas e passadas, despensa e louças organizadas. Cada canto da casa estava totalmente livre de impurezas ou máculas. Cada coisa em seu devido lugar e um lugar para cada coisa.

E isso foi feito num dia anterior à chegada do final de semana, que será todo disponível ao meu prazer e deleite, uma vez que ela, com maestria, livrou-me dos trabalhos da casa. Até as frutas foram descascadas e dispostas em vasilhas guardadas na geladeira. Não terei nem mesmo o trabalho de tirar a casca de uma banana. Aparecida pensou em tudo.

Liguei para elogiar o seu trabalho, o qual caracterizei como perfeito. Ela agradeceu e aproveitou para avisar que havia cortado as frutas para mim. Respondi que havia percebido e adorado a gentileza. Ao final, declarou que a minha casa é muito boa de limpar, como se o mérito fosse meu por ter uma casa limpável.

Todas essas coisas me encheram de alegria a ponto de ocasionar uma explosão de lágrimas. E nem venha me dizer que são lágrimas de crocodilo, porque elas são muito verdadeiras e tem o valor das raridades por não serem derramadas todos os dias.

Nem sei como agradecer pela torrencial chuva de bençãos. Se tão pouco faço e tanto recebo é porque existe um Ser que, tal qual o mendigo, olha para mim com amor, piedade e muita misericórdia.

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